CAPÍTULO 02 - NOVO MUNDO
“Dominus” disse Marcus enquanto posicionava sua peça de falange na diagonal do rei, encerrando o jogo.
“Moleque, você é uma peste, maldito o dia que te ensinei a jogar Regnum!” disse Erina, uma Cornídea de pele azul escuro, olhos e cabelos pretos. Sua aparência poderia ser considerada “assustadora”. Com certeza faria algumas crianças chorarem, pois além da cor da pele ser muito chamativa, ela tinha asas e chifres!
“Tia Erina, você sabe que, mesmo sem fazer expressão nenhuma, não tem como esconder seus sentimentos de mim! Eu vi sua Ansiedade. Quando percebi que você deixou uma diagonal inteira aberta, foi fim de jogo” retrucou Marcus.
Haviam se passado sete anos desde que Marcus renasceu neste mundo.
Agora, seu nome era Oliver.
Um meio-elfo de cabelos roxos e olhos vermelhos, com a pele tão pálida que parecia quase translúcida. Erina era a única amiga de Oliver nesta vida, e ele tinha grande carinho por ela. Muitas vezes, passavam a tarde jogando Regnum, um jogo de tabuleiro parecido com xadrez.
Sua mãe, uma elfa de cabelos roxos, na verdade, era uma elfa da alma. Oliver herdou parte da linhagem dela. Sendo meio-elfo da alma, possuía uma habilidade estranha. Ele podia ver a cor das almas das pessoas. Aprendeu com a mãe o que cada cor significava. Eram sentimentos. Basicamente, ele via as emoções através das almas.
“Tia Erina, eu tenho que ir. A mãe disse pra eu passar e comprar repolhos. Até mais” despediu-se Oliver, saindo do Bordel Cauda de Sereia e indo em direção à feira.
…
Durante sua caminhada no pequeno vilarejo de Corval, Oliver encontrou vários rostos conhecidos.
“Boa tarde, Sr. Asterion!” cumprimentou Oliver.
Asterion era o padeiro. Oliver sempre comprava pão com ele. Era um minotauro grande e robusto, mas extremamente simpático.
“Boa tarde, Sra. Joana!” cumprimentou Oliver novamente.
Joana era a única herbalista da cidade. Uma idosa doce e amigável. Toda vez que Oliver ficava doente, sua mãe comprava medicamentos com ela.
Ao fim da caminhada, ele chegou a uma barraca de madeira. Havia inúmeros vegetais expostos, e um homem careca de meia idade estava sentado, abanando o rosto com um leque branco.
“Ultimamente anda tão calor por aqui, odeio o verão!” exclamou o homem, enquanto via Oliver se aproximar.
“Boa tarde, Sr. Otto. A mãe pediu dois repolhos” disse Oliver, enquanto entregava duas moedas de cobre ao homem.
O homem rapidamente colocou dois repolhos numa pequena cesta e a entregou para Oliver.
“Não vai esquecer de devolver a cesta depois” disse o homem de meia idade, enquanto observava Oliver.
“Não vou esquecer, não se preocupe” respondeu Oliver, enquanto saía, voltando para casa, na direção do Bordel Cauda de Sereia.
No meio do caminho, Oliver cumprimentou mais algumas pessoas. A maioria era amigável e receptiva, mas alguns olhares não podiam ser disfarçados. Ou melhor, mesmo que disfarçassem, Oliver saberia a sinceridade de cada um ao olhar para a alma.
No trajeto de volta, uma bola voou na direção de Oliver. Por reflexo, ele a dominou e a devolveu com precisão para cinco garotos humanos que brincavam com a bola. Só depois de devolver, Oliver percebeu o quão natural aquele movimento tinha sido.
Era estranho como certos reflexos não desapareciam, mesmo em outra vida.
“Credo, não encostem na bola. Esse meio-elfo é filho de uma prostituta. Agora a bola deve estar contaminada, que nojo” disse em voz alta um garoto loiro e gordo.
Oliver virou em direção aos cinco garotos e os encarou. Quatro deles tremeram levemente com o olhar de Oliver. Não era a primeira vez que ele ouvia comentários do tipo. Era verdade que sua mãe era uma dama da noite, mas nem por isso ele deixaria crianças aleatórias falarem mal dela abertamente.
“O que foi? Você ficou incomodado seu merdinha? Sabe que é literalmente um filho da puta né?HAHAHAHAAHAHAH” disse o garoto gordo, provocando Oliver.
Oliver se aproximou. Ele conhecia os outros quatro garotos, mas aquele era novo. Talvez tivesse acabado de se mudar para o vilarejo.
“Que saco cara… eu meio que estava tranquilo hoje…” pensou Oliver enquanto caminhava na direção do garoto.
Oliver decidiu que lhe daria uma lição, não por impulso nem por se sentir ofendido. Aos seus olhos, era só uma criança, mas, mesmo assim, aquilo não podia ficar sem resposta. Essa era a melhor maneira de passar um recado que entendessem.
Na vida passada, Marcus era um militar treinado e ainda guardava lembranças das técnicas de combate desarmado. Ele nunca tinha perdido uma briga para crianças na nova vida.
O garoto gordo emanava uma cor dourada, misturada de leve com um tom esverdeado. As cores representavam ‘confiança’ e ‘nojo’. Provavelmente ele estava confiante em encarar Oliver e sentia um tanto de nojo dele.
Os outros quatro garotos se afastaram, vendo que uma luta começaria. Quando Oliver ficou frente a frente com o garoto loiro e gordo, precisou olhar para cima para encará-lo.
Oliver podia ser considerado alto para um garoto da idade dele, talvez herança dos elfos. Ainda assim, o gordo à sua frente era maior. Devia ter cerca de doze anos. A altura de Oliver chegava apenas à altura do peito dele.
“Seu poço de gordura ambulante, quem você pensa que é pra falar de mim e da minha mãe? Eu te conheço?” perguntou Oliver. Ele não sentia raiva de crianças, mas também não podia se deixar intimidar.
“Eu? Sou filho de …” a frase nunca foi terminada, pois antes de acabar, Oliver desferiu um soco na bochecha esquerda do garoto gordo.
A grande quantidade de gordura na bochecha amorteceu o impacto do soco, sem causar dano real.
“Você soca igual uma menininha!” disse o garoto gordo, pronto para revidar.
Quando ele preparou o soco, Oliver percebeu que não podia ser acertado por aquilo. Ele sairia machucado. Mergulhou para baixo e desviou. A cesta com repolhos caiu no chão, e os repolhos rolaram para longe.
“Ahhhhhhhh meus repolhos!” exclamou Oliver, indignado.
“Eu não queria fazer isso, mas você me obrigou!” disse apontando para o garoto gordo, que tinha errado o soco.
Oliver circulou sua mana, imaginando elétrons se acumulando na ponta dos dedos, prontos para escapar. A mão começou a coçar e ele pôde sentir. Havia eletricidade ali.
Nesse novo mundo, além das raças extraordinárias, o que mais chocou Oliver foi a existência de magia. Mana era uma energia que podia ser manipulada apenas com o pensamento, o poder de moldar a realidade conforme sua vontade. Oliver treinou essa habilidade durante algum tempo, mas nunca obteve grandes resultados. Afinal, não deveria ser simples.
Oliver socou novamente. O soco em si foi ineficiente, o garoto era protegido por uma camada grossa de tecido adiposo. Mas dessa vez, o golpe veio carregado de eletricidade.
O garoto gordo se afastou, assustado por ter recebido uma descarga elétrica. Mas, para o azar de Oliver, a descarga só o afastou. Foi fraca demais.
“Droga…” murmurou Oliver. O garoto gordo era robusto demais. Seria difícil vencer aquela luta.
“Quem diria que eu estaria numa situação dessas contra uma criança…” pensou Oliver. Mesmo renascendo, mantinha todas as memórias. Sua mente era de um adulto.
Oliver ergueu as duas mãos, em guarda, e começou a circular ao redor do garoto gordo, procurando uma oportunidade de atacar. As outras quatro crianças assistiam fixamente, sem desviar o olhar e perder um momento sequer.
O garoto gordo também mantinha a guarda alta. Ele esperava o ataque de Oliver e parecia gordo demais para se mover com facilidade. Quando Oliver decidiu atacar, foi interrompido por uma voz áspera que soou de longe.
“Alto lá suas pestes! Parem de brigar imediatamente!” disse um homem armadurado.
O homem era alto, possuía olhos e cabelos castanhos. Vestia uma cota de malha completa, nas costas carregava um escudo ainda preso. Na mão, ele tinha uma lança gigantesca, quase o dobro do tamanho dele.
“Tio Baldric! Foi esse imenso que começou!” exclamou Oliver, indignado por ter a luta interrompida.
“Eu não quero saber, parem imediatamente. E não achem que eu não vou contar para seu pai, jovem Jonathan” disse, apontando para o garoto gordo.
“Hehehe, merecido, vai ser dedurado!” disse Oliver, se divertindo com a punição do garoto gordo.
“Eu também vou contar para sua mãe, Oliver. Não se preocupe, não gosto de favorecer ninguém” respondeu calmamente o guarda Baldric.
“Fofoqueiro maldito…” sussurou Oliver, esperando que o homem não ouvisse.
As cinco crianças começaram a se dispersar, cada uma indo para seu lar. Oliver viu a alma de Jonathan brilhar num vermelho intenso. Aquilo era ódio puro.
Oliver recolheu os repolhos e ia embora quando uma mão pousou em seu ombro.
“Oliver, eu ficaria esperto se fosse você. Não mexa com essa gente se não puder suportar as consequências…” orientou o guarda Baldric. A alma dele emitia uma cor arroxeada, indicando medo e preocupação. Isso deixou Oliver aflito.
“Tudo bem, vou ficar esperto. Obrigado por avisar, tio Baldric…” agradeceu Oliver, voltando rapidamente para casa.
“Esse tipo de gente? O que o tio Baldric quis dizer?”
Ao voltar ao bordel, Oliver seguiu para os fundos, onde havia algumas ‘casas’ pequenas feitas de madeira. Entrou num desses casebres mofados, procurando pela mãe. Aquele era o seu ‘lar’.
“Mãe, cheguei. Houve um incidente. Talvez o repolho tenha amassado um pouco…” explicou, procurando pela mãe. Mas não pôde encontrá-la em lugar nenhum. Então seguiu para a cozinha do bordel, levando a cesta.
Procurando, encontrou a mãe, uma elfa de olhos dourados e longos cabelos roxos. Sua alma emanava uma cor branca e fria, indicando concentração. Quando percebeu o filho se aproximando, abriu um sorriso.
“Você já chegou, filho, trouxe os repolhos?”
“Sim, mãe, aqui estão” disse Oliver, colocando a cesta em cima da mesa.
“Por que estão amassados?”, perguntou Eliandris. Da alma dele emanava a cor laranja, um brilho que denunciava a dúvida.
“Eu… eu acabei derrubando no meio de uma briga” explicou Oliver.
“O que?” perguntou, perplexa. Não era a primeira vez que o filho se envolvia com brigas, mas ela sabia que era parcialmente culpada disso.
Oliver explicou tudo, inclusive o conselho que o guarda Baldric havia dado. Ele preferia contar pessoalmente o que aconteceu, em vez de deixar terceiros fazerem isso.
“Meu filho, por favor, evite causar problemas… não faça nada imprudente” alertou Eliandris. Ela parecia preocupada. Uma aura arroxeada emanava de sua alma. Oliver entendeu que deveria deixar aquele assunto para lá e tomar cuidado.
“Tudo bem, mãe, eu vou deixar quieto” prometeu ele.
…
Nesse momento, numa casa mobiliada com móveis caros e finos, havia dois homens sentados em poltronas acolchoadas. Um deles possuía olhos afiados. Era loiro e alto. Era o mercador Balthazar Venn.
À sua frente, sentava-se um senhor careca e gordinho. Era baixo e possuía um bigode longo e curvado. Era o Orador da cidade, Silas Greymark.
“Balthazar, quando sua loja fica pronta? Não vejo a hora de ela estar cheia de clientes hehehe” disse o velho baixinho.
“Em breve meu amigo, em breve… preciso fazer um desvio para enviar as mercadorias pra cá sabe, algumas simplesmente não podem ser vendidas na capital Eldravin…” disse o homem loiro e alto.
Interrompendo a conversa dos dois, a porta se abriu quando um jovem garoto gordo e loiro entrou.
“Pai, eu preciso lidar com um mestiço nojento, ele ousou mexer comigo! Ele é só o filho de uma prostituta, mas parece que não sabe o seu lugar” disse Jonathan, não se importando com a presença de Silas na sala.
“Jonathan, meu filho, o que eu já te disse sobre bater na porta ao entrar?” o olhar afiado de Balthazar caiu sob seu filho. Jonathan abaixou a cabeça imediatamente.
“D-Desculpa pai…” disse o garoto, cabisbaixo.
“Ótimo que tenha entendido seu erro, mas me diga sobre esse ‘mestiço’” Balthazar questionou com uma gota de curiosidade.
“E-ele sabia usar magia pai, estava se achando. Eu fui dar uma lição nele, mas ele fugiu” mentiu Jonathan, toda vez que ele falava com seu pai, sentia que estava pisando em ovos.
“Tudo bem, qual o nome dele?”
“Oliver… um meio-elfo de cabelos roxos e olhos vermelhos…”
“Oliver? Eu conheço o garoto, é uma criança esperta, a mãe dele realmente trabalha no bordel Cauda de Sereia, já vi ela lá inúmeras vezes em minhas ‘visitas’ hehehe” falou o Orador da cidade, Silas.
“Muito bem… vou contratar um professor pra te ensinar magia, você vai se tornar um mago… não me decepcione, pode dar uma surra pessoalmente nesse garoto quando aprender magia, mas por enquanto eu já posso mandar um recado…” comentou Balthazar.
“Garet!” gritou o homem, chamando um subordinado.
“Sim, meu senhor.” Um homem apareceu na porta. Ele tinha estatura média, possuía barba e cabelos negros. Quando se mostrou, fez uma leve reverência.
“Vá amanhã a esse bordel Cauda de Sereia e mande um ‘recado amigável’ para a mãe desse garoto, ele precisa saber o lugar dele, ela deve educá-lo melhor.” disse Balthazar.
“Sim, meu senhor, como desejar” o homem se retirou e voltou a seus afazeres. No outro dia ele teria que fazer algo que não gostaria nem um pouco.

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