“Você consegue ver… não consegue?”

    “V-ver o quê, senhor?”  Oliver gaguejou com medo.

    “A cor da minha alma.”

    Oliver tentou ver. Mas ali… não havia nada para enxergar. Nem cor, nem brilho, nem sombra. Só um vazio coberto por um véu.

    “N-não, senhor. Eu… não vejo nada.”

    Agora, mais perto, Oliver conseguiu uma visão mais clara da figura.

    Era um homem alto, envolto por um capuz negro que escondia quase todo o rosto. Na cintura, pendiam bolsas e equipamentos demais para identificar. Na mão, uma lâmina curva manchada de sangue, a mesma que abriu a garganta do lobo líder com um único golpe.

    Por um instante, o silêncio pesou. Oliver sentiu perigo na presença dele, como se cada movimento fosse calculado.

    Então, de repente, o tom do homem mudou completamente.

    “Ah! Ótimo! Então o item de ocultação que me venderam funciona mesmo. Esconde até minha alma de um elfo da alma!” Ele pareceu satisfeito, quase divertido.

    Oliver piscou, confuso.

    “Hm… você é filho da Eliandris, garoto?” O homem perguntou, agora com curiosidade genuína. “É a única elfa da alma por estas bandas.”

    “Sim, senhor…” Oliver assentiu.

    Antes que pudessem continuar a conversa, a adrenalina no corpo de Oliver começou a ceder.

    E, quando cedeu, a dor o atropelou.

    Oliver olhou para a própria perna e sentiu o estômago revirar. O ferimento era horrível: do joelho para baixo, tudo parecia errado. O braço mordido latejava como se estivesse em brasa. Ele tentou respirar fundo… mas as lágrimas vieram mesmo assim.

    O homem estalou a língua.

    “Certo, você tá num estado lastimável, mas eu resolvo.”

    Ele abriu uma das bolsas e tirou um frasco pequeno. Dentro, um líquido vermelho vivo borbulhava com vida própria.

    “Bebe.”

    Oliver hesitou só o tempo de lembrar que, se aquele homem quisesse matá-lo, já teria feito. Pegou o frasco com dedos trêmulos e engoliu.

    A sensação foi imediata.

    Um calor percorreu seu corpo. A carne se fechou, o inchaço baixou, a dor recuou como uma maré. Oliver viu, a olho nu, os ferimentos cicatrizarem em segundos. Quando se deu conta, conseguia firmar o pé no chão e mover os dedos sem tremer.

    Oliver inspirou fundo, ainda incrédulo.

    “Caramba… isso é incrível. Obrigado…”

    “Meu nome é Grim”, o homem corrigiu, como se estivesse encerrando um assunto. “E não me agradeça ainda, essa poção vai sair do seu bolso.”

    O estômago de Oliver afundou.

    “S-senhor Grim… quanto custa uma poção dessas?”

    “Não é das mais caras. Cura comum.” Grim estendeu a mão, como se pedisse o dinheiro. “Quarenta e cinco peças de ouro, e a gente encerra aqui.”

    Oliver congelou.

    “Q-quarenta e cinco?! Senhor, eu não tenho isso!”

    Aquilo era absurdo. Ele e a mãe passavam um mês inteiro com duas moedas de ouro, quando conseguiam. Quarenta e cinco… sustentaria a casa por tempo demais para parecer real, cerca de dois anos!

    Grim deu de ombros, como se estivesse falando do preço do pão.

    “Era de se esperar. Então eu cobro da sua mãe. Cedo ou tarde, eu recebo. Não tenho pressa.” Ele estreitou os olhos. “Aliás… como é seu nome mesmo, garoto?”

    “Oliver”, a curiosidade escapou antes que ele pensasse melhor. “Senhor… como conhece a minha mãe?”

    “Não te interessa.”

    Oliver engoliu a pergunta.

    “Se essa poção é só uma cura comum, como pode ser tão milagrosa?” questionou Oliver, verdadeiramente curioso.

    Dessa vez o homem não pareceu se importar em responder.

    “Isso é porque você é só uma criança. Não teria o mesmo efeito num homem adulto. Uma poção de cura comum tem sempre o mesmo fator de cura, mas os resultados variam de pessoa pra pessoa. Poções de cura são praticamente inúteis pra artistas marciais… é como água colorida.”

    “Artistas marciais? O que é isso? É algum tipo de clube da luta?” Desde que reencarnou nesse mundo, era a primeira vez que ouvia falar de tais especialistas. Oliver estava confuso.

    Enquanto Oliver tentava entender o que tinha ouvido, Grim já trabalhava no corpo do lobo negro. Com uma eficiência mecânica, começou a esfolar o animal e separar a pele como quem repete um ofício antigo. Em seguida, abriu o peito da criatura e enfiou a mão entre as costelas.

    Quando puxou, uma esfera cristalina azul brilhou sob a luz filtrada das folhas.

    Oliver prendeu a respiração.

    Era do tamanho de um morango, mas emitia um leve brilho azulado, chamando a atenção.

    Grim guardou a esfera numa bolsa acolchoada e então lançou uma pergunta:

    “O que você estava fazendo sozinho na floresta?”

    “Na realidade, eu não estava sozinho… meu tutor ia me ensinar a caçar, mas as coisas acabaram do jeito que acabaram…”, falou Oliver, sem dar muitas explicações.

    “Entendo. Vocês deram azar. Esse Lobo Marca-Dourada deve ter recém-evoluído. Vocês não eram páreos pra ele. Você deu sorte que eu estava por perto e te ouvi pedindo ajuda”, explicou o homem.

    “Lobo Marca-Dourada? Evolução?” Oliver continuava confuso com as coisas que aquele homem dizia. Mesmo vivendo há sete anos nesse mundo, nunca ouvira falar nada do tipo. Isso o fazia se sentir um caipira que não conhecia o mundo. O que, tecnicamente, era exatamente o que ele era.

    “De qualquer forma, vamos. Vou te levar de volta pra cidade. Estamos na periferia da floresta, ela não está longe”, falou o homem enquanto guardava a pele recém-tirada do lobo.

    Oliver apontou para o resto do lobo negro, agora sem pele, e perguntou:

    “Senhor Grim, essa carne é comestível? Um dos motivos de eu ter entrado na floresta foi caçar, mas, em vez disso, eu é que fui caçado…”

    “Sim, é comestível, o gosto não é particularmente agradável, mas dá pra comer. Se quiser, posso tirar um pedaço pra você levar.”

    Os olhos de Oliver brilharam de esperança, mas logo se apagaram.

    “E quanto o Sr. cobraria por isso?”

    Grim parou. Virou-se para Oliver com uma expressão que beirava o insulto genuíno.

    “Ahn? O que você acha que eu sou, garoto? Algum mercenário sem alma que cobraria de uma criança por sobras?” Sua voz carregava indignação. “Eu não vou te cobrar a carne!”

    “Sim”, pensou Oliver, “é literalmente isso que eu penso do senhor.”

    Mas teve o bom senso de não verbalizar.

    O homem retirou um pedaço generoso de carne e embrulhou. Não entregou para Oliver, já que parecia pesado. Em vez disso, pendurou numa corda e carregou no ombro.

    Em seguida, abriu caminho entre as árvores, indo embora.

    Oliver acenou, aliviado, e seguiu atrás do homem misterioso que havia salvado sua vida e agora o guiava de volta para casa, enquanto carregava nas costas tanto seu jantar quanto uma dívida impagável.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota