O caminho de volta foi tranquilo, Oliver estava se sentindo horrível, um misto de sentimentos inundaram seu ser. Alívio por estar vivo, medo de lembrar da experiência traumática e o que teria acontecido se Grim não o tivesse encontrado. Tristeza pela morte de alguém que conhecia.

    Mesmo que Talruk não fosse um amigo próximo, ele ainda era uma pessoa da pequena vila de Corval, Oliver o via quase todos os dias, ele montava a barraca e vendia a carne caçada. Mas agora, essa pequena parte da vila de Corval se fora, não há mais Talruk, Oliver presenciou seu corpo sendo devorado pelos lobos, viu a alma dele se apagando, tinha certeza que estava morto.

    No meio do caminho, Oliver abriu a boca para falar, depois hesitou. “Sr. Grim… é possível voltar para pegar os restos mortais do meu instrutor?” Sua voz era baixa, ele deveria ter perguntado isso mais cedo.

    “Não, já estamos muito longe. Além disso, você não gostaria de ver o que sobrou, tenho certeza. Posso servir de testemunha e dizer para o Orador da cidade o que aconteceu, não é tão incomum quanto você pensa, pessoas morrerem dessa maneira.”

    “Não é tão incomum assim?” Oliver estava desacreditado, em todos os 7 anos morando na vila de Corval nunca ouviu falar de alguém morrendo por animais selvagens.

    Chegando na cidade, Grim guiou Oliver diretamente para o Bordel, ele sabia o caminho. 

    Quando a mãe de Oliver viu ele naquele estado e com a ausência de Talruk, ela só pode correr para abraçá-lo e perguntar o que havia acontecido, dúvida inundava sua mente.

    “Filho, o que aconteceu com você? Cadê o Sr. Talruk?”

    “Mãe… fomos atacados por uma alcatéia, tinha um lobo diferente, ele tinha pelos negros e marcas douradas pelo corpo. Se não fosse o tio Grim, eu teria morrido. Tio Talruk não deu tanta sorte, infelizmente…” explicou Oliver, sua voz era baixa e contida, ele ainda estava processando o que havia acontecido.

    Eliandris congelou. Seus olhos se moveram para Oliver, analisando-o em busca de ferimentos. Apenas quando confirmou que ele estava vivo e inteiro é que permitiu que respirasse novamente.

    “É verdade, mas o garoto trouxe um pedaço de carne do lobo, então no fim das contas não foi tão ruim assim” disse Grim, entregando o pedaço de carne para Eliandris.

    Ela o recebeu mecanicamente, mas seu olhar permanecia em Oliver. O ‘nojo’ que sentia pelo pedaço de carne era nada comparado ao vazio que a notícia sobre Talruk deixava.

    “Obrigada, Grim” disse ela, sua voz tremendo levemente. “Obrigada por trazer meu filho de volta.” Ela se curvou, o peso tanto da gratidão quanto do luto nos ombros, ela parecia emocionada, mas se conteve.

    “Não precisa agradecer, o garoto ainda vai te dar dor de cabeça, tive que usar uma poção de cura nele, você está me devendo 45 peças de ouro.” Grim estendeu a mão, esperando receber o dinheiro.

    “Não tenho esse valor agora, mas não se preocupe, eu vou te pagar” respondeu calmamente Eliandris.

    “Tudo bem, não sei como vai fazer isso, mas eu acredito em você, até mais” disse o homem virando as costas e partindo logo em seguida.

    Já era tarde, a caça na floresta levou a manhã inteira.

    Os alojamentos atrás do bordel abrigavam as damas da noite, algumas pessoas transitavam por ali quando isso aconteceu, pareceram curiosas, mas se esforçaram para não olhar muito. Grim, de alguma forma, passava a impressão de ser uma pessoa intimidadora, alguém com quem você não gostaria de lidar.

    “Como ele pode ser tão insensível?” Eliandris balbuciou enquanto entrava, deixando o grande pedaço de carne embrulhado em cima da cama.

    Oliver também entrou, analisando sua mãe e o pedaço de carne de lobo. Ele nunca pensou que essa caçada resultaria na morte de seu tutor, uma dívida de 45 peças de ouro e um pedaço generoso de carne de lobo.

    “Mãe… esse pedaço de carne, a gente pode tentar vender ele e comprar comida” Oliver falou, sua voz ainda soando desanimada.

    “Meu filho, carne de lobo é horrível, ninguém vai comprar isso!” Eliandris disse firmemente. 

    “Não é possível, tudo isso pra nada…” Oliver acreditou imediatamente em sua mãe, ela falou com muita convicção. 

    Ele não podia acreditar. Uma caçada que era para ser simples resultou em perdas tão terríveis. Oliver estava abalado.

    “Bom, se nós não podemos vender, então vamos comer!” disse Oliver, encarando sua mãe.

    Ela ainda estava machucada, ficaria alguns bons dias sem trabalhar no bordel.

    Esse generoso pedaço de carne poderia alimentá-los nesse período.

    Eliandris olhou para Oliver um tanto desacreditada, ela suspirou e assentiu.

    “Parece que as coisas realmente chegaram nesse ponto, vamos ter que comer carne de lobo para não passar fome…”

    “Mãe, e a dívida de 45 peças de ouro? É MUITO dinheiro, temos que dar um jeito” mesmo abalado, a mente de Oliver produzia pensamentos incessantemente procurando maneiras de resolver seus problemas.

    Eliandris suspirou novamente.

    “Não se preocupe com isso, eu vou dar um jeito…” 

    Oliver não sentiu confiança nas palavras de sua mãe, a cor de sua alma também não era agradável, era um misto de laranja com azul, ela parecia ansiosa e triste. 

    “Sr. Talruk era um bom homem, mas dar de cara com uma fera mágica, foi um infortúnio,  estou feliz que você tenha sobrevivido meu filho…”

    Eliandris abraçou Oliver quando Grim saiu, seus dedos se enterrando nas costas do garoto como se pudesse certificar-se de que ele era real, sólido, vivo. Sua respiração tremeu contra o cabelo dele. Uma vez. Depois outra.

    “Desculpe” ela sussurrou, a voz quebrando, “desculpe, desculpe…”

    Oliver não respondeu com palavras. Apenas apertou mais, o rosto enterrado no pescoço da mãe, sentindo os batimentos acelerados do coração dela começarem a desacelerar contra seu peito.

    Oliver limpou a garganta. Sua mãe ainda tremia ligeiramente, então ele buscou a primeira coisa que lhe veio à mente, algo que a distraísse.

    “Mãe… o que é uma fera mágica? Um artista marcial? Um lobo Marca-Dourada? Como uma fera evolui?”

    Eliandris sorriu, enxugando as lágrimas.

    “Você tem muitas perguntas, vou tentar responder o máximo delas que eu puder…”

    “Parece que ela sabe sobre tudo isso… como eu nunca ouvi falar de tais coisas antes?”

    Oliver estava inconformado, haviam muitas coisas nesse mundo que ele ainda não sabia.

    “Bom, pra resumir. Uma fera mágica é um animal que despertou capacidades mágicas, como isso ocorre exatamente… não é tão simples, então você não precisa saber.”

    “Então o lobo Marca-Dourada era uma fera mágica?” 

    “Sim, lobos Marca-Dourada possuem padrões marcados na pele, esse padrão carrega o poder que ele despertou, normalmente possui relação com o tipo de ambiente que ele vive.” explicou Eliandris.

    Oliver se lembrou de como o lobo conseguia saltar no ar, esse provavelmente era o poder que ele tinha despertado. 

    Eliandris continuou: “Um artista marcial é alguém que aprimora o corpo com mana, existem inúmeros tipos de técnicas e de pessoas.”

    “Sr. Grim é um artista marcial?” Oliver se lembrou de como o homem se movia, parecia inumano demais.

    “Sim, e é um dos fortes. Provavelmente é a única pessoa na vila que conseguiria matar um lobo Marca-Dourada sozinho.”

    Oliver assentiu, pensativo. Mesmo tendo recebido uma explicação superficial, sua mente se abriu para um mundo que antes era desconhecido.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota