A manhã havia chegado sem cerimônias em Corval. O sol iluminava entre as casas de madeira e pedra, espalhando luz sobre a terra batida dos becos. Poucas nuvens disputavam o céu, e o ar ainda carregava o frescor da noite.

    Corval era desse tipo de lugar que existia sem grande ambição. Existia entre Duskhaven e a capital Eldravin, servia de passagem para quem viajava entre as duas cidades maiores. Viajantes e mercadores transitavam ali com frequência, mas raramente ficavam.

    Naquela manhã, porém, uma carruagem diferente parou em frente a uma das casas maiores da vila. Não era o tipo de transporte comum a Corval, a madeira era escura e envernizada, os cavalos eram belos demais para aquela estrada de terra.

    A porta se abriu, e desceu um homem de meia-idade vestindo um robe azul-escuro, comprido até os tornozelos. Em uma das mãos, segurava um cajado de madeira encurvada, com uma gema azul incrustada no topo, que pulsava levemente, emitindo um brilho azulado.

    Garet estava esperando na calçada. Se curvou antes mesmo de o homem tocar o chão.

    “Senhor Archibald, seja bem-vindo. Em nome do meu mestre, agradeço a prontidão em vir até Corval.”

    “Leve-me até Balthazar.” A voz de Archibald era direta, sem rudeza, mas também sem espaço para conversa. “Quero ver o garoto.”

    “Sim, imediatamente.”

    Os dois entraram. A casa não era uma mansão, mas era generosamente grande para os padrões de uma vila. As tábuas do assoalho rangiam em cadência enquanto os dois caminhavam pelo corredor estreito que desembocava na sala principal.

    O salão era amplo, sustentado por vigas grossas de carvalho escurecidas pelo tempo. Lanternas de ferro forjado pendiam de correntes presas às vigas, suas chamas tremulando com a passagem dos dois homens. As paredes eram de pedra, parcialmente cobertas por tapeçarias desbotadas que abafavam o frio da manhã.

    Ao centro, uma mesa comprida de madeira maciça dominava o ambiente, ladeada por cadeiras de espaldar alto forradas com couro costurado. Castiçais de bronze com velas pela metade iluminavam a superfície da mesa, ao lado de uma jarra de vinho tinto já aberta.

    Sentados ali estavam dois homens. Ou melhor, um homem e um garoto.

    Balthazar se levantou ao ver Archibald. Era alto, loiro, de ombros largos, sua postura era o suficiente para dominar o ambiente. Ele abriu um sorriso genuíno.

    “Archibald! Que alegria. Espero que a viagem não tenha sido muito longa.”

    “Foi longa.” Archibald respondeu, sem drama. “Mas, pelo dinheiro, vale a pena”.

    Balthazar soltou uma gargalhada. O riso se espalhou pela sala com naturalidade.

    Do outro lado da mesa, Jonathan se levantou apressadamente, quase derrubando a cadeira. Era um garoto loiro, de corpo arredondado para sua idade, com bochechas coradas pelo nervosismo. Fez uma reverência desajeitada. 

    “Muito prazer, Senhor Archibald. Meu nome é Jonathan.” Fez uma pausa curta. “A partir de hoje, estou aos seus cuidados.”

    Archibald o avaliou em silêncio por um momento. Então apenas acenou com a cabeça.

    Balthazar estalou os dedos. Garet entrou pela lateral da sala, trazendo consigo um pequeno baú de madeira escura, com ferragens de bronze. Colocou-o sobre a mesa e o abriu diante de Archibald, recuando em seguida com a postura contida de um servo experiente.

    Archibald se inclinou levemente sobre o baú.

    Havia jóias: anéis, colares, pulseiras, brincos. Peças que valiam o suficiente para sustentar uma família por anos. Mas o que reteve sua atenção foram as dez moedas dispostas em fileira, cada uma cunhada no formato de uma lua minguante. 

    “Dez moedas de platina.” Archibald endireitou a postura, fazendo contas mentalmente. “E as jóias ainda por cima. Você está investindo sério no garoto. Por esse valor, posso ensiná-lo por um ano.”

    “Eu esperava por essa resposta.” Balthazar não piscou. “Um ano é suficiente por agora. Se precisar de mais tempo depois disso, podemos negociar novamente.”

    Archibald fechou o baú com uma das mãos e se virou para Jonathan.

    “Garoto.” A voz era neutra, mas havia algo nela que pedia atenção. “A partir de hoje, pode me chamar de mestre. Vou te ensinar magia.”

    “Sim, Mestre Archibald!” Jonathan respondeu com firmeza.

    Por fora, contido. Por dentro, o garoto fervia.

    “Hehe. Agora você está perdido, Oliver. Dessa vez eu vou te dar o troco!” Jonathan ainda se lembrava de como fora humilhado por Oliver. Porém, agora ele tinha um mestre, iria aprender magia. Era apenas questão de tempo para voltar o favor.

    Do outro lado da vila, Oliver estava diante de um prato de carne de lobo.

    Sua mãe havia preparado com o que tinham, temperos simples, fogo lento. A cozinha dos fundos do bordel cheirava ao esforço da tentativa. Os dois se sentaram frente a frente, e antes de comer, Eliandris murmurou baixinho, juntando as mãos.

    “Korellion, abençoe essa refeição.”

    Ela não era devota no sentido estrito. Não frequentava templos nem recitava orações longas. Mas tinha fé, discreta e firme, sem precisar provar.

    Nesse mundo, diferente do que Oliver havia conhecido em outra vida, os deuses não eram figuras de debate filosófico. Eles existiam, e algumas raras vezes haviam descido ao plano material em forma de avatar, deixando uma marca profunda na história. Rezar aqui não era apenas hábito. Era uma forma de reconhecer que algo maior existia e, às vezes, ouvia.

    Oliver enfiou o garfo na carne e deu a primeira garfada.

    O sabor chegou antes que ele pudesse se preparar, amargo, duro, com uma textura que resistia a cada mastigada como se a carne ainda estivesse tentando se defender.

    “Isso é horrível.”

    Ele não disse nada. Mastigou com calma, mantendo a expressão neutra. Mas sua mãe era uma Elfa da Alma. Ela não precisava que ele dissesse algo, bastava olhar.

    “Ruim, né?” disse Eliandris, com o canto do lábio dobrado em algo que era quase um sorriso. “Eu avisei que ninguém ia querer comprar. Carne de fera mágica de Rank 2 não é exatamente uma iguaria.”

    “Rank 2?” Oliver ergueu os olhos.

    “Feras mágicas são classificadas em Ranks, do 1 ao 9. Assim como artistas marciais e magos. O Lobo Marca-Dourada era de Rank 2.” Eliandris explicou com leveza, como se falasse de algo banal. “Quanto maior o Rank, mais a magia permeia a criatura, e mais intragável fica a carne.”

    Oliver processou isso em silêncio enquanto continuava mastigando.

    Lembrou do lobo, do porte, da velocidade, do salto impossível no ar. Lembrou de como havia se sentido completamente impotente diante daquilo. E lembrou de Grim terminando com um único golpe.

    “Se aquilo era Rank 2 e caiu tão facilmente… qual é o Rank de Grim?”

    A pergunta ficou dentro dele. Não era a hora de fazê-la.

    Os dois terminaram a refeição sem pressa. A carne não era boa, mas era farta, e o estômago não discrimina quando está com fome. Oliver se levantou com uma sensação estranha, um peso nos membros que não reconhecia das refeições com pão e legumes.

    “lembro da minha vida passada, acho que comer carne pela primeira vez deve ter esse tipo de efeito. ”

    Saiu com a cesta vazia no braço, de volta para a feira. Sua mãe o havia encarregado dessa tarefa desde os cinco anos, devolver a cesta para Otto depois de entregar as compras. Era uma rotina tão incorporada que os pés conheciam o caminho melhor do que a cabeça.

    No meio da rua, Oliver parou.

    A tenda estava lá. Ou melhor, o espaço onde a tenda deveria estar. A estrutura de madeira ainda existia, mas completamente vazia. Nenhuma carne pendurada, nenhum odor de defumado, nenhum Talruk apoiado no balcão esperando clientes.

    Só madeira. E ausência.

    Oliver ficou parado por um momento. Em uma vida anterior havia perdido pessoas, mas de forma lenta, previsível, com tempo para se preparar. A morte de Talruk tinha sido diferente: rápida, violenta, sem aviso. Uma presença que existia todos os dias e de repente simplesmente não existia mais.

    Ele desviou o olhar e continuou andando.

    “Jovem garoto.” A voz veio de baixo, quase ao nível do chão. “Teria alguma esmola para este velho?”

    Oliver parou, virou-se.

    Sentado encostado na parede de uma construção havia um homem velho, vestindo roupas desgastadas que já não tinham cor definida. Cabelos brancos e desgrenhados. Mãos calejadas cruzadas sobre os joelhos. Oliver não havia notado ele ali, o que era estranho, porque Oliver costumava notar as pessoas.

    Era raro ver mendigos em Corval. A vila era pobre, mas não miserável, a maioria das pessoas tinha o suficiente para não passar fome. Exceções existiam, mas eram poucas.

    “Desculpe, não estou com nada no momento.” Oliver respondeu com honestidade. Hesitou por um segundo. “Mas se o senhor estiver com fome, posso trazer um pouco de carne na volta.”

    O velho inclinou a cabeça, curioso.

    “Carne de quê?”

    “De lobo.”

    Uma pausa.

    “Nunca experimentei.” O velho disse, com um tom que soava genuinamente interessado, sua alma brilhava num tom ciano indicando curiosidade. “Traga, por favor. Este velho agradece.”

    “Não fique muito animado.” Oliver advertiu, já retomando o passo. “É dura e amarga. Mas vai matar a fome.”

    Enquanto se afastava, Oliver não viu o sorriso discreto que se formou no rosto do velho.

    “Um Elfo da Alma em Corval.” O pensamento do mendigo era cuidadoso, metódico. “Isso é mais raro do que eu esperava encontrar aqui. Parece que a viagem valeu a pena.”

    A curiosidade que Oliver havia notado na cor da alma do velho, um ciano claro e sereno. Não era pela carne de lobo. Era por ele.

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