CAPÍTULO 11 - MAGO?
Oliver cumpriu o que havia dito.
Na volta, parou diante do velho com um pedaço de carne de lobo embrulhado em um pano grosso, ainda morno. Colocou o embrulho nas mãos do homem, sem cerimônia.
O velho abriu o tecido devagar, sem pressa alguma. Levou um pedaço à boca e mastigou com calma, inclinando levemente a cabeça. Ficou assim por um momento, com a expressão de quem está avaliando algo.
“Obrigado, jovem, por matar a fome desse velho homem.” O tom era simples, mas havia uma atenção nos olhos do mendigo que destoava completamente da postura relaxada. Ele levantou o rosto para Oliver. “Qual o seu nome?”
“Oliver.” Respondeu sem floreios, como de costume.
O velho o encarou por um instante.
“Ah.” Um sorriso pequeno se formou no canto dos lábios. “Ótimo nome.” Fez uma pausa curta, saboreando a própria resposta antes de entregá-la. “Me chamo Orson.”
Oliver acenou com a cabeça, sem acrescentar nada. Não havia mais nada que precisasse ser dito, ou assim ele acreditava.
“Já pensou em se tornar um mago garoto?”
A pergunta o pegou de surpresa, embora não fosse a primeira vez que o pensamento havia passado pela sua cabeça. O problema nunca foi querer, foi saber como.
Oliver sabia o básico: todo ser vivo nesse mundo carregava mana, uma energia que existia dentro do corpo e podia ser moldada pela imaginação e pela vontade. Ele havia tentado, diligentemente. E houve resultados, ainda que modestos.
O único que valia mencionar era concentrar a carga elétrica na palma da mão até o ponto em que o toque causava um choque. Nada impressionante. Nada perigoso. Era o tipo de truque que seria divertido por alguns segundos e depois seria esquecido.
O máximo que conseguia produzir era um choque fraco o suficiente para ser confundido com uma brincadeira de criança. Havia tentado progredir mais vezes do que conseguia contar, e cada tentativa terminava no mesmo lugar: um muro. Não sabia o que lhe faltava, e em Corval não havia ninguém que pudesse dizer.
“Sim, já pensei.” Oliver respondeu com cuidado. “O senhor pode me ajudar com isso?”
Enquanto falava, observou a alma do homem. A cor amarela ainda estava lá, a mesma satisfação de quem acabou de comer depois de muito tempo com fome. Não havia mudado de tonalidade. Ele não parecia estar mentindo.
Ainda assim, Oliver hesitou. Havia algo que não fechava. Se aquele homem carregava consigo algo tão valioso quanto o caminho para se tornar um mago, o que fazia sentado na parede de um beco em Corval, com roupas que não tinham mais cor? Ou então a pergunta era outra: se ele sabia o suficiente para ensiná-lo, por que não era ele próprio um mago?
“Está tentando me enganar, ou é apenas um falastrão?”
“Que bom que você já pensou nisso.” Orson falou devagar, intercalando as palavras com pequenas mordidas na carne de lobo. “Mas não posso te ajudar.”
Oliver o observou mastigar com aparente satisfação. “Como ele consegue achar aquilo saboroso? Deve ser o peso da fome.”
“Se o senhor não sabe de nada,” Oliver disse, sem mudar o tom, “por que fez uma pergunta dessas?”
Orson ficou quieto por um momento. Mastigou mais uma vez, devagar. Então ergueu os olhos com uma expressão completamente despreocupada.
“Hmm.” Fez uma pausa curta. “Esqueci.”
“…”
Depois dessa conversa infrutífera, Oliver voltou para casa.
À tarde, ele tinha uma partida de Regnum com Erina.
O Regnum era um jogo de tabuleiro que Oliver havia aprendido nessa vida, era um tanto parecido com xadrez, mas desnecessariamente mais complexo. As peças se moviam por colunas e fileiras segundo regras que, para a maioria das pessoas, levavam anos para internalizar. Para Oliver, era mais próximo de um hábito do que de um desafio.
Ou deveria ser.
“Dominus!” Erina colocou sua peça de falange na coluna do rei com uma pancada satisfeita. “Dessa vez você se deu mal, moleque!” Soltou uma gargalhada que ecoou pelo quarto.
Oliver olhou para o tabuleiro. A jogada era limpa. Não havia escapatória.
Havia perdido.
Por fora, permaneceu completamente calmo. Por dentro, era outra história.
“Parece que você melhorou, tia Erina.” Disse, com a compostura de um acadêmico. “Agora vou jogar sério.”
Erina ergueu uma sobrancelha. “Não fode. Tá dizendo que não estava jogando sério?”
“Droga… eu estava jogando sério.”
Ele não disse nada. Começou a reposicionar as peças.
Antes que pudessem iniciar a segunda partida, batidas na porta cortaram o silêncio.
“Erina, chegou um cliente. Pedi para ele entrar, já está subindo.”
A mudança em Erina foi imediata. A gargalhada sumiu. A postura se ajustou. O rosto assumiu uma expressão diferente, mais composta, quase de representação. Era como trocar de roupa sem sair do lugar.
Erina era uma das cortesãs do Bordel Cauda de Sereia, mas ocupava uma posição diferente das outras. Era a mais requisitada pela chamada “alta sociedade”. Seu cachê era elevado e ela não negociava por menos. Havia construído essa posição com anos de trabalho e com algo que as outras raramente tinham: inteligência.
“Oliver, hora de trabalhar.” Disse, já de pé. “Nossa partida fica para outra hora.”
Oliver acenou com a cabeça e saiu.
No corredor, desceu as escadas enquanto o cliente subia. Cruzaram-se no meio do caminho.
Era um homem de meia-idade, vestindo um robe azul-escuro de tecido caro e bem cortado. Em uma das mãos, segurava um cajado de madeira curvo com uma gema incrustada no topo, que pulsava num brilho azul suave.
O homem não olhou para Oliver. Passou por ele como se a criança no corredor fosse parte da mobília.
Ao descer os últimos degraus, Oliver ouviu o murmúrio de duas cortesãs encostadas no corrimão, sem qualquer preocupação com o volume.
“A Erina tem muita sorte. Vai atender um mago. A gorjeta dele deve pagar meu mês inteiro.”
“Deixa de inveja. Você mal sabe somar dois mais dois. Magos gostam de conversar, e se a Erina cobra caro é porque tem cérebro. Diferente de você, que só tem peito.”
Oliver ignorou a troca de palavras das cortesãs e seguiu para o pátio dos fundos.
Eliandris estava lá, curvada sobre um tanque de pedra, esfregando lençóis com os braços avermelhados pelo esforço e pela água fria. Ao ouvir os passos do filho, ergueu o rosto, e o cansaço deu lugar a um sorriso.
“Ganhou da Erina?”
“Fui descuidado. Acabei perdendo.” Oliver respondeu diretamente. “Tive que sair mais cedo porque chegou um cliente. Ouvi dizer que é um mago.”
A alma de Eliandris mudou de cor antes que ela dissesse qualquer coisa. Os tons quentes recuaram, dando lugar a azuis e roxos frios, a mesma paleta que Oliver havia aprendido a associar a medo e preocupação.
“Um mago, por aqui?” Ela torceu o lençol devagar. “Espero que esteja só de passagem. Magos podem ser complicados.”
Ela não elaborou. Oliver não perguntou nada também.
Nos 7 anos que viveu em Corval, nunca havia cruzado com um mago pessoalmente. Havia ouvido falar, lido o que existia para ler, tentado entender o que era possível entender. Aquele homem no corredor era o primeiro mago que já viu.
E antes mesmo de processar completamente o que sentia, uma ideia tomou forma.
Se ele se tornasse mago, poderia prestar serviços em qualquer cidade. A renda seria boa. Suficiente para sair dali, para tirar sua mãe daquele tanque de pedra, para dar a ela uma vida que não dependesse de vender o corpo para ter o que comer e onde morar.
Oliver calculou as chances. Uma criança pedindo a instrução de um mago. O pior que poderia acontecer era um não. As pessoas, em geral, tratavam crianças com mais paciência do que mereciam, e Oliver havia aprendido a usar isso quando precisava.
Ele pediria para se tornar aprendiz do mago!

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