Oliver ficou parado diante da porta por mais tempo do que deveria.

    Não era uma porta imponente. Era madeira escura, bem tratada, com dobradiças de ferro forjado e uma aldrava no formato de leão. A residência da família Venn era uma das maiores do vilarejo, o que em Corval não era exatamente uma conquista extraordinária, mas ainda assim comunicava algo com clareza.

    “Eu não preciso gostar do lugar para entrar” Oliver pensou. “Só preciso aprender o que ele tem a ensinar.”

    Respirou fundo e bateu.

    A porta se abriu.

    O mordomo Sebastian era exatamente como Oliver o recordava da vez que havia tentado abordar Archibald na carruagem: postura impecável, expressão neutra treinada ao ponto de parecer natural, cabelos penteados para trás sem uma única mecha fora do lugar. Era o tipo de homem que parecia ter nascido usando aquele uniforme.

    O olhar que Sebastian lançou para Oliver durou apenas um segundo. Mas foi o suficiente.

    Não havia hostilidade nele. Oliver viu a cor da alma do mordomo: um cinza frio com uma linha fina de amarelo. Tédio e diversão, lado a lado. Sebastian parecia estar se divertindo com a situação de Oliver, sua cara ainda estava inchada do soco de ontem.

    “O senhor é o garoto que veio para a aula,” disse Sebastian. Não era uma pergunta.

    “Sou.”

    “Siga-me.”

    Oliver entrou.

    O interior da casa era o que se esperava: móveis caros dispostos de maneira impecável que deixavam o ambiente estranhamente confortável. Sebastian o guiou por um corredor curto até uma sala de estudos com uma mesa grande no centro, prateleiras cheias de livros nas paredes e uma janela de vidro espesso que filtrava a luz da manhã em tons suaves.

    Archibald estava de pé perto da janela, folheando algo com expressão distraída.

    E Jonathan estava sentado à mesa.

    O garoto loiro ergueu os olhos assim que Oliver entrou. A expressão que se formou no rosto dele passou por vários estágios em menos de dois segundos: surpresa, confusão, indignação, antes de se fixar numa incredulidade furiosa.

    “O que você está fazendo aqui?”

    Archibald tirou os olhos do que estava lendo. Olhou para Oliver. Olhou para Jonathan. Depois olhou para Oliver de novo, desta vez com mais atenção, como se estivesse remontando algo.

    Esse tipo de reação de Jonathan o deixou intrigado, ele não pensou que os dois garotos se conheceriam.

    Então finalmente se lembrou de algo que Oliver havia dito para ele ontem.

    “Espera.” O mago fechou o livro devagar. “Você.” Apontou para Jonathan. “Foi você que bateu nele?”

    Jonathan abriu a boca. Fechou.

    “E você.” Archibald virou o dedo para Oliver. “Era você que esse aqui queria se vingar.”

    Oliver não disse nada. Não havia necessidade.

    Uma expressão atravessou o rosto de Archibald, não era raiva, nem diversão exatamente. Ele estava decidindo, naquele momento, o que fazer com essa informação. Durou apenas um instante. Depois o mago assentiu levemente, e a expressão voltou ao habitual.

    “Interessante,” disse, para ninguém em particular.

    “Mestre Archibald.” Jonathan se levantou. “Com todo o respeito, eu não entendo por que esse garoto está aqui. Esta é a casa da minha família. E o senhor foi contratado para me ensinar, não para dar aulas para qualquer plebeu que—”

    “Sente-se, Jonathan.”

    A voz de Archibald não subiu o tom, mas foi o suficiente para fazer Jonathan se calar.

    Jonathan sentou.

    “Eu fui contratado pelo seu pai para te ensinar magia” continuou o mago. “O que acontece dentro desta sala durante as aulas é decisão minha, não sua. Se isso incomoda você, pode levar a reclamação ao seu pai.”

    Jonathan cerrou os dentes mas não respondeu.

    Oliver encontrou um lugar à mesa e sentou-se sem comentar nada. Por fora, estava completamente neutro. Por dentro, havia uma satisfação pequena e tranquila que ele não se esforçou para suprimir.

    A alma de Jonathan ardia num vermelho sólido.

    Oliver achou isso razoavelmente agradável.

    A aula começou sem mais cerimônias.

    Archibald se posicionou à frente dos dois. O mago tinha uma presença diferente quando ensinava, menos o homem impaciente que havia mandado Oliver embora com desdém, mais alguém que sabia exatamente o que estava fazendo, com o domínio do assunto.

    “Antes de qualquer coisa,” disse Archibald, olhando para Oliver, “vou presumir que você não sabe nada. Correto?”

    “Quase nada,” Oliver admitiu. “Consigo acumular uma carga elétrica na palma da mão. É fraca.”

    “Isso é manipulação direta de mana. Você descobriu sozinho?” Havia algo próximo de interesse genuíno na voz do mago.

    “Sim.”

    Archibald assentiu, como se isso confirmasse algo. Depois começou.

    “Todo ser vivo carrega mana. Mas a maioria das pessoas nunca passa disso, carregam a energia sem nunca acessá-la de forma consciente.” Ele caminhou lentamente enquanto falava, o cajado tocando o chão a cada dois passos. “O que diferencia um mago do resto não é ter mais mana. É a qualidade dessa mana, e a capacidade de moldá-la com precisão.”

    Oliver prestava atenção, ele estava sedento por conhecimento. Jonathan também ouvia, embora levemente entediado.

    “Você sabe que tem dois corações?” Archibald lançou a pergunta para Oliver.

    Oliver piscou. “Dois?”

    “Um de sangue e um de mana.” O mago tocou o próprio peito. “O coração de mana é menor, fica perto do centro do tórax. Dele saem os meridianos arcanos, canais que distribuem mana pelo corpo inteiro, como veias distribuem sangue. A maioria das pessoas nunca percebe que ele existe.”

    Oliver ficou quieto por um momento.

    Dois corações. Ele havia vivido sete anos nesse corpo sem saber disso. Havia tentado manipular mana imaginando física, eletricidade, elétrons se acumulando na ponta dos dedos, e havia funcionado, de forma rudimentar, sem nunca entender o mecanismo real por trás. Agora, de repente, havia uma anatomia inteira que explicava o que ele havia feito no escuro.

    A muralha imaginária que barrava seu avanço com magia, parecia rachar conforme Archibald falava.

    “Quanto mais eu poderia ter feito se soubesse disso antes?”

    “Ei, mestiço.” Jonathan falou num tom baixo, apenas o suficiente para Archibald não ouvir. “Seu rosto está horrível. Parece que alguém pisou nele.”

    Oliver não desviou os olhos de Archibald.

    Jonathan esperou uma reação e não obteve nenhuma. Isso pareceu irritá-lo mais do que qualquer resposta teria feito.

    Archibald continuou.

    “Magias são organizadas em ciclos, do 1º ao 9º. Um mago de 1º ciclo conjura magias de 1º ciclo. Quanto mais alto o ciclo, maior a complexidade e o poder do que pode ser invocado.” Ele parou diante da mesa e pousou o cajado sobre ela com cuidado. “Mas o ciclo do mago não é apenas um título. É uma estrutura física. Quando você completa o despertar para o primeiro ciclo, um anel se forma ao redor do seu coração de mana. Cada ciclo seguinte adiciona outro anel. Esses anéis aumentam a qualidade da mana que seu coração produz. É por isso que magos de ciclos mais altos conjuram magias que um iniciante simplesmente não consegue alcançar, independente de quanto tente.”

    “Então o número de anéis determina tudo?” Oliver perguntou.

    Archibald levantou um dedo. “Existem outros fatores, mas o círculo é um fator importante.”

    Jonathan não perguntou nada. Provavelmente já sabia sobre tudo isso.

    “Agora,” disse o mago, “vamos ao que interessa para um iniciante. Como se conjura uma magia.”

    Ele pegou o cajado de volta e o ergueu levemente.

    “Existem dois caminhos. O primeiro é o que vou te ensinar hoje, porque é o que funciona para a maioria das pessoas e é o que você consegue aprender em tempo razoável.” Archibald bateu o cajado no chão uma vez, e a gema na ponta brilhou com mais intensidade por um instante. “Magia regular”

    Oliver observou.

    “Toda magia regular é, em essência, um pedido. Você oferece mana, segue um procedimento correto, e a magia é concedida. Quem concede? A deusa da magia. Você não precisa entender a teologia para usar o sistema. Precisa apenas entender que o procedimento existe por um motivo, e que desvios do procedimento produzem falhas.”

    “Que tipo de procedimento?” Oliver perguntou.

    “Três componentes são necessários.” Archibald ergueu três dedos. “Fala, Gesto e Material. Você recita um cântico enquanto faz alguns gestos. Dependendo do tipo de magia, também pode ser necessário oferecer algum tipo de material. Ou usar um foco arcano para amplificar a magia e eliminar essa necessidade.” Ele inclinou levemente o cajado. “Este é o meu foco arcano. A gema foi inscrita com runas específicas. Aumenta a potência das minhas conjurações e reduz o custo de mana em certas categorias de magias.”

    Oliver olhou para o cajado com atenção renovada.

    “Então, seguindo o ritual correto, qualquer mago consegue conjurar qualquer magia do seu ciclo?”

    “De forma simplificada, sim. É por isso que chamamos de magia regular. Os passos foram catalogados, testados e codificados. Você decora o ritual como decora uma receita. Se seguir direto, o resultado é consistente.” Archibald pausou. “Mas existe o segundo caminho.”

    Jonathan também estava ouvindo com atenção agora.

    “O segundo caminho é o que você já tentou fazer sem saber que estava fazendo,” disse Archibald, olhando para Oliver. “Manipulação direta. Você pega sua mana e a molda pela força da imaginação e da vontade, sem ritual, sem deusa, sem intermediário. O resultado depende completamente de quão precisamente você consegue imaginar o que quer que aconteça.”

    “É mais poderoso?” Oliver perguntou.

    “É mais livre e muito mais difícil.” O mago cruzou os braços. “A manipulação direta é imprecisa, cansativa, e os resultados variam de acordo com a clareza mental do mago no momento da conjuração. A maioria nunca desenvolve isso além de aplicações rudimentares, mas quando um mago atinge domínio suficiente sobre uma técnica que desenvolveu por manipulação direta, ele pode codificá-la. Transformá-la em magia regular. Uma nova receita que outros magos podem seguir.”

    Oliver ficou quieto, digerindo isso.

    “Normalmente chamamos a manipulação direta de magia irregular” completou Archibald.

    Era um sistema inteiro que ele havia tocado às cegas durante anos, sem saber que havia dois caminhos.

    “Quanto tempo perdi sem saber disso?” A mente de Oliver se enchia de possibilidades.

    A aula continuou por mais algum tempo. Archibald explicou categorias básicas de magia de primeiro ciclo, a diferença entre magias ofensivas e utilitárias, como a mana era contabilizada em termos de custo por conjuração. 

    Ao fim, Archibald tirou um livro de uma das prateleiras e o colocou sobre a mesa diante de Oliver. A capa era simples, de couro escuro, havia um título na lombada.

    “<Fundamentos da Teoria Arcana>, Volume Um.” Archibald bateu a mão na capa. “Você tem uma semana. Leia tudo. Não precisa memorizar cada detalhe, mas precisa entender o que está escrito antes de voltarmos a conversar.”

    Oliver pegou o livro. Era mais pesado do que parecia.

    “Uma semana.”

    “Uma semana,” confirmou Archibald. “Pode ir.”

    Oliver caminhou de volta para sua casa com o livro embaixo do braço e os pensamentos em lugares que o vilarejo não alcançava.

    Dois corações. Meridianos arcanos. Um sistema inteiro de ciclos e rituais e uma deusa que concedia pedidos quando o procedimento era seguido corretamente. E, por baixo de tudo isso, um segundo caminho, mais difícil, mais incerto, mais livre, que ele havia tocado sozinho sem nunca saber o nome.

    O que mais havia nesse mundo que ele simplesmente não sabia?

    Sete anos. Sete anos vivendo em Corval, num casebre de madeira atrás de um bordel, jogando Regnum com Erina e carregando repolhos da feira. Sete anos num mundo que tinha feras mágicas, artistas marciais, magos e ele havia visto apenas uma fatia minúscula de tudo aquilo.

    “Tenho muito trabalho pela frente”, Oliver pensou, sem angústia. 

    Apertou o livro contra o peito e continuou andando.

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