CAPÍTULO 18 - APRENDIZADO
Seis dias haviam se passado desde a aula com Archibald.
Oliver usou esse tempo pra absorver tudo que havia aprendido. Isso o lembrou das semanas que passava enclausurado em sua vida passada estudando para as provas de Engenharia Elétrica.
Infelizmente, ele também lembrou de todas as vezes que mesmo se esforçando ainda foi capaz de reprovar.
Durante essa semana, Oliver não visitou Erina ou Orson, ele estava completamente focado e concentrado.
Ele devorou o livro, <Fundamentos da Teoria Arcana> era grosso e possuía muitas páginas. Mas Oliver não desistiu, se Archibald deu uma semana. Ele o leria completamente em uma semana. Não foi fácil, mas ele finalmente conseguiu.
“Que maníaco.” Oliver fechou a última página e ficou olhando para a capa por um momento. “Ele realmente esperava que eu lesse isso em uma semana.”
Havia indignação no pensamento, mas por baixo dela havia satisfação, a espécie específica de satisfação que só existe depois de fazer algo que parecia impossível no começo. Ele passou os dedos pela lombada gasta do volume e soltou o ar devagar.
<Fundamentos da Teoria Arcana> era grosso, denso, e cheio de informações que Archibald não havia mencionado na aula. Oliver voltou a algumas páginas, procurando trechos que havia marcado mentalmente para revisitar.
Havia mais do que ele esperava.
Magos não eram os únicos que manipulavam mana, isso ficou claro desde o início do livro. Mas a variedade de caminhos era mais ampla do que Oliver havia imaginado nos sete anos que viveu nesse mundo sem entender nada disso.
Havia os feiticeiros: pessoas que nasciam com o dom sem precisar desenvolvê-lo. Não estudavam rituais, não precisavam de ciclos. A mana deles era de uma qualidade diferente desde o início, como se viessem ao mundo com algo que os magos passam décadas tentando alcançar. Oliver ficou um momento parado nessa seção, pensando em quanto isso devia irritar qualquer mago que soubesse da existência deles.
Havia os artistas marciais, que ele já conhecia por experiência própria, Grim havia deixado uma impressão forte nele. A lógica era simples: mana inundando músculos, tendões e ossos continuamente, até que o corpo inteiro mudasse de natureza e começasse a produzir algo além da mana. A Aura, uma energia derivada e mais escassa, com propriedades próprias.
E havia os Infusores: Alquimistas, Ferreiros, Mestres de Formação. Pessoas que não usavam a mana do próprio corpo como arma ou escudo, mas como ferramenta de criação. Poções, armas, itens com propriedades que não existiam na natureza.
Por fim, havia uma categoria que o livro tratava com menos detalhe mas que Oliver achou igualmente interessante: pessoas que recebiam capacidades através da devoção a um deus. Não era magia no sentido técnico. Era outra coisa, uma relação, um acordo, uma bênção que dependia de algo além do indivíduo.
Ele fechou o livro de novo e ficou olhando para o teto de madeira do casebre.
“Quanto mais eu aprendo, menos eu sei.”
Não era uma constatação deprimente. Era quase reconfortante, havia mais para descobrir do que ele havia imaginado e isso significava que ele poderia ir mais longe.
…
Seis dias atrás.
Archibald sentava numa poltrona confortável da sala principal da residência Venn. À sua frente, Balthazar fumava um charuto calmamente.
Archibald estava incomodado, suor frio escorria pela sua testa.
Mas não era Balthazar que estava incomodando Archibald.
Era o outro homem.
De pé ao lado do mercador, vestindo roupas negras com um capuz baixo sobre o rosto, Archibald não conseguia identificar a expressão, mal conseguia identificar os traços. O que identificou foi outra coisa: a sensação imediata de que havia algo fundamentalmente errado naquele homem. Seus pulmões trabalhavam com mais cuidado do que o normal. Ele estava sentindo algo irracional, involuntário.
Era medo, o mais genuíno que havia sentido em muito tempo.
“Explique-me com cuidado.” Balthazar tirou o charuto da boca. “Quem autorizou que você trouxesse um plebeu para dentro dessa casa e desse aulas para ele?”
“Não houve autorização,” Archibald admitiu, escolhendo as palavras com atenção. “Pensei que teria certa liberdade nas decisões sobre como conduzir o ensino.”
“Liberdade você tem. Pode fazer o que quiser dentro dessa casa, desde que ensine Jonathan.” Balthazar colocou o charuto no suporte. “Mas isso foi insensato. A criança que você trouxe aqui foi a mesma que começou esse problema.”
“Entendo seu ponto. Por isso gostaria de fazer uma proposta.”
Desde o momento em que havia percebido a conexão entre Oliver e Jonathan, uma ideia havia tomado forma. Ele a guardou até o momento certo.
“Adiante.”
“O senhor veio da capital para Corval. Trouxe Jonathan. Está montando um estabelecimento aqui e ainda ficará alguns anos. O que o senhor acha que acontece com o desenvolvimento do seu filho se não houver, nesse período, um oponente à altura?”
Balthazar não respondeu imediatamente. Levou o charuto à boca de novo, soltou a fumaça devagar.
“Ele estagna. O único combustível que parece motivá-lo agora é a ideia de se vingar desse garoto.” Balthazar lia com precisão seu filho. Não era necessário que ninguém falasse nada para ele. Era a habilidade de um comerciante experiente. “No momento em que conseguir, perde o interesse.”
“Exatamente.” Archibald inclinou levemente a cabeça. “Mas imagine que os dois se desenvolvam no mesmo ritmo. Jonathan melhora, desafia Oliver, ganha, e Oliver já melhorou o suficiente para que a vitória não signifique tanto. Essa é a oportunidade perfeita para começar uma rivalidade que vai continuar impulsionando-os adiante.”
Balthazar apoiou o queixo na mão.
“Se você conseguir manter os dois no mesmo nível, não vejo problema.” Pausou. “Mas garanta que meu filho ganhe no final.”
“Com certeza.”
Archibald foi dispensado pouco depois. Saiu da sala com a postura de sempre, mas com a consciência clara de que havia respirado com mais dificuldade do que deveria durante toda aquela conversa, e que a culpa não era de Balthazar.
Atrás dele, o homem com vestes negras continuou parado exatamente onde estava.
Grim deixou a intenção assassina dissipar devagar. Ocupou a poltrona que Archibald havia deixado e afundou nela com cansaço.
“Magos são arrogantes,” disse Balthazar, sem olhar para ele. “Só dinheiro ou alguém mais forte os mantém na linha.”
“Eu entendo.” Grim passou uma mão pelo rosto. “Mas é cansativo sustentar aquela pressão por tanto tempo.”
Uma pausa.
“E pensar que o garoto que eu salvei está aprendendo magia agora.” Disse isso mais para si mesmo do que para Balthazar. “O destino age de maneiras estranhas.”
“Sim.” Balthazar pegou o charuto de volta. “Obrigado pelos seus serviços. Tenho mais uma coisa antes de você ir, preciso de informações da capital.”
Grim estalou a língua.
“Você me usa como um mero coletor de informações.”
“Posso te pagar com um item mágico de Rank 3 pelo serviço.”
O silêncio durou menos de dois segundos.
“É claro.” Um sorriso abriu no rosto de Grim. “Sempre bom acumular. Parto amanhã pela manhã.”

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