CAPÍTULO 19 - O BAÚ ENTERRADO
A manhã ainda estava fria quando Grim bateu na porta.
Não foi uma batida educada, era rápida e impaciente. Eliandris abriu antes que ele precisasse bater uma segunda vez. Ela já estava acordada há horas.
“Você sabe por que estou aqui,” disse Grim.
Não era uma pergunta.
Eliandris o olhou por um momento. A alma dele continuava ausente, encoberta pelo item que bloqueava sua visão.
“Quarenta e cinco peças de ouro.” Ela suspirou. “Você é tão insensível. Sabe muito bem a situação em que estou.”
“Sei,” disse ele, sem alterar o tom de voz.
“Mas vou pagar a dívida.” Ela afastou-se da porta. “Siga-me.”
Oliver ainda dormia. Eliandris verificou isso com um olhar rápido antes de pegar a pá encostada no canto do casebre. Saíram sem fazer barulho.
O caminho até a floresta era curto, mas Eliandris o fez devagar, sem pressa. Grim caminhou ao lado dela sem perguntar nada.
Aquela hora dava à floresta uma luz diferente, filtrada, um tanto verde-acinzentada. Alguns pássaros começavam a cantar, enquanto os insetos iam se calando aos poucos.
Eliandris parou diante de uma árvore.
As folhas eram roxas. O tronco era fino para a altura que a árvore havia atingido, e os galhos se espalhavam com uma assimetria que parecia deliberada.
“Já está tão grande.” Eliandris tocou a casca com as pontas dos dedos. “Fazem apenas sete anos que a plantei.”
Grim ficou parado ao lado dela, olhando para cima.
“Para elfos, sete anos não é muito tempo.”
“Não é.” Ela deixou a mão cair. “Mas para a maioria das outras raças, é um tempo considerável.”
Ele não respondeu. Ela também não acrescentou nada.
Eliandris escolheu um ponto a alguns metros da árvore e começou a cavar. A pá entrava na terra com facilidade, o solo ali era úmido, escuro, bem trabalhado pelo tempo. Ela cavou com uma eficiência que não combinava com a imagem que cultivava em Corval.
A pá bateu em algo sólido.
Eliandris ajoelhou, escavou com as mãos os últimos centímetros de terra e puxou. O baú era pequeno, de madeira escura reforçada com tiras de metal, e havia sido enterrado com cuidado suficiente para sobreviver a sete anos de chuvas sem abrir. Ela o colocou na grama e ficou parada por um momento, olhando para ele.
“Quando cheguei a Corval, ainda não tinha onde morar.” Disse isso mais para si mesma do que para Grim. “Deixei tudo aqui enquanto procurava um lugar.”
Abriu o baú.
Havia uma armadura de couro dobrada com precisão. Ao lado, uma rapieira estava enrolada em tecido escuro. Quando Eliandris afastou o pano, a lâmina captou a luz filtrada da floresta num reflexo prateado e suave, como se tivesse luz própria. Os adornos na empunhadura eram élficos.
Havia também três frascos de vidro claro. Dentro de cada um, um líquido vermelho borbulhava levemente, como se ainda estivesse vivo.
E havia um pergaminho.
Feito de papiro, enrolado com cuidado e selado com cera de uma cor que Grim não reconheceu. Sua superfície era coberta por inscrições antigas e densas.
Eliandris pegou um dos frascos vermelhos e o estendeu para Grim.
“A dívida está paga.”
Ele recebeu a poção em silêncio, olhou para o conteúdo por um momento. Depois deixou o olhar cair sobre o pergaminho.
“Não sabia que você carregava um pergaminho mágico esse tempo todo.” A curiosidade na voz de Grim era genuína, o que era raro o suficiente para ser notável. “Nunca pensou em usá-lo?”
“É precioso demais.” Eliandris enrolou o tecido de volta sobre a rapieira com o mesmo cuidado com que havia desenrolado. “Somente numa situação de vida ou morte eu usaria. Ainda bem que nunca precisei.”
Grim ficou olhando para o pergaminho por mais um segundo.
“Quanto você quer por ele?”
Eliandris chacoalhou a cabeça, devagar.
“Mesmo que você me desse tudo que tem na sua posse, cada item, cada moeda, ainda seria insuficiente.” Fechou o baú com um clique suave.
Grim não respondeu. Ele estava ainda mais curioso. Estritamente falando, ele poderia pegar o pergaminho à força, mas havia uma linha que não cruzava, e roubar de alguém mais fraco estava bem do outro lado dela.
Eliandris encerrou a conversa se levantando e sacudindo a terra das mãos.
O caminho de volta foi silencioso.
Em casa, Eliandris empurrou o baú com o pé para baixo da cama, no ponto mais fundo, encostado na parede. Oliver continuava dormindo, o livro de Archibald estava fechado sobre a mesa, a última página que havia lido marcada com um pedaço de barbante.
Ela ficou olhando para o filho por um momento.
Elfos não precisavam de muito sono. O corpo deles descansava de formas que humanos não entendiam completamente, havia uma técnica de meditação que Eliandris havia aprendido ainda jovem, uma prática antiga que reduzia pela metade o tempo necessário para recuperar o corpo e a mente. Ela a usava com frequência, especialmente nas noites em que o bordel ficava barulhento até tarde e o silêncio só chegava quando a maioria dos outros já havia adormecido.
Oliver, por outro lado, dormia com a determinação de alguém que havia passado os últimos seis dias acordado mais horas do que deveria.
Ela foi fazer o café da manhã sem fazer barulho.
…
A cidade de Wolfscar não era bonita.
Não era feia tampouco. Casas de pedra cinza, ruas largas o suficiente para carroças passarem, um mercado que funcionava mesmo com frio e um cheiro permanente de animal molhado que vinha das estrebarias no extremo leste. Quem passava por Wolfscar normalmente estava indo para algum outro lugar, uma situação parecida com Corval.
Alexander estava cantarolando, era um homem alto e musculoso.
Havia começado antes do amanhecer, quando os dois ainda estavam na estrada, e havia continuado sem interrupção significativa através do café da manhã, da chegada à cidade, da conversa com o guarda da entrada e de duas horas inteiras de investigação que não produziram absolutamente nada útil.
Victor, um homem magro e com olheiras profundas, parou no meio da rua.
“Cale a boca, Alexander.”
O outro homem parou de cantarolar, por exatamente três segundos.
“Você é tão chato.” Alexander retomou o passo ao lado dele, alto o suficiente para que as pessoas na rua desviassem naturalmente sem perceber que estavam fazendo isso. “Se o rei não tivesse designado essa missão pessoalmente, eu nunca escolheria um parceiro como você. Você é insuportável.”
“Eu?” Victor virou o rosto para ele com uma expressão que havia passado da irritação e chegado a algum lugar mais próximo da incredulidade. “Você está cantando desde antes do sol nascer. A manhã inteira. Como você consegue ser tão feliz o tempo todo?”
“É um dom.”
Victor olhou para a frente e não respondeu.
O necromante havia estado em Wolfscar. Disso eles tinham certeza, haviam rastros, resíduos de magia de um tipo específico que Victor sabia identificar e que Alexander sabia farejar, cada um à sua maneira. Mas os rastros eram velhos, e o homem havia passado brevemente, sem se instalar, sem deixar nada além da impressão de ter estado ali e ido embora.
O que haviam encontrado, enquanto procuravam por ele, era outra coisa.
“Olha isso de novo,” disse Victor, parando diante de um quadro de avisos de madeira pregado na parede do posto da Guilda local. Havia um papel fixado no centro, já amarelando nas bordas. Uma lista de nomes.
Aventureiros desaparecidos.
Alexander leu por cima do ombro de Victor, o bom humor escorregando um pouco.
“Todos vieram da mesma cidade?”
“Cidades diferentes. Mas todos seguiram a mesma rota de saída da cidade.” Victor apontou para o mapa fixado ao lado. “Essa estrada aqui. Quando saíram do perímetro de Wolfscar para acampar, simplesmente pararam de existir. Nenhum corpo. Nenhum rastro de luta. Nenhum item encontrado.” Fez uma pausa. “Testemunhas dizem que eram grupos experientes. Não eram iniciantes com azar.”
Alexander ficou quieto por um momento.
Era um silêncio diferente do anterior.
“Grupos inteiros,” disse ele. “Sem rastro.”
“Sem rastro.”
Os dois ficaram olhando para o mapa por mais alguns segundos.
“Não é nossa missão,” disse Alexander, por fim.
“Não é.” Victor concordou. Tirou o bloco de anotações do bolso interno do robe e começou a escrever, rápido e preciso. “Mas a capital precisa saber.”
Quando terminou, fechou os olhos por um instante, recitando um cântico e gesticulando com as mãos. A gema branca no cajado brilhou fracamente e depois apagou.
“Feito,” disse Victor. “Vamos.”
Alexander retomou o passo ao lado dele. Depois de um momento de silêncio respeitoso em relação à gravidade do que haviam discutido, começou a cantarolar de novo.
Victor fechou os olhos brevemente, ele estava suportando a companhia de seu amigo alegre e cantarolante o máximo que podia.
Saíram de Wolfscar pela rua principal, seguindo os rastros de alguém que ainda não sabia que estava sendo caçado.

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