CAPÍTULO 20 - SURPRESAS
Archibald ficou parado por um momento antes de falar.
Olhou para Oliver da mesma forma que olhava para Jonathan no início das aulas: com a expectativa ajustada, já sabendo o que esperar. Era um olhar profissional, sem crueldade, mas também sem condescendência.
“Quanto do livro você leu?”
Oliver ergueu os olhos.
A pergunta sugeria uma resposta parcial. Sugeria que Archibald estava se preparando para ouvir que ele havia lido metade, ou dois terços, ou talvez os primeiros capítulos e pulado o resto. Oliver sentiu um leve calor no rosto, não de vergonha, mas de raiva. Ele estava indignado com a suposição de que ele não havia lido o livro inteiro.
“Quanto?” Ele manteve o tom controlado. “Eu li tudo.”
Archibald piscou.
Foi uma reação pequena, quase imperceptível, mas Oliver havia passado a vida inteira lendo almas, o tom alaranjado indicava que Archibald estava surpreso com a resposta.
Do outro lado da mesa, Jonathan não foi tão discreto.
O sorriso que se abriu no rosto dele tinha a qualidade específica de quem acabou de receber um presente.
“Pare de mentir, plebeu.” A voz era alta o suficiente para que não houvesse dúvida de que era intencional. “Um nobre como eu não demorou menos de um mês para terminar esse livro. Como você teria conseguido sozinho em uma semana?”
Oliver virou o rosto para ele com a mesma expressão com que olharia para uma parede.
“Se algum de vocês duvida que li o livro inteiro, basta me fazer perguntas.”
Jonathan fechou o sorriso por um segundo. Depois o reabriu, mais largo.
“Hoje esse moleque cai do cavalo.” O pensamento era visível na postura dele, na forma como se recostou na cadeira com os braços cruzados. “Ele não sabe o quão rígido o Sr. Archibald pode ser. Não vai se safar por ter mentido.”
Archibald puxou uma cadeira e se sentou diante dos dois. Cruzou os dedos sobre a mesa.
“Muito bem,” disse. “Quais são as escolas de magia existentes?”
“Ataque, Defesa, Necromancia, Ilusão, Transmutação, Adivinhação, Tempo, Espaço.” Oliver respondeu sem pausar.
Archibald acenou com a cabeça.
“A mana possui cor. Quais as cores respectivas da mana dos magos do 1º ao 9º ciclo?”
“Azul, Roxo, Vermelho, Laranja, Amarelo, Verde, Ciano, Prata, Dourado.”
Outro aceno.
“O que é o método de visualização?”
“É uma técnica usada para perceber os órgãos internos e o fluxo de mana pelo corpo. É uma etapa necessária e precede o despertar para o 1º ciclo.”
As perguntas continuaram. Archibald não as fazia de forma gentil, eram diretas, técnicas, algumas formuladas de maneira a exigir não apenas memória, mas também compreensão.
Oliver respondia.
Não com velocidade, havia uma pausa curta antes de cada resposta, o tempo exato de localizar a informação e decidir como explicá-la. Quando falava, usava as próprias palavras, não as do livro. Às vezes reformulava a pergunta antes de respondê-la, como se estivesse confirmando internamente que havia entendido o que estava sendo pedido.
Era a diferença entre ter memorizado e ter entendido. E era uma diferença que Archibald sabia identificar.
Jonathan havia parado de sorrir depois da terceira pergunta. Depois da quinta, os braços cruzados haviam se descruzado. Depois da oitava, ele estava olhando para Oliver com uma expressão que não era exatamente admiração, era desconforto.
Archibald, por sua vez, fazia as perguntas com intervalos cada vez mais curtos entre uma e outra, como se estivesse testando não apenas o conhecimento, mas a consistência. Se Oliver estava inventando, em algum momento tropeçaria. Se havia memorizado superficialmente, em algum momento simplificaria demais.
Não tropeçou. Não simplificou.
“Uma memória fabulosa.” O pensamento de Archibald se formava enquanto ele ouvia a décima resposta, precisa e articulada. “Ele conseguiu reter cada pedaço de informação daquele livro. E não só reteve, entendeu. Se for tão talentoso em manipulação de mana quanto é em absorver conhecimento…”
Ele não terminou o pensamento em palavras. Mas o número de possibilidades que começou a se abrir em sua mente era considerável, e algumas delas eram genuinamente incômodas para um homem que havia passado a vida acreditando que talento mágico real era uma raridade distribuída exclusivamente entre famílias com recursos e linhagem.
Archibald encerrou a sessão com um aceno simples.
“Suficiente.”
Jonathan olhou para a mesa.
Oliver não disse nada, não havia necessidade.
…
A estrada fora de Wolfscar era larga o suficiente para duas carroças passarem lado a lado, com árvores altas em ambos os lados formando uma cobertura irregular que filtrava a luz do meio-dia em manchas irregulares sobre o chão de terra batida. Era o tipo de estrada que parecia segura porque era usada com frequência.
Alexander cantarolava.
Havia começado com algo que soava como uma canção de taberna do sul, migrado para uma melodia sem letra que ele claramente estava inventando enquanto andava, e agora estava num território musical indefinido que Victor havia desistido de categorizar.
“O que você acha que pode ser o motivo do desaparecimento dos aventureiros?” Alexander perguntou, sem parar de caminhar.
Victor manteve o olhar na estrada à frente.
“Nada encaixa.” Havia uma precisão clínica no tom dele. “Monstros ou feras mágicas deixam rastros, sangue, pegadas, marcas no terreno, alguma coisa. Ladrões deixam corpos quando a resistência é séria. Mas esses aventureiros simplesmente pararam de existir. Sem vestígio de luta, sem pertences abandonados, sem nada.”
“Acha que tem relação com o necromante?”
Victor balançou a cabeça devagar.
“Não parece… simplesmente não é o serviço de um necromante.” Pausou. “E francamente, necromantes não são especialistas em apagar evidências. São especialistas em usá-las. Se é que você me entende.”
Ele estava se referindo aos corpos deixados que seriam manipulados depois.
Alexander parou de cantarolar por um momento, o que por si só era suficiente para indicar que estava pensando de verdade.
“Então o que seria capaz de—”
“Uma barreira.” A voz de Victor mudou. Não subiu o tom, apenas ficou mais quieta, o que era pior. “É uma formação.”
Alexander parou. A mão foi para a espada por reflexo, dedos fechando no cabo antes que o pensamento consciente chegasse.
“Está na nossa frente?”
“Não.” Victor virou o rosto para ele. “Já estamos dentro dela. Percebemos tarde demais.”
O chão à frente deles brilhou.
Foi rápido, uma concentração de energia que se formou como uma esfera pequena e densa rente à superfície da estrada, laranja-avermelhada, vibrando com o calor de algo prestes a explodir. Alexander e Victor tiveram tempo de ver. Não tiveram tempo de sair do alcance.
A esfera explodiu.
Magia de 3º Ciclo – [Bola de Fogo].
O fogo se expandiu numa onda que consumiu o ar, a luz e o som de uma vez. O calor foi primeiro, depois o impacto, depois o silêncio estranho que existe no centro de uma grande explosão.
Quando as chamas se dissiparam, havia fumaça e terra revirada e dois homens de pé no centro de tudo aquilo.
Chamuscados e feridos, porém de pé.
As roupas de Victor estavam com marcas de queimadura nas mangas e na lateral do robe. Alexander tinha sangue no rosto de onde um fragmento de algo havia passado rente à têmpora. Ambos respiravam com cuidado, verificando se os pulmões ainda funcionavam.
Ao redor deles, emergindo da linha das árvores e de atrás de uma curva da estrada que haviam acabado de passar, havia homens. Pelo menos trinta, talvez mais, armaduras de qualidade razoável, armas desembainhadas, formação que sugeria treinamento. Não eram bandidos comuns. Eram organizados o suficiente para fechar um círculo sem se atrapalhar.
Atrás deles, parada e distante, havia uma mulher.
O robe era marrom escuro. O cetro que ela segurava era curto para os padrões que Victor havia visto em magos, mais próximo de um bastão de combate do que de um foco arcano convencional. Os olhos eram dourados, alongados e verticais, típicos de um felino.
Orelhas pontudas na parte superior da cabeça. Uma cauda longa que se movia com vida própria, chicoteando o ar com a cadência irregular. Caninos discretamente visíveis quando ela abriu a boca num sorriso que não chegava aos olhos.
Homem-fera. Linhagem de guepardo, pela estrutura do rosto e pela forma como os músculos sob o robe sugeriam velocidade acumulada, não força bruta.
“Pessoas comuns já teriam morrido.” A voz era suave, parecia um tanto surpresa. “Vocês são durões. Devem ter bons equipamentos.”
Ela deixou o sorriso aberto por um segundo.
“Ataquem.”
Os trinta homens avançaram.

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