CAPÍTULO 34 – ALMAS
Orson apoiou os cotovelos sobre os joelhos e lançou a pergunta calmamente.
“O que você acha que te define? Corpo ou alma?”
Oliver tinha algumas considerações a esse respeito. Quando renasceu, passara por aquela estranha experiência em um corredor repleto de pontos de luz. Agora ele sabia que aqueles pontos eram almas.
A versão de si mesmo da vida anterior ainda era ele, mas a versão de sua vida atual também era. O corpo era diferente, porém Oliver acreditava que a alma continuava sendo a mesma.
Depois de organizar os próprios pensamentos, ele enfim respondeu.
“Eu acho que ambos me definem.”
“Muito bem.” Orson coçou a barba, satisfeito com a resposta. “Você não está particularmente errado. Ambos são importantes para definir o seu ser neste momento, mas, se eu te perguntasse qual deles é capaz de reter memórias, pensamentos e personalidade, entre corpo e alma, o que você me diria?”
“Isso definitivamente seria a alma.” A resposta saiu com convicção. Oliver acreditava que a alma era responsável por todas essas funções, pois havia reencarnado e ainda possuía as memórias de sua vida anterior. Como seu corpo não era o mesmo, somente sua alma seria capaz de armazenar memórias, pensamentos e personalidade.
Orson sorriu e balançou a cabeça em sinal positivo, como se esperasse exatamente aquela conclusão.
“Ótimo. Agora pense comigo: de que maneira corpo e alma estão ligados?”
Oliver refletiu por um instante, mas não conseguiu alcançar o ponto central da pergunta. No fim, apenas balançou a cabeça de leve em negação.
Orson ergueu discretamente o dedo indicador antes de explicar.
“O corpo e a alma estão ligados pela vida. O corpo em si não possui vida, mas a alma possui. O corpo é um recipiente capaz de sustentar a alma no plano material. Quando esse recipiente é quebrado ou ferido a ponto de não conseguir mais sustentá-la, a alma parte de volta para seu ciclo natural.”
Oliver compreendeu essa faceta da realidade, mas algo no fim da explicação chamou sua atenção mais do que o restante.
Ele inclinou um pouco o corpo para a frente.
“O que seria o ciclo natural?”
Orson passou os dedos pela barba e tomou um breve fôlego.
“O ciclo natural nada mais é do que a reencarnação. Quando o corpo morre, a alma se desprende e segue seu curso. Todas as almas caminham pelo corredor da reencarnação e então são distribuídas novamente para reencarnarem.”
Oliver apertou os lábios. A resposta imediatamente conduziu seus pensamentos para a própria situação.
“Seria possível manter a memória de sua vida passada depois de reencarnar?”
Orson arqueou levemente as sobrancelhas, surpreso com a direção da pergunta. Ainda assim, não demorou a se recompor.
“Seria algo absurdamente difícil. Ao passar pelo corredor, a alma é purificada. Todas as lembranças e toda a personalidade construídas na vida passada são perdidas, para que a alma experimente outro ciclo da melhor forma possível. Qualquer coisa que se desvie disso seria antinatural.”
Oliver queria entender a própria situação. Há muito tempo ele deixara de pensar nisso com frequência e apenas aceitara o que lhe acontecera, mas agora, tendo tutores aos quais podia fazer perguntas mais complexas e dos quais podia obter respostas, aquela curiosidade se acendia outra vez. Ele queria entender o mistério por trás do seu renascimento.
Com esse pensamento em mente, fez outra pergunta.
“Toda alma obrigatoriamente entra no ciclo natural? A alma do orc não pareceu ter seguido por ele.”
Ao dizer isso, Oliver se lembrou da fumaça negra que o atacara no cemitério. Orson havia dito que aquilo era um espírito vingativo.
“Perfeito.” Orson pareceu satisfeito com a pergunta. “Normalmente, o que te ancora no plano material é o seu corpo. Mas, quando ele se vai e ainda existe um grande ressentimento, culpa ou ódio, um espírito vingativo pode nascer. A alma se recusa a voltar para o ciclo natural da reencarnação e se ancora nesses sentimentos negativos. A partir desse ponto, ela se corrompe e não consegue voltar para o ciclo natural até cumprir seu objetivo.”
Oliver absorveu aquelas palavras e logo chegou à conclusão mais óbvia.
“Então, enquanto a alma do orc não conseguir a vingança dele, ele não vai conseguir reencarnar?”
“Basicamente isso.”
O olhar de Oliver deslizou para a gaiola presa à cintura de Orson. A alma do orc ainda devia estar aprisionada ali.
Ao se lembrar do cemitério, um arrepio discreto percorreu sua espinha.
“Eu senti uma sensação ruim quando o espírito vingativo me atacou. Acho que ele realmente poderia ter me matado. As almas possuem esse poder?”
Orson deixou escapar um leve sorriso antes de responder, como se a pergunta finalmente estivesse se aproximando de um terreno mais prático.
“Sim, a alma possui o poder de atacar. Mas, normalmente, magos especialistas em almas preferem atacar as almas de seus adversários em vez de atacar com as próprias almas. É muito mais fácil e muito menos problemático.”
Oliver ainda tinha muitas perguntas, mas preferiu não despejá-las todas de uma vez.
Por um instante, o silêncio pairou entre os dois. O som do vento passando pelas folhas e a presença morna de Caramelo ao lado dele impediram que o momento se tornasse desconfortável. Ainda assim, Oliver não demorou para voltar ao que realmente lhe interessava.
“E então, você já me ensinou sobre almas. Vai me ensinar alguma magia?”
Desde que se tornara um mago de 1º ciclo, Oliver não havia aprendido sequer uma magia formalmente. Sua única magia de 1º ciclo, autoral e carinhosamente apelidada de “relâmpago”, era a primeira e única de seu repertório.
“Claro.” Orson cruzou os braços com tranquilidade. “É bom revisar a teoria por trás da magia. Um mago precisa ser um bom questionador, afinal. Ser um mago não é apenas memorizar algumas magias e lançá-las quando precisar delas. Então não seja impaciente.”
Oliver estava impaciente.
Ele suspirou, inclinando a cabeça para trás por um instante antes de insistir.
“Sinceramente, eu não entendo todas essas preliminares. Mestre Archibald disse que vai me ensinar magias de 1º ciclo a partir da semana que vem. Estou pronto, tio Orson. Por favor, me ensine.”
Orson pareceu genuinamente surpreso. Pelo que sabia, Oliver tinha aulas com Archibald apenas uma vez por semana. Normalmente, um aprendiz passaria algumas semanas, ou até meses, estudando fundamentos antes de aprender a conjurar magias de 1º ciclo propriamente ditas. Pela quantidade de aulas que Oliver tivera com Archibald, Orson achava que ele ainda deveria estar revisando o básico antes de aprender qualquer magia nova.
Depois de encarar o garoto por um momento, Orson decidiu testar a afirmação.
“Você está mentindo, garoto?” Essa lhe pareceu uma explicação razoável.
“De forma alguma.” Oliver esticou os dois braços atrás da cabeça e alongou as pernas, assumindo uma postura confortável. “Você pode me testar, se quiser.”
Orson então lançou uma enxurrada de perguntas sobre os fundamentos da magia e, para sua surpresa, Oliver respondeu a todas sem pestanejar.
“Impressionante”, Orson pensou, observando o menino com mais atenção. “Pensei que esse garoto fosse um talento para magia da alma especificamente, mas agora vejo que ele é talentoso em magia no geral.”
No fim, ele soltou um breve resmungo de aprovação.
“Ótimo. Posso te ensinar uma magia, para que você não saia daqui insatisfeito.”
Oliver abriu um sorriso de imediato, sem tentar disfarçar a satisfação.
“Finalmente!”

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