Capítulo 43 - Um Talvez
Mesmo em luto, os ex-moradores da vila Crim tentaram se animar, comendo e bebendo juntos. Durante toda a celebração, Jaro permaneceu sem a máscara, deixando todos verem seu rosto.
Após algumas horas, Jaro tinha ido pra seu quarto provisório, Dargan alguns minutos depois, entrou no quarto do lorde para conversar. Eles trocaram ideias sobre a batalha contra o rei Dollak, comentaram sobre estratégias que poderiam ter usado e também discutiram o treinamento futuro dos camponeses.
Até que Jaro perguntou, em tom sério: — E as cabeças?
Dargan, que mantinha ao seu lado duas bolsas de pano, uma menor e outra maior, as levantou diante do lorde.
— Estão aqui — respondeu, erguendo as bolsas até Jaro, que as pegou para verificar.
Ele abriu os sacos e não era uma visão agradável.
— Os dollaks são bem feios, mas o rei deles consegue ser pior. Que nojo. Mas não sei se conseguirei levá-las até o Distrito Azul antes que apodreçam — comentou Jaro, preocupado.
— Não se preocupe, as cabeças de feras que têm alta concentração de mana demoram mais tempo para se decompor.
A notícia deixou Jaro aliviado.
— Que bom, então… É mudando de assunto, eu gostaria de saber uma informação, quanto você avalia os tesouros que temos aqui? Todo o ouro, os baús cheios de armas, armaduras, joias…
Dargan pensou um instante.
— Hmm… eu diria que, em moedas, temos cerca de dez mil em ouro. Já o caixão e os outros itens… não sei quanto valeriam. Mas, se a caixa de câmbio for parecida com a da minha época, talvez chegue a cinco mil moedas de ouro.
Os olhos de Jaro se arregalaram.
Se não estou enganado, Taylor me disse que uma moeda de ouro vale 10 mil crons. Ou seja… quinze mil moedas de ouro dão cento e cinquenta milhões em crons. Isso é estupidamente incrível.
Ele conteve a excitação com uma tosse, para não demonstrar nada diante de Dargan. Ele havia conseguido ficar rico novamente, praticamente sem esforço algum.
— É uma quantia considerável. Mas quero que esconda tudo. Nem uma moeda deve ser entregue aos meus servos.
Dargan se mostrou intrigado.
— Por que, senhor? Isso não facilitaria o contato com as vilas remotas e, principalmente, a alimentação do povo?
Jaro balançou a cabeça.
— É verdade… mas não acho uma boa ideia dar folga a eles. Essas pessoas perderam muitas coisas importantes. Se eu facilitar a vida delas, terão tempo de sobra para pensar no que perderam, e isso pode desmotivá-los. Por isso, quero que a vida deles aqui seja difícil. Assim, eles se tornarão guerreiros formidáveis e terão mais chances de sobreviver aos próximos problemas que virão.
O esqueleto ficou surpreso com a sabedoria do lorde. Apesar da juventude, Jaro soava como um velho sábio.
— Farei como o senhor deseja.
De repente, uma batida à porta interrompeu a conversa.
— Pode entrar — ordenou Jaro.
A porta se abriu e um homem de cabelos castanhos e rosto cansado entrou, carregando alguns papéis.
— Lorde, perdão por interromper a conversa.
— Ah, é você, Joanan. O que deseja?
— É que… meu trabalho na vila Crim era fazer mapas. E eu os vendia para outras vilas, mas depois que a concentração de monstros aumentou, infelizmente não consegui mais vender nada. No entanto, antes de a vila ser queimada, eu peguei o máximo de mapas que pude. E, por sorte, encontrei alguns rascunhos que fiz de regiões da montanha. Nessas áreas, há aproximadamente quatorze vilas. Agora que sei onde ficam essas quatorze, será mais fácil encontrar as demais!
Jaro abriu um sorriso.
— Pelo visto, os deuses estão do nosso lado. Excelente notícia, Joanan!
O cartógrafo espalhou os mapas sobre a mesa, e os três passaram a noite inteira analisando-os e traçando planos. Quando a madrugada terminou, já era hora de Jaro partir.
Já pronto, ele foi se despedir do seu lobo Zam, que chorou bastante, como se entendesse o tom de voz do amigo humano. Em seguida, Jaro partiu para fora da dungeon.
Todos os moradores da vila Crim e os guerreiros esqueletos, agora servos de Jaro, estavam do lado de fora.
Era por volta de cinco horas da manhã.
Jaro havia decidido levar todos os itens encantados. Sabia que podia ser perigoso, já que alguém poderia roubá-lo ou algum superior poderia confiscar seus itens. Mas sentia que o Distrito Azul era muito arriscado, e precisava usá-los a qualquer custo. Ostentando seus anéis, o colar do Guardião e o peitoral de prata, que reluzia na fraca luz do sol. Nas costas carregava um saco com três espadas encantadas. E, no rosto, sua máscara branca demoníaca.
— Esta noite foi maravilhosa. Creio que ficamos mais unidos. Espero que seja assim até a outra vida — exclamou Jaro, arrancando comentários animados da multidão.
Os rostos deles agora parecem bem melhores.
Ele então se aproximou e começou a cumprimentar todos com um sorriso.
— Quando eu voltar, espero que estejam mais fortes. E espero grandes coisas da equipe da cozinha… e que preparem pratos ainda mais deliciosos!
— Com certeza! — responderam os cozinheiros.
— E quero pessoas que saibam, ao menos, engessar um osso quebrado — completou, afastando-se alguns passos. — Bem, acredito que seja isso… até logo, meu povo.
Todos se curvaram.
— Que os deuses abençoem a trajetória do Lorde Jaro — clamaram em uníssono.
Naquele momento, Jaro percebeu a ausência de uma pessoa… Serena. Imaginou que estivesse chateada por ele estar indo embora. Não tinha jeito, ele virou-se e saiu caminhando, até que, depois de alguns metros, ouviu passos atrás de si.
Serena havia saído da dungeon correndo e passando pela minúscula multidão, com um pano grosso nas costas.
Aproximando-se do lorde, declarou ofegante:
— Jaro… — chamou.
O rapaz parou, sem se virar.
— E-eu quero ir com você. Não tenho nada de importante aqui. A única coisa que me importa está indo embora… e eu não posso permitir isso — falava, com as bochechas vermelhas.
— Não… você também se tornou alguém importante para mim.
— Mas… — o rosto dela escureceu em tristeza, e ela baixou o semblante.
Então Jaro se virou.
— Porém… — disse, e Serena levantou o rosto. — Se aceitar que passará por muito sufoco, acredito que estará tudo bem.
Na mesma hora, Serena pulou nos braços dele, abraçando-o. Isso deixou Jaro embaraçado, pois todo o povo estava ali, assistindo.
— Eles até que parecem um casal — comentou uma idosa fofoqueira.
— Hoho, não é que são lindinhos? — disse outra, baixinha e risonha.
Jaro pegou Serena nos braços, deixando-a ainda mais vermelha.
— O-o que você está fazendo?!
— Estou me sentindo melhor dos ferimentos… Assim podemos ir mais rápido.
Jaro circulou sua mana pelo corpo e, numa velocidade absurda, correu pela floresta. Ora pulava de árvore em árvore, ora atravessava o mato como um raio, enquanto Serena não parava de gritar.
Jaro acreditava que seria uma boa ideia levá-la, já que Serena era uma maga de cura. Isso tornaria a equipe Fantasma mais versátil, além de deixar as missões futuras mais seguras. Assim, ele também não precisaria depender da Chefe para se curar. Mas, se ela não tivesse essa habilidade especial, não importaria o quanto implorasse, ele não a teria levado.
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