Capítulo 44 - Estrelas
Jaro, em apenas um dia, correndo e descansando por alguns minutos, conseguiu percorrer metade do caminho carregando Serena em seus braços. No entanto, no segundo dia, uma febre forte tomou conta dele e as dores retornaram com intensidade.
Forçados pela situação, montaram um acampamento improvisado entre árvores colossais, que chegavam a mais de trinta metros de altura e dez de largura. Naquela noite, deitados lado a lado sob o céu estrelado, conversaram sobre o passado.
Serena relatou como o ancião Baldar, suas esposas, as filhas dele e o povo da vila Crim a tratavam com mais detalhes. Cada palavra despertava em Jaro uma fúria silenciosa. Quando chegou a sua vez de falar, hesitou. Não havia muito que pudesse revelar.
Isso porque ele vinha de outro mundo… e ainda não confiava em ninguém o suficiente para compartilhar algo tão profundo. E, mesmo que confiasse, ainda desejava levar esse segredo consigo até o túmulo.
Então, inventou algumas coisas e disse que sua lembrança mais antiga era ter sido espancado. Ao despertar, sem memória alguma, descobriu que era apenas uma mercadoria do clã Moong. Depois, narrou algumas batalhas que enfrentou, omitindo, porém, tudo a respeito da Chefe.
Serena ouvia impressionada: às vezes ria, outras se preocupava, e em certos momentos até se irritava.
Até que Jaro perguntou a idade dela.
— Este ano eu completei 17…
Ele ficou surpreso; pensava que fosse mais nova.
— E você? — indagou a jovem.
— Eu tenho quart—
Antes que concluísse, foi interrompido.
Você não tem mais 14 anos… olhe sua identidade. Avisou a Chefe.
Assim, Jaro fez.
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Clã Moong
∴ Codinome: Número 102
∴ Idade: 15 anos
∴ >???< de Mana ∴ Hierarquia: >???<
∴ Classe: Guerreiro Secundário
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Tem horas que sinto que você me dá muito sorte…
A chefe, apenas ficou em silêncio. O rapaz não se importou e um sorriso animado surgiu em seu rosto.
— Eu tenho 15 anos.
— Bem jovem… pensei que fosse mais velho que eu.
— Por quê?
— Porque você tem a mesma altura dos homens da vila, seu corpo é másculo e seu rosto maduro… não parecem em nada com os de um adolescente.
— Oh, entendo… — Jaro a encarou. — Por isso você me beijou…?
Serena arregalou os olhos, surpresa com a pergunta.
— E-eu só…
— Se arrepende, agora que sabe que sou mais jovem?
— Claro que não!
— Hahaha… tudo bem. Olha, eu não posso dizer que estou apaixonado por você ou algo assim…
Serena o ouviu atentamente, com o coração batendo forte.
— Mas tenho certeza de que você não é apenas uma pessoa qualquer para mim.
Ela desviou o rosto, envergonhada, e ambos se viraram.
— Vamos dormir…
— S-sim.
— Boa noite…
— Boa noite — respondeu ela.
Na manhã seguinte, Serena usou toda sua mana para curar Jaro. Ele se recuperou quase por completo e corria ainda mais veloz. No mesmo dia, chegaram diante do imenso portão de aço do Distrito Azul.
Dois guardas estavam ali, imóveis.
O rapaz, pegou a Espada da Verdade, que parecia uma bengala, e começou a usá-la para andar. Quando seu corpo esfriava, as dores dos ferimentos voltavam, por isso precisava de sua espada para se apoiar.
— Serena, ouça bem. Você não deve falar nada, a menos que perguntem diretamente. E lembre-se: você é a única sobrevivente do clã Crim.
— T-tá bom…
Antes de chegar ao Distrito Azul, Jaro havia aprendido a manipular sua mana, fazendo com que sua identidade voltasse ao normal.
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Clã Moong
∴ Codinome: Número 102
∴ Idade: 15 anos
∴ >80< de Mana ∴ Hierarquia: >?<
∴ Classe: Guerreiro Secundário
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Assim, seu álibi sobre a vila Crim teria mais peso, e não desconfiariam de sua versão.
Ao se aproximar dos guardas, eles ficaram desconfiados de quem era aquele sujeito chegando junto de uma linda mulher. Eram os mesmos guardas que o haviam liberado para a missão. Mas, como Jaro sofreu mudanças corporais muito significativas ao alcançar o estágio de Guerreiro, graças à Chefe, era difícil reconhecê-lo.
— Parem aí! — ordenou um deles, alto, imponente, com armadura prateada cobrindo-lhe o corpo.
Jaro e Serena obedeceram e pararam a uma distância segura, suficiente para serem ouvidos claramente. Os dois guardas sacaram armas e escudos. A aura deles era poderosa; Jaro agora conseguia ver a mana densa que emanavam. Com certeza estavam no estágio de Guerreiros.
— Quem são vocês? Saibam que aqui é o Distrito Azul, uma das bases principais do clã Moong! Dependendo de suas palavras, podemos matá-los aqui e agora!
— Guardas, eu sou um guerreiro secundário do clã Moong e tenho uma identidade para provar. Saí em missão por ordens do professor Kyle.
Ao ouvirem o nome de Kyle, os guardas estremeceram. Apenas membros do clã o conheciam, então a história do homem mascarado parecia verídica.
— Sua história parece coerente… porém, se aproximem lentamente, sem movimentos bruscos, e apresente sua identidade, guerreiro!
Jaro andou devagar, apoiando-se na bengala, e entregou sua identificação. Os guardas a analisaram, perplexos.
— Não pode ser… Jon, é o mesmo garoto de uma semana atrás! Até a máscara é idêntica! Mas… como ele cresceu tanto em tão pouco tempo?
Eles desconfiaram que Jaro tivesse tomado alguma poção especial ou contraído uma maldição na floresta.
— Certo, confirmamos sua identidade. No entanto, quem é essa mulher ao seu lado? Ela até que dá pro gasto… — perguntou um dos guardas, aproximando-se dela e acariciando seus cabelos.
— Dá pro gasto nada, Jon! Ela é gostosa pra caralho! — retrucou o outro, chegando mais perto da jovem e a secando.
— Eu gosto de mulheres mais gordas, idai? — murmurou Jon.
— Ela é uma das provas de que completei minha missão, senhores — exclamou Jaro.
— Hmm, tudo bem… Mas você não precisa levá-la imediatamente, não é? Deixe que a gente brinque um pouco com ela — disse um dos guardas sorrindo, estendendo a mão em direção às nádegas de Serena.
Nesse momento, Jaro, que estava de costas, desapareceu. Num piscar de olhos, reapareceu com duas lâminas encostadas nos pescoços dos guardas: a Lâmina dos Céus e a Lâmina Mutante.


— Senhores… isso eu não posso permitir. Essa mulher é minha.
A presença que emanava de Jaro era pesada. Os guardas sentiram que o rapaz era muito mais forte do que imaginavam.
— Está se achando só porque conhece um superior!
— Vamos te matar, moleque!
— Vocês acham que meros guardas valem mais do que uma mercadoria? Estão malucos? Se se mexerem um milímetro, corto seus pescoços.
A ameaça de Jaro os congelou. Tudo o que ele dizia era verdade.
— Merda… — murmurou um dos guardas, recuando.
— Não vamos nos esquecer de você — disse Jon, irritado, também se afastando.
— Eu também não me esquecerei de vocês…
Serena, no meio daquele embate, estava nervosa, mas confiava em seu herói.
— Venha, escrava — disse ele, seguindo adiante.
Logo Serena o seguiu para dentro do Distrito Azul. Assim que atravessaram os portões de aço, o cenário diante deles a surpreendeu. As ruas eram largas, pavimentadas com blocos de pedra escura, polida como vidro. Às margens, erguiam-se construções altas de madeira reforçada com ferro, algumas decoradas com entalhes rúnicos nas vigas, enquanto outras possuíam janelas de vidro quadrado, semelhantes às casas modernas que Jaro já havia visto na sua terra.
Os telhados eram inclinados, cobertos com telhas de ardósia, lembrando o estilo nórdico, mas o alinhamento das casas e a disposição das ruas davam ao lugar um ar de cidade planejada, parecida como um centro ocidental dos anos 90. Postes de ferro iluminavam o caminho com chamas protegidas por globos de vidro fumê, que os faziam parecer lanternas elétricas.
Havia mercados improvisados nas esquinas, barracas com couro, armas e alimentos secos, mas também lojas maiores com placas de madeira pintadas e portas envidraçadas. Serena caminhava com os olhos arregalados, absorvendo cada detalhe. Estava acostumada à simplicidade da vila Crim, onde as casas eram baixas, feitas de barro e madeira, e a vida se resumia à sobrevivência. Ali, tudo parecia grandioso, organizado e vibrante.
Crianças corriam pelas ruas com roupas de linho tingidas, mulheres carregavam cestos cheios de peixe ou pão fresco, e guerreiros patrulhavam, exibindo as armaduras brilhantes com o símbolo do clã Moong estampado no peito. O cheiro no ar era uma mistura de fumaça de forjas, especiarias exóticas e suor humano. Enquanto caminhava, Serena via alguns carruagens de madeira reforçada passarem, puxadas por cavalos robustos.
Havia também algo que a deixava intrigada, caixas metálicas empilhadas em algumas esquinas, com símbolos estranhos, como se fossem artefatos modernos. De repente, a agitação passou e olhando para Jaro, lembrou-se das palavras dele: “Essa mulher é minha!”. Seu coração acelerou e um nó de confusão apertou sua garganta. Ela só queria gritar.
— Jaro… esse lugar… — ela sussurrou, impressionada. — É como se fosse… de outro mundo.
— Concordo… também tive a mesma reação.
O jovem respondeu, à medida que caminhava com firmeza, apoiando-se na bengala, como se já estivesse acostumado com aquele ambiente misto, antigo e moderno. Os dois seguiram por longas ruas até chegarem diante de uma mansão.
Diferente das casas comuns, essa era monumental, cercada por muros de pedra com lanças de ferro no topo, possuía portões duplos e um jardim interno visível pelas grades, com estátuas de guerreiros antigos lado a lado com esculturas modernas em mármore branco. Serena ficou paralisada diante da imponência do lugar.
A essa hora, todos os professores já tinham sido avisados de que Jaro havia voltado. Até mesmo os membros da equipe Fantasma, a Equipe III, ficaram sabendo da volta de seu companheiro.
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Em um escritório modesto, o professor Kyle falava ao telefone fixo sobre sua mesa.
— Está tudo feito, senhor Kyle.
— Muito bem, até mais. — Kyle desligou.
Ele se levantou, abriu a porta de seu escritório e saiu, pensativo, com um sorriso estranho no rosto.
Aquele moleque realmente é um talento monstruoso… não posso permitir que aquele patife do Kao o tenha. Se esse pirralho não comer na minha mão, farei de tudo para eliminá-lo!
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