Capítulo 75 - Espólios
Após o fracasso do sequestros, Vitória convocou todos para se reunirem na sala de treinamento particular que haviam alugado por um ano inteiro, usando a moeda de ouro que Jaro entregou a ela.
Quando todos chegaram, o clima era de exaustão misturado com alívio. Jaro, Serena e Alice estavam sentados sobre caixas de madeira espalhadas pelo salão. Peter permanecia no chão, ao lado de Alice, atento a qualquer sinal de piora. Taylor e Vitória continuavam de pé, ainda tensos com a situação. Serena aplicava os primeiros socorros em Alice com palmas concentradas brilhando em verde.
A certa distância, amarrada a um pilar de madeira, estava Angela, membro da Ordem de Gelo. Os braços que Peter havia decepado já estavam novamente no lugar, Jaro a curou utilizando o poder da Chefe. Graças isso, ela estava fora de risco de morte.
Ainda assim, permanecia desacordada. Vitória injetou em sua veia um líquido chamado Epo, uma substância capaz de manter alguém inconsciente pelo tempo que o aplicador desejar. Era usado, em geral, por curandeiros, médicos ou magos de cura.
— Primeiramente, fico feliz que todos estejam vivos — declarou Vitória, percorrendo o olhar por cada membro da equipe, com um leve sorriso.
Eles retribuíram. Até Alice, apesar dos ferimentos graves, sorriu. Ali, ela se sentia segura.
— Como vocês sabem, ultimamente membros da Ordem de Gelo vêm intimidando e extorquindo equipes da nossa turma. Hoje, ultrapassaram todos os limites ao tentarem sequestrar Alice e Serena. Mas elas foram corajosas. Lutaram e sobreviveram.
— É isso aí! Temos que mostrar para aqueles desgraçados que ninguém mexe com a Equipe Fantasma! — exclamou Alice, erguendo o queixo com orgulho.
No entanto, ao se mexer, uma fisgada atravessou seu corpo, por que seus ferimentos ainda eram muito recentes. Ela soltou um grito de dor, e a sala foi tomada por risadas. Alice corou, emburrada, mas acabou rindo também.
— Pensei que você não gostava desse nome — provocou Vitória, segurando o riso. Em sequência, num gesto calmo, ela puxou uma caixa de madeira e se sentou confortável, então falou: — Pessoal… acabei de conseguir algumas informações. Aparentemente, algumas garotas da nossa turma foram sequestradas.
— Como isso é possível? E os guardas? Não fazem nada? Isso é loucura — disparou Taylor, indignado, encostando na parede de carvalho.
— Concordo — respondeu Vitória, séria. — Eles deveriam estar nos protegendo. Mas, com a guerra iminente entre os regimentos, conflitos externos e internos começaram a surgir. Pelo que parece, os guardas já não têm condições de nos proteger como nos primeiros dias em que chegamos aqui.
Ela fez uma pausa, observando o semblante tenso dos companheiros.
— Está virando uma verdadeira bagunça. Por isso, também convidei as outras equipes da nossa turma para virem aqui, para pensarmos em uma maneira de salvar suas companheiras. Acredito que eles devem estar desesperados a essa altura… É óbvio que não penso em ajudá-los e arriscar nossas vidas apenas por heroísmo, mas também porque podemos usar essa oportunidade para fazer com que as outras equipes nos devam um favor, entendem? Além disso, podemos nos aproximar mais delas. Neste lugar, acredito que, quanto mais aliados tivermos, mais difícil será mexerem com a gente.
Vitória encarou cada um deles.
— Mas só levarei esse plano adiante se todos vocês aceitarem. O que me dizem?
A Equipe Fantasma se entreolhou e pensou por um momento. Jaro, que estava quieto até então, exclamou friamente: — Vitória, você tem toda razão. E minha mão já está coçando para matar cada um deles.
A resposta de Jaro, fez Taylor abrir um sorriso confiante.
— Eu tô dentro. Se unirmos forças com as outras equipes, não só vamos salvar as madames, como também podemos causar um belo estrago na Ordem de Gelo.
— E-eu também vou! — disse Serena, reunindo coragem.
— E-eu concordo — Peter assentiu.
— É claro que eu aceito! — gritou Alice, com os olhos ardendo em determinação. — Vou esmagar a cara deles.
Vitória virou-se bruscamente para ela.
— Não. Você não está em condições.
— Hah, esses machucados não são nada! E só vou conseguir relaxar quando explodir aqueles vermes — Ela olhou para todos, com firmeza. — Vocês não podem me impedir. Foi esse o caminho que escolhi! Não viverei escondida com medo! Vou derrotar todos que entrarem no meu caminho.
Alice havia mudado muito em pouco tempo. Se fosse possível definir o que estavam sentindo ao encará-la, certamente a palavra seria: força.
— Eu vou curá-la ainda hoje — afirmou Serena, mantendo o olhar fixo em Alice. — E juntos iremos salvar as garotas.
— Claro! Conto com você — respondeu Alice, animada.
Vitória soltou um longo suspiro. No fundo, sentia orgulho. Seus companheiros não eram fracos.
— Muito bem. Então estamos decididos — ela assentiu com firmeza. — Agora só falta as outras equipes chegarem. Mas, antes disso, quero mostrar algo a vocês.
Vitória abriu sua bolsa com calma e retirou três anéis de tom azulado, cujas superfícies rúnicas cintilavam suavemente à luz. Ergueu-os entre os dedos, exibindo-os aos companheiros.
— Não me diga que isso é o que eu estou pensando… — murmurou Taylor, embora já soubesse a resposta.
— Exatamente. São os três dispositivos Halo daqueles que derrotamos — respondeu Vitória, com uma tranquilidade inquietante. — Tenho certeza de que há uma boa quantia de crons armazenada aqui.
Ela falava com naturalidade, como se tirar vidas fosse algo comum. Ainda assim, nenhum dos outros pareceu se incomodar.
— Espólios! — exclamou Alice, seus olhos brilhavam de empolgação. — Anda, vê logo quanto de cron tem aí!
o Sistema Halo é um sistema holográfico universal que funciona como a principal tecnologia do mundo.
Ele serve para armazenar dados pessoais como nome, idade, local de nascimento, profissão e antecedentes criminais.
Também permite realizar transações financeiras, como receber salários, pagar salários, pagar produtos e movimentar dinheiro. Além disso, é responsável por exibir informações holográficas, como preços e anúncios visíveis nas lojas.
Ele funciona utilizando runas como base tecnológica e mágica. As informações holográficas só podem ser vistas ao tocar em um dispositivo Halo, que pode ser um anel, um bracelete ou uma esfera; o sistema pode ser inserido em qualquer objeto físico.
Ele funciona como uma rede global usada por três das quatro nações, a nação dos Espíritos não utiliza esse sistema e não mantém qualquer contato com os outros reinos.
— Certo. — Em seguida, com a voz firme, entoou: — Halo.
Três painéis holográficos azulados irromperam diante dela, projetando feixes de luz que tremeluziam no ar.
Vitória permaneceu em silêncio, com os olhos percorrendo as telas.
— Então? Quanto tem aí? — perguntou Alice, já quase esquecida da dor dos ferimentos, dominada pela empolgação diante dos espólios.
— É como eu imaginei…
— O quê?!
Vitória respirou fundo.
— Acesso negado.
Nas projeções, a mesma mensagem se repetia, fria e implacável: ACESSO NEGADO. Nenhuma outra informação estava disponível.
— O sistema Halo possui um protocolo de segurança extremamente avançado — explicou Vitória, cerrando o maxilar. — Apenas os proprietários originais podem operar os dispositivos.
A empolgação de Alice se dissipou como fumaça ao vento.
— Que droga…
— Talvez alguém consiga hackear esses Halos e extrair o cron depois — ponderou Vitória, desativando as telas com um gesto sutil. — Por enquanto, vamos guardá-los.
Nesse instante, uma batida ecoou na porta.
Vitória sorriu de canto.
— Pelo visto, chegaram bem na hora.
Jaro se ergeu.
— Deixa que eu abro.
— Tá.
O jovem mascarado abriu a porta e, à sua frente, estava um adolescente de corpo robusto e presença imponente. Seus cabelos eram vermelhos como fogo, e seus olhos azuis, frios como gelo.
Atrás dele estavam as equipes da Turma Cinco, garotos e garotas usando capas de chuva. Pareciam tensos e nervosos, sempre olhando ao redor. Jaro e Einar ficaram alguns segundos em silêncio, encarando-se e analisando-se mutuamente.
Jaro percebeu que o corpo de Einar também estava diferente. Isso significava que ele havia alcançado o Estágio Guerreiro e que seu corpo finalmente passou por uma reestruturação corporal devido ao elevado nível de energia e ao aumento do reservatório de mana presente em seu interior.
Ao alcançar sua primeira esfera na Coroa de Mana, seu corpo evoluiu em todos os aspectos, embora não tanto quanto o de Jaro, que teve uma evolução ainda mais absurda por causa do poder oculto dentro de si.
A cada estágio que um humano alcança, seu corpo evolui freneticamente. Contudo, é apenas no Estágio Guerreiro, quando se conquista a primeira esfera na Coroa, que o corpo também ganha mais altura.
— Ainda não tive oportunidade de dizer isso, mas você comprou uma boa máscara — Einar elogiou, calmamente, erguendo a mão para um aperto.
Jaro ficou espantado. Afinal, os dois tinham uma rivalidade sangrenta. Mas, por sua amiga, Einar parecia ter abandonado até mesmo o ódio, ao menos, era o que Jaro pensava.
— Valeu — respondeu Jaro, aceitando o aperto de mão.
Porém, Einar apertou sua mão com toda a força física e ainda a potencializou com mana, triplicando-a. Se Jaro não tivesse sido rápido, sua mão teria sido esmagada. Ele reagiu da mesma forma, devolvendo o aperto na mesma intensidade.
Naquele breve contato, ambos avaliaram que suas forças não estavam tão distantes uma da outra.
Logo soltaram as mãos, como se fossem bons amigos. No entanto, os jovens atrás de Einar e os companheiros de Jaro dentro da sala de treinamento sentiram a hostilidade entre os dois, principalmente, a mana deles se elevando drasticamente em frações de segundo.
Depois disso, Einar deu um leve toque no ombro de Jaro e entrou. Jaro permaneceu perto da porta, cumprimentando cada um que passava. Em seguida, todos se acomodaram e se sentaram juntos.
— Sejam bem-vindos a nossa sala de treinamento, eu sou a número 80, mas podem me chamar de Vitória e nomeei minha equipe de Fantasma. Antes de falar sobre o que eu comuniquei a vocês, que tal os líderes de cada equipe se apresentarem e apresentaram os nomes que escolheram?
A turma se entreolhou, mas pareceram concordar com exigência de Vitória.
Se levantando Estelle, começou.
— Me chamo Estelle, número 82, o nome que escolhi pra minha equipe foi Pimenta. — Logo se sentou novamente.
Os outros foram fazendo o mesmo.
— Einar, número 99, equipe Bramms.
— Me chamem de Carter, sou o número 93 e minha equipe é a Lâmina.
Silêncio.
— E então porque nós chamaram? — indagou Einar, sem perder tempo.


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