Capítulo 78 - Algodão-doce
— Achei! — exclamou Taylor, ofegante e ensopado pela água congelante. — Pelo visto… ela não estavam mentindo.
A equipe Fantasma estava nos fundos da fortaleza do inimigo, onde a névoa da noite ainda se erguia como um véu.
Taylor havia descido até um poço antigo, seguindo a informação arrancada, à força, de Angela membro da Ordem do Gelo.
Ela havia confessado a existência de uma rota secreta de fuga, escondida justamente nesse poço ao leste do prédio.
Vitória lançou um olhar firme aos companheiros.
— Espero que ninguém se afogue.
As palavras dela tiraram algumas risadas.
Um a um, eles saltaram para dentro do poço, sentindo o impacto da água fria tomar-lhes o fôlego.
Nadar não era difícil, mas a escuridão tornava tudo mais sufocante. Quando um humano mergulha a vários metros de profundidade, a pressão da água começa a comprimir o corpo, afetando principalmente os ouvidos e os pulmões.
Sem a técnica adequada para equalizar essa pressão, o risco de lesões aumenta consideravelmente. Por isso, mergulhadores profissionais treinam métodos específicos para proteger seus órgãos durante a descida.
A Equipe Fantasma, porém, não dependia de nenhuma técnica.
Seus corpos eram fortalecidos pela mana que circulava em suas veias, tornando ossos, músculos e órgãos muito mais resistentes do que os de uma pessoa comum. A pressão que esmagaria um humano normal era, para eles, o mesmo que sentir uma leve pressão de um aperto envolta do corpo.
Depois de trinta metros, encontraram uma escotilha de madeira encharcada. Submersos, sentiram de imediato a resistência da pressão do outro lado, comprimindo a tampa contra o batente. Vitória respirou fundo, reuniu mana nas mãos e empurrou.
As dobradiças gemeram antes de ceder, abrindo passagem. A água irrompeu pelo vão, turva e pesada, mas, assim que todos atravessaram, ela tornou a fechá-la. O fluxo diminuiu gradualmente até restar apenas o som de gotas escorrendo. À frente, estendia-se um túnel estreito, iluminado por lâmpadas fracas alinhadas no teto.
— Que tal a gente se secar antes de continuar? — sugeriu Alice.
— E como faria isso? — perguntou Serena.
— Assim.
Alice ergueu as mãos e fechou os olhos. A mana percorreu as roupas dos companheiros como um sopro invisível, mapeando cada fio encharcado. Aos poucos, a umidade se desprendeu dos tecidos e se reuniu no ar, condensando-se numa esfera líquida que flutuava entre eles.
— I-incrível… — murmurou Peter, passando a mão pela camisa já seca. — Funcionou.
— A minha também está seca — disse Taylor, surpreso.
— Que legal, Alice! — completou Serena, sorrindo.
— Até que você é útil de vez em quando, hein — comentou Vitória, com leve sorriso.
Jaro permaneceu em silêncio, aproveitando o momento. Sem dizer mais nada, retomaram o passo. O som ritmado das botas ecoou pelo corredor até que, após alguns minutos, deram de frente com um imenso portão de aço, sólido e completamente fechado.
— Deixa comigo — murmurou Vitória.
THUD!
Com um único chute, o metal cedeu, abrindo passagem para uma escadaria íngreme que subia em espiral. No topo, encontraram um corredor largo e longo.
A cerca de cem metros dali, dois homens de mantos azuis membros da Ordem de Gelo, corriam na direção oposta, tentando descobrir a origem do estrondo. Quando avistaram a equipe Fantasma, mudaram o foco, sacaram as armas e avançaram.
— Pelo visto ouviram seu chutão — provocou Alice, rindo.
— Melhor assim. Poupa nosso tempo — retrucou Vitória, com a mão firme na cintura.
— Pois é — disse Alice, já se posicionando.
O grupo se preparou para atacar, mas Jaro ergueu a mão, pedindo espaço.
— Deixem eles pra mim.
— Tem certeza? Eles parecem estar no estágio Naka — alertou Taylor, sentindo a mana que saia dos inimigos.
— Isso não é tudo — retrucou Jaro, avançando lentamente enquanto desbainhava e empunhava sua espada, a Lâmina dos Céus.

Faíscas brancas começaram a dançar ao redor de suas pernas, acompanhadas por um zumbido elétrico crescente. Em um movimento ultrarrápido, ele desapareceu. Os membros da Ordem reagiram por instinto, erguendo as espadas.
— Ele é rápido demais! — gritou um deles.
No instante seguinte, Jaro surgiu entre os dois. A eletricidade cessou, ele sabia que manter os Passos do Trovão ativos drenaria sua mana rápido demais.
Com um movimento limpo, varreu a lâmina lançando um corte pelo peito de um dos homens. O adversário ainda tentou defender, mas a diferença de velocidade era absurda. O corte atravessou o indivíduo, cortando seus órgãos vitais.
O segundo guerreiro atacou pelas costas. Jaro ativou a técnica outra vez, faíscas brancas com azul saíam das pernas, ele agachou-se e girou como um peão; a espada inimiga cortou apenas o ar. No mesmo giro, a Lâmina dos Céus atravessou o abdômen do oponente.
Dois guerreiros estágio Naka tombaram no chão em questão de segundos.
Silêncio…
— Não basta estar um estágio acima do oponente para vencê-lo; isso não garante vitória em uma batalha — declarou Jaro, dirigindo-se aos companheiros. — O vencedor será sempre aquele que tiver mais coragem de levar o corpo e a mente ao limite. Foi isso que aprendi no meu curto caminho como um guerreiro.
Serena observava, fascinada. Seu Lorde era extraordinário, e era por isso que ela treinava esgrima e magia com tanta obsessão. Não queria ser um peso para o homem a quem jurava lealdade.
Um dia, eu chego lá! pensou Peter, dividido entre surpresa e admiração. Taylor e Alice sentiam o mesmo.
Mesmo com o incômodo silencioso que nutria por Jaro por causa de Serena, Taylor não podia negar, ele era, sem dúvida, o segundo mais forte da Turma Cinco e deveria o respeitá-lo.
Vitória, por sua vez, só conseguia sorrir. Ter um aliado desse nível era animador.
— Vão ficar me encarando ou vamos continuar? — chamou Jaro, já embainhando a espada. — Ainda temos um caminho pela frente.
Sem demora, a equipe o seguiu pelo corredor.
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A Equipe Bramms, escondida na mata, observava as equipes Lâmina e Pimenta lutando e atraindo dezenas de guerreiros para longe da fortaleza da Ordem do Gelo. Isso significava que, em poucos segundos, as equipes fugiriam dali, pois obviamente não conseguiriam lidar com tantos inimigos.
Então, aquele era o momento para a Equipe Bramms invadir. Eles aproveitaram que havia algumas janelas no lado sul do prédio e as quebraram com suas espadas. Ao adentrar o prédio, perceberam que o lugar era gigantesco e muito nobre. Mas, infelizmente, notaram que ainda havia mais de oito indivíduos no estágio Guerreiro da Ordem do Gelo espalhados pelo lugar. Não tinham escolha, enfrentariam os desgraçados ali dentro.
— Estão preparados? — perguntou Einar. Uma energia vermelha, como chamas, começava a circular visivelmente por seu corpo. — Cada um vai ter que matar, pelo menos, dois.
— CLARO QUE NÃO! EU É QUE IREI MATAR O MAIOR NÚMERO DELES!!!!!!! — gritou Chen, sorrindo. Seus cabelos rosados estavam em um rabo de cavalo, com tranças que desciam até as nádegas, e seus olhos eram formosos e rosados como algodão. O grito foi tão alto que Greg e Sophia tiveram que pôr as mãos nos ouvidos para que seus tímpanos não explodissem.
— Meus ouvidos! De novo isso?! — reclamou Greg, já traumatizado pelos treinos.
— Eu não vou sobreviver a essa maluca… — resmungou Sophia, à beira das lágrimas de raiva.
Surpreendentemente, Einar não moveu um músculo, como se não se importasse com o barulho. Pelo visto, isso só valia para ele, porque os oito guerreiros da Ordem pareciam tão afetados quanto Greg e Sophia; mal conseguiam se manter de pé.
— Quem são esses desgraçados? — gritou um membro da Ordem, completamente desorientado pelo grito de Chen.
Apesar de o grito ser muito poderoso, não era uma magia, mas sim uma habilidade única de Chen. Ela conseguia usar sua mana para potencializar suas cordas vocais; como um microfone, podia amplificar o volume da voz o quanto desejasse. Porém, quanto maior o volume e a duração do grito, mais mana consumia.
Einar, aproveitando a fraqueza do inimigo, correu em direção a eles. Ao se aproximar de dois que estavam com as mãos nos ouvidos, estes ficaram em choque ao ver que ele já tinha as palmas das mãos encostadas no peito deles. Então, com chamas saindo de sua boca, entoou:
— Incinerar.
Os dois membros começaram a pegar fogo e, em segundos, seus corpos estavam completamente em chamas, em altíssima temperatura. Gritavam e rolavam no chão, mas logo estavam mortos; restavam apenas cinzas espalhadas pelo piso nobre.
Chen havia parado de gritar e partiu para cima de outros dois que ainda se recuperavam. Não tiveram tempo. Sacaram suas espadas e correram, mesmo com os ouvidos sangrando e ainda desorientados. Ao se aproximarem, um deles desferiu um corte reto em direção a Chen; o golpe vinha na direção de sua cabeça. Ela desviou e segurou o braço que empunhava a espada, deixando o oponente desesperado, pois não conseguia mover a mão. Em seguida, Chen lançou um soco que atingiu o pescoço do sujeito, quebrando-o.
O segundo já estava ao lado, lançando um golpe vertical descendente. Havia água envolvendo sua lâmina.
— Morra, sua puta!
Vendo o golpe, Chen ergueu a mão em direção à lâmina da espada. O inimigo, ao observar aquilo, pensou que ela estivesse louca e teria a mão decepada.
SWING! BANG!
Porém, Chen conseguiu segurar o golpe com a mão direita, e sorria o tempo todo.
— C-como? — o homem estava confuso. Observando melhor, percebeu que a mão dela estava coberta pelo que parecia ser pedra.
— Se ferrou.
Chen quebrou a lâmina e começou a socá-lo. Suas mãos e punhos estavam cobertos por pedra. Era uma magia que aprendeu há pouco tempo, mas, utilizando sua mana, parecia que tudo em sua imaginação podia virar realidade.
Ela chamava essa magia de: — Modelagem! Sinta o poder da minha magia, seu fracote!
Chen o socava no estômago, no rosto e em todas as partes do corpo, desferindo golpes em velocidade tremenda.
Para impedí-la, os quatro guerreiros restantes avançaram juntos.
— Aproveitem o sacrifício do nosso irmão! Vamos matá-la!
— Pela Ordem! — gritaram.
Antes que alcançassem Chen, Einar ergueu as mãos.
— Não posso deixar vocês a atrapalharem — falou ele. Então, com as mãos erguidas, gritou: — Bola de Fogo!
Duas esferas gigantes de fogo voaram na direção dos quatro, que precisaram se dividir para desviar da magia.
BOOM!
A explosão sacudiu o prédio e uma trilha de destruição era visível, por todo o ambiente. Do lado direito, dois guerreiros ficaram frente a frente com Einar; do lado esquerdo, Greg e Sophia lutariam contra mais dois.
— Vocês são fracos? Eu não queria suar muito hoje — comentou Greg, preocupado em se esforçar demais.
— Deixa de falar besteira! — repreendeu Sophia.
— Estão zombando de nós? — rosnou um membro da Ordem.
— E se eu estiver? — Greg sacou sua lâmina.
Não muito longe dali, Chen já dominava o confronto. Com um cruzado de direita devastador, arremessou o adversário contra o chão, estilhaçando o piso. Seu punho permaneceu cravado no rosto do inimigo por um breve segundo, antes de puxá-lo de volta, enquanto o erguia, gotas de sangue escorriam por seus dedos.
Sem demonstrar esforço, impulsionou-se em um salto e pousou ao lado de Einar, como se aquela vitória tivesse sido apenas um aquecimento.
Um dos sobreviventes apontou a espada para Einar e Chen, tremendo de ódio.
— M-malditos! Iremos matá-los.
— Tentem — respondeu o ruivo.
— Pelo visto, vamos empatar — falou Chen, com um largo sorriso.
Einar observou os inimigos restantes, sua energia vermelha intensificou ao seu redor.
— Acho que não, ainda temos muito chão pela a frente.



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