Eiden acordou às três e quarenta e dois da manhã sem motivo aparente.

    Não foi pesadelo. Não foi o poder fazendo algo errado no escuro. Foi o tipo de despertar que não tem causa identificável — você estava dormindo e então não estava, e o espaço entre os dois estados era tão limpo que parecia intencional.

    Ele ficou olhando para o teto por um momento.

    O quarto temporário havia ganhado uma qualidade diferente nas últimas noites — não familiar exatamente, mas menos estranho. O Santuário tinha sons próprios quando ficava quieto: o assentamento das paredes antigas, o vento nos telhados curvos, algo distante que poderia ser água ou poderia ser outra coisa. Eiden havia aprendido a textura desses sons sem perceber que estava aprendendo.

    O que o havia acordado não era nenhum deles.

    Era ausência. O ar do quarto estava diferente — mais quieto do que deveria estar, com a qualidade específica de quando algo que estava presente para de estar. Como quando você percebe que um relógio parou só depois de um tempo em silêncio.

    Ele se sentou.

    As mãos estavam normais. O peito estava normal. A dor que havia persistido depois de Shinjuku havia sumido completamente durante o sono, deixando no lugar aquela consciência nova que ele ainda não sabia nomear — a percepção da distância entre os dois lados da Díade, como sentir o espaço entre dois dentes com a língua.

    Presente. Neutro. Esperando.

    Eiden levantou.

    I.

    O pátio de madrugada era diferente do pátio de manhã.

    A diferença não era só a luz — era a qualidade do silêncio, que tinha peso próprio nessa hora, o tipo de quietude que não pede preenchimento. As lanternas ao longo do caminho principal estavam acesas em intensidade reduzida, fazendo as sombras mais suaves do que de dia, com bordas menos definidas.

    Mu o gato estava no muro, como sempre. Desta vez dormindo, a cabeça encostada na pata, completamente alheio ao fato de que era quase quatro da manhã e o mundo continuava existindo sem a sua supervisão.

    Eiden foi para o banco de pedra perto da árvore central — havia uma árvore no meio do pátio que ninguém havia mencionado ainda, grande o suficiente para ter sido plantada antes do Santuário ao redor dela, com raízes que levantavam levemente o chão de pedra em curvas irregulares que pareciam mais decorativas do que deveriam.

    Sentou.

    O ar estava frio mas não desconfortável. Ele respirou uma vez, depois outra, sentindo o Santuário ao redor com a atenção que havia aprendido nos últimos dias — não procurando nada específico, apenas recebendo o que estava lá.

    Havia algo diferente esta noite.

    Uma qualidade no ar que ele não conseguia nomear completamente — não a pressão dos espíritos corrompidos, não a vibração da arena de treino. Mais parecido com o momento antes de uma pergunta ser feita, quando você já sabe que a pergunta vem mas ainda não sabe a forma exata que vai ter.

    — Você não consegue dormir ou acordou sem motivo?

    A voz veio da direção da entrada principal. Daeron estava encostado na coluna de pedra mais próxima, as mãos nos bolsos do haori, com a postura de quem estava ali há mais tempo do que Eiden havia chegado. Não estava olhando para ele — estava olhando para a árvore, com a expressão de alguém pensando em outra coisa.

    — Acordei sem motivo. — Eiden disse.

    — Isso vai acontecer. — Daeron disse, simplesmente. — O poder muda o ciclo de sono nas primeiras semanas. O corpo está aprendendo a carregar algo novo. Acomoda diferente.

    Ele se afastou da coluna e foi em direção ao banco com a mesma ausência de cerimônia de tudo que fazia — sem perguntar se podia sentar, sem anunciar que ia. Simplesmente sentou na outra extremidade do banco com um espaço entre os dois que parecia calculado mas provavelmente não era.

    O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era o tipo de silêncio entre duas pessoas que ainda estão decidindo o ritmo da conversa.

    Eiden foi o primeiro a falar.

    II.

    — O briefing dizia dois Tipo-3.

    Não havia acusação na frase. Eiden havia decidido isso antes de sair do quarto — que a conversa, se acontecesse, não seria sobre confrontar. Era sobre entender.

    Daeron não respondeu imediatamente. Olhava para a árvore com a mesma expressão de antes — pensando em outra coisa, ou pensando na mesma coisa de ângulo diferente.

    — O Tipo-1 apareceu quarenta minutos antes de vocês chegarem. — Ele disse, por fim. — Tempo insuficiente para mudar a equipe. Suficiente para atualizar o briefing.

    — Mas você não atualizou.

    — Não.

    A honestidade simples da resposta pegou Eiden levemente desprevenido. Havia esperado alguma versão de justificativa — não mentira, Daeron não parecia do tipo, mas alguma camada de contexto que tornasse a decisão mais palatável. O que havia era apenas confirmação.

    — Por quê?

    Daeron ficou quieto por um momento.

    — Porque precisava ver. — Ele disse.

    — Ver o quê?

    — Se o que aconteceu na arena era anomalia ou padrão. — Uma pausa. — Uma Díade Primordial não controlada em ambiente de treino pode ser muitas coisas. Pode ser instinto de sobrevivência. Pode ser descarga aleatória que funcionou por acidente. — Ele olhou para Eiden pela primeira vez desde que havia sentado. — Precisava de campo real para saber a diferença.

    — Você usou a missão como teste.

    — Usei a missão como contexto. — Daeron disse. — Há diferença.

    — O trio poderia ter se machucado.

    — Sim.

    Eiden olhou para ele.

    — Isso não te incomoda?

    Daeron considerou a pergunta com a seriedade que ela merecia — não defensivamente, não com o desconforto de alguém sendo confrontado, mas com a atenção de alguém avaliando se a resposta honesta era também a resposta útil.

    — Incomoda. — Ele disse. — Não o suficiente para ter tomado decisão diferente. — Uma pausa. — Isso é uma distinção importante.

    III.

    O vento passou pela árvore acima deles, fazendo as folhas moverem com o som específico de madrugada — mais seco do que de dia, mais claro. Mu se remexeu no muro sem acordar e se instalou em posição diferente com a precisão de alguém ajustando travesseiro.

    — O que você viu? — Eiden perguntou. — No corredor. O que confirmou?

    Daeron ficou quieto por tempo suficiente para que Eiden entendesse que a resposta ia ser menor do que a pergunta merecia. Não por esquiva — por escolha deliberada sobre quanto entregar agora.

    — Que a Díade responde a necessidade real de uma forma que não responde a intenção controlada. — Ele disse. — Que quando você para de tentar segurar, a energia encontra direção própria. — Uma pausa. — Que essa direção não é aleatória.

    — O que isso significa?

    — Ainda estou calculando.

    Eiden olhou para as próprias mãos. No escuro do pátio elas pareciam normais — a mesma forma de sempre, sem nada visível que indicasse o que havia saído delas no corredor de Shinjuku. Mas havia aquela consciência nova ainda, a percepção da distância entre os dois lados, e ela era mais clara agora do que havia sido antes da missão.

    Como se o corredor tivesse calibrado algo.

    — Daeron.

    — Hm.

    — O que é a Díade Primordial? — Ele fez uma pausa. — De verdade. Não a versão do carro.

    A versão do carro havia sido: criação e destruição simultâneas, poder sem precedente catalogado, incomum de formas que ainda não consigo mapear. Todas verdades. Nenhuma delas resposta.

    Daeron olhou para ele por um momento.

    — Você quer resposta longa ou resposta verdadeira?

    — As duas não são a mesma coisa?

    — Raramente. — Ele ficou quieto por um segundo. — A resposta longa é técnica. Yin e Yang coexistindo em proporção que os registros do Santuário não descrevem em nenhum harmonista vivo. Duas dualidades num único campo de energia. A teoria mais aceita é que deveria ser instável demais para funcionar — que os dois lados se cancelariam antes de qualquer aplicação prática.

    — Mas não se cancelam.

    — Claramente não. — Uma pausa. — A resposta verdadeira é mais simples e mais difícil ao mesmo tempo. — Ele olhou para a árvore de novo. — A Díade Primordial não é um poder. É uma natureza. É o que você é, não o que você faz. E coisas que são natureza não funcionam com treinamento convencional — não com repetição, não com técnica, não com controle progressivo. Funcionam com compreensão.

    — Compreensão do quê?

    — Do que os dois lados representam. Por que existem juntos. O que acontece no espaço entre eles. — Uma pausa. — Isso não é algo que eu posso ensinar diretamente. É algo que você vai encontrar por eliminação de tudo que não funciona.

    Eiden ficou olhando para ele.

    — Então você não sabe como me ensinar.

    — Sei alguns caminhos que provavelmente não funcionam. — Daeron disse, com a honestidade seca que Eiden havia aprendido a reconhecer como a forma dele ser cuidadoso. — Isso é mais do que a maioria.

    IV.

    — Por que você me trouxe?

    A pergunta havia estado ali desde a viela em Nakano. Eiden havia feito versões dela na cabeça várias vezes — por que você parou, por que você se importou, por que um IN-Mestre estava num beco em Nakano às onze da noite — mas esta era a versão real, a que estava abaixo das outras.

    Daeron ficou quieto.

    Não o silêncio de quem está formulando resposta. O silêncio de quem já tem a resposta e está decidindo quanto dela entregar.

    — Porque você estava vazando energia suficiente para atrair algo muito pior do que um Tipo-3. — Ele disse. — E porque harmonista com Díade Primordial sem orientação é risco que o Santuário não pode ignorar.

    — Isso é a versão administrativa.

    — É.

    — Qual é a outra versão?

    Daeron olhou para ele. Por um segundo — menos de um segundo — havia algo na expressão dele que não era o cálculo usual, não a avaliação constante. Algo mais parecido com reconhecimento.

    — Você estava de joelhos num beco na chuva com o peso de algo que não tinha nome ainda. — Ele disse. — E eu passei tempo suficiente nessa posição para reconhecer quando alguém precisa que alguém diga eu sei e queira dizer de verdade.

    O pátio ficou quieto.

    Eiden não soube o que fazer com isso por um momento. Era mais honesto do que havia esperado — não a honestidade técnica das respostas anteriores, mas o tipo diferente que vem de lugar diferente e pousa de forma diferente.

    — Você passou tempo nessa posição. — Eiden disse, devagar.

    — Todos passam. — Daeron disse. — A diferença é ter ou não ter alguém que chegue antes de ser tarde.

    A frase tinha eco. Eiden não conseguiu identificar imediatamente de onde vinha o eco — só sabia que havia, que a frase apontava para alguma coisa que estava além dela.

    — E o trio? — Ele perguntou. — Você escolheu eles por causa de mim?

    — Escolhi você para eles. — Daeron disse. — São coisas diferentes. — Uma pausa. — Os três já eram o que são antes de você aparecer. O que fiz foi colocar a variável certa no campo certo e deixar a física trabalhar.

    — A variável.

    — Você. — Sem ironia, sem desculpa. — É o que você é neste momento. Uma variável sem precedente num sistema que precisa aprender a absorver o que você representa. — Ele olhou para Eiden com a expressão calculada de sempre, mas com algo abaixo dela que era diferente do cálculo. — Isso vai mudar. Quando mudar, a palavra vai mudar também.

    Eiden ficou quieto por um momento.

    — Quando.

    — Quando.

    V.

    O silêncio que veio depois era diferente do anterior. Mais assentado. Com a qualidade de algo que havia encontrado peso próprio e estava descansando nele.

    Mu acordou no muro, abriu um olho, avaliou o pátio, e fechou de novo com a decisão clara de que nada havia mudado o suficiente para justificar atenção sustentada.

    — Daeron. — Eiden disse, depois de um tempo.

    — Hm.

    — O Tipo-1 em Shinjuku. — Uma pausa. — Estava rastreando a mim?

    O silêncio que Daeron deu desta vez era diferente dos anteriores. Mais curto. Com a qualidade de alguém que havia esperado a pergunta e havia decidido com antecedência quanto entregar.

    — Não tenho confirmação. — Ele disse.

    — Mas você tem hipótese.

    — Tenho hipótese.

    — Que você não vai compartilhar ainda.

    — Que eu não tenho informação suficiente para compartilhar de forma útil. — Uma distinção. — Quando tiver, vou.

    Eiden considerou isso. Havia aprendido, nos últimos dias, a diferença entre Daeron esquivando e Daeron sendo deliberado sobre ritmo. Esta era a segunda. Não o deixava mais confortável necessariamente — mas era diferente, e a diferença importava.

    — Mais uma pergunta.

    — Você tem mais de uma.

    — Só vou fazer uma por ora.

    Algo passou pelo rosto de Daeron — rápido, mas presente. A expressão específica de reconhecer algo sem comentar.

    — Então faz.

    — O que acontece se eu não conseguir aprender a usar isso? — Eiden disse. — Se o equilíbrio dinâmico que você descreveu for algo que eu simplesmente não consigo alcançar. O que acontece com a Díade se eu não consigo controlá-la.

    A pergunta havia estado ali desde a arena. Desde Shinjuku. Desde a viela em Nakano, na verdade — só havia levado tempo para encontrar a forma certa.

    Daeron ficou olhando para ele por um momento.

    — A Díade não desaparece se você não aprende a usá-la. — Ele disse. — É natureza, não habilidade. Não some por falta de treino. — Uma pausa. — O que muda é se você carrega isso com compreensão ou sem ela.

    — E sem ela?

    — Sem ela você continua fazendo o que fez em Nakano. — Ele disse. — Vazando. Atraindo. Reagindo em vez de agir. — Uma pausa mais longa. — E em algum momento a coisa que você atrai vai ser grande o suficiente para que reagir não seja opção.

    O pátio ficou quieto.

    — Isso é motivação ou aviso?

    — As duas coisas. — Daeron disse. — Não são mutuamente exclusivas.

    Eiden olhou para a árvore acima deles — as raízes que levantavam a pedra ao redor, a forma que a árvore havia crescido sem pedir permissão ao chão que a continha, deixando as marcas do próprio crescimento na superfície.

    — Certo. — Ele disse.

    Não era resolução. Não era conforto. Era apenas o som de alguém recebendo informação e decidindo carregar em vez de largar.

    Daeron ouviu a diferença.

    VI.

    Eiden voltou para o quarto quando o céu estava começando a mudar de preto para o azul escuro que vinha antes do cinza que vinha antes do branco. Não dormiu de volta imediatamente — ficou deitado por um tempo com os olhos abertos, ouvindo o Santuário acordar gradualmente ao redor.

    Pensou na frase de Daeron: compreensão do que os dois lados representam. Por que existem juntos. O que acontece no espaço entre eles.

    O espaço entre eles.

    Havia algo nessa frase que ressoava de uma forma que ele não conseguia articular completamente ainda. Não os lados — o espaço. Como se a resposta não estivesse em nenhum dos dois mas no intervalo, no momento de transição, na fronteira que não pertencia a nenhum dos dois completamente.

    Não fazia sentido ainda.

    Mas havia a qualidade de coisa que ia fazer sentido mais tarde.

    Ele fechou os olhos.

    Desta vez dormiu.

    No pátio, Daeron ficou mais um tempo no banco depois que Eiden foi embora.

    A árvore projetava sombra no chão de pedra de uma forma que mudava conforme o céu ia clareando — gradualmente, sem nenhum momento em que você pudesse apontar e dizer aqui, foi aqui que a luz mudou.

    Ele tinha três perguntas que ainda não tinha respondido para si mesmo.

    A primeira: o Tipo-1 em Shinjuku havia chegado quarenta minutos antes. Tipo-1 não migrava sem motivo. Tipo-1 em bairro onde Eiden havia estado dois dias antes não era coincidência, mas também não era confirmação.

    A segunda: o que havia saído de Eiden no corredor havia deixado marca no concreto. O mesmo tipo de marca da arena, mas maior. Se havia padrão, o padrão estava escalando.

    A terceira era mais difícil de formular, porque não era sobre o poder.

    Era sobre a pergunta que Eiden havia feito — o que acontece se eu não conseguir — e sobre o fato de que Eiden havia feito essa pergunta de forma limpa, sem medo excessivo, sem negação. Com a qualidade de alguém que havia decidido que saber era melhor do que não saber mesmo quando saber era difícil.

    Daeron havia visto muitos recém-chegados ao Santuário ao longo dos anos. Havia visto todos os tipos de reação ao momento em que o mundo se abre e mostra que é maior e mais perigoso do que parecia.

    Havia visto poucos que faziam a pergunta certa na primeira semana.

    Mu abriu os dois olhos no muro, olhou para Daeron com a avaliação característica, e desta vez não desviou o olhar primeiro.

    Daeron o olhou de volta.

    — Eu sei. — Ele disse.

    Mu fechou os olhos de volta.

    O céu continuou clareando.

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