Índice de Capítulo

    Narrador: Azazel

    A foice desceu.

    O chão se partia sob seus pés.

    As árvores próximas explodiam em farpas ao menor impacto de suas auras colidindo. O ar ao redor da clareira já não era ar, era algo tão denso, fervente, tremendo como se o próprio mundo temesse o que estava acontecendo.

    Althaia avançou primeiro, como uma rajada carmesim.

    Os olhos dela, antes vivos e curiosos, agora ardiam como carvões recém-acendidos. O machado girava em suas mãos como a graça de uma bailarina e a força de uma avalanche.

    Azazel desviou o primeiro golpe com um leve giro do corpo, era quase elegante, e soltou uma risada que rasgou o silêncio.

    Me desafiem, mortais! Eu! Estou! Aqui! — bradou, como quem se diverte demais para levar a luta a sério.

    Althaia não respondeu.

    Com um rugido que parecia sair de um animal primitivo, ela golpeou o solo.
    A onda de impacto se espalhou num raio de trinta metros, arrancando a grama, tombando árvores e rasgando o ar.

    Chamas vermelhas surgiram do chão, serpentes de fogo que não queimavam madeira ou pedra, mas sim a aura de Azazel.

    As serpentes avançaram sobre Azazel. Porém ele sequer se dignou a desviar.
    As mandíbulas incandescentes cravaram-se em seu corpo, sugando sua aura como criaturas famintas. Mas a energia dentro dele era densa demais, colossal demais, e, incapazes de contê-la, as serpentes explodiram em chamas vermelhas.
    Ainda assim, o impacto deixou marcas: a borda da máscara de Azazel trincou.

    Azazel parou.

    Encostou dois dedos na trinca, como quem analisa uma obra de arte imperfeita e a fenda se fechou devagar, regenerando-se com uma calma insultuosa.

    Você está entregando tudo o que tem, garota… e mesmo assim… OLHE PARA MIM. — Ergueu os braços com teatralidade, como um profeta.

    Althaia desapareceu em meio as chamas.

    E logo em seguida reapareceu atrás dele em um lampejo flamejante.  

    O machado veio de cima com força devastadora, mas Azazel ergueu o cabo ósseo da foice e bloqueou o impacto.

    Um tremor se espalhou por quilômetros. O solo rendeu-se sob seus pés, afundando numa cratera recém-formada.

    Os poucos animais que ainda restavam nas proximidades debandaram em pânico e o rio próximo revolveu-se como se algo estivesse tentando emergir das profundezas.

    Althaia atacou outra vez — esquerda, direita, giro, avanço — golpes suficientes para partir uma montanha ao meio.

    Azazel defendia todos com uma tranquilidade que beirava o insulto. As pernas dele deslizavam pelo solo como fumaça, como se o corpo flutuasse.

    Fui aprisionado por muito tempo… — murmurou entre uma defesa e outra.
    E agora, a moeda de troca pela minha prisão… será o sofrimento eterno.

    O golpe lateral de Althaia quase lhe arrancou a cabeça, mas Azazel se dobrou para trás com uma flexibilidade impossível, como se seu corpo não tivesse ossos.
    E, antes que ela pudesse recuar ou tentar outro ataque, ele avançou num único movimento, aproximando seu rosto do dela.
    Tão perto que ela sentiu o calor do próprio sangue vibrar.

    Althaia ergueu o olhar por entre as fendas rubras da máscara… e congelou.
    O que quer que existisse por trás daquela máscara a encarava.

    Não eram olhos.
    Era um abismo vivo.

    E, num único segundo, ela sentiu tudo: a raiva sufocada, a angústia acumulada, o sofrimento antigo, o desgosto profundo que ele nutria pelo mundo inteiro.
    O impacto emocional quase a derrubou. Seus músculos tremeram involuntariamente, como se sua alma tivesse sido exposta ao ar frio.

    A máscara permaneceu a centímetros do rosto dela.
    O ar entre ambos se curvou, denso, vibrante.

    Então Azazel sussurrou, numa voz que parecia sair do fundo de um poço:

    A carnificina que tanto almejo…

    A frase caiu sobre Althaia como uma sentença.

    E foi ali que algo nela mudou.

    O medo se torceu em ódio, o ódio se tornou em chamas, e as chamas se tornaram em poder bruto.

    Veios de luz vermelha rasgaram a pele por dentro, como se seu corpo estivesse sendo incendiado de dentro para fora.

    Num único instante, Althaia explodiu.

    Chamas carmesins se ergueram ao redor dela, contorcendo-se como espíritos famintos.

    Sua aura flamejante atingiu o céu como a fúria de um vulcão.

    O calor era tão brutal que o chão ao redor dela derreteu, e a pressão do impacto empurrou Azazel um passo para trás, o primeiro recuo dele desde o início da batalha.

    Os olhos de Althaia ardiam, literalmente, como brasas vivas.
    Seus músculos se expandiram, pulsando como se algo vivo tentasse despertar sob sua pele.

    O machado em suas mãos ficou mais pesado, mais denso, como se atraísse para si toda violência do mundo.

    Ela rugiu, não como humana, mas como algo primordial.

    E então avançou.

    O golpe atingiu o peito de Azazel.

    A foice caiu.

    Um baque surdo ecoou.

    O silêncio durou um segundo.

    Então Azazel riu. Um som baixo, quebrado, grotesco.

    Seus gritos… serão meu banquete.

    Althaia continuou forçando o machado contra o peito de Azazel, enterrando a lâmina até sentir o cabo tremer nas mãos. Azazel, por sua vez, segurava a parte exposta da lâmina, a única que não estava cravada no próprio corpo, com uma calma quase insultuosa. O metal começou a estalar, como se estivesse prestes a se desfazer em mil fragmentos.

    Ela percebeu as fissuras se espalhando pela arma.
    Mas recuar significaria perder a única chance verdadeira que tivera até então de matar aquele monstro.

    Althaia já empunhava o machado com as duas mãos quando soltou um grito rouco, enraivecido, e pressionou a lâmina com toda a força que restava. Num instante, algo rasgou a pele abaixo de seu próprio braço. Chamas e sangue jorraram, e dali surgiram dois novos braços, que avançaram para agarrar o cabo do machado e empurrá-lo ainda mais contra Azazel.

    Ele riu.
    Riu como alguém que finalmente recebia o momento que sempre desejara.

    O machado voltou a trincar, desta vez mais profundo, como se estivesse prestes a se partir de vez.

    Azazel estendeu a mão livre em direção à foice caída no chão. A arma tremeu e voou até ele, como se um ímã invisível a puxasse. No mesmo instante, Azazel ergueu o braço e cravou a foice no ombro de Althaia. A lâmina penetrou fundo, rasgando tudo por dentro até alcançar sua barriga.

    Althaia não gritou.
    Não porque fosse forte, mas porque o corpo inteiro já ardia como se estivesse sendo carbonizado de dentro para fora. A dor era tão absoluta que a lâmina enfiada em sua carne parecia apenas mais um detalhe em meio ao inferno que a consumia. Ainda assim, sangue espirrou de sua boca quando sentiu algo vital se romper. A foice acabara de destruir um de seus corações.

    As forças fugiram de seus músculos; a visão começou a se desfazer em borrões oscilantes, como se a consciência estivesse se soltando dela. Mas havia algo dentro de Althaia que se recusava a cair. Algo que não aceitava morrer ali, ajoelhada diante daquele demônio.

    No limite do próprio corpo, ela reuniu o que restava de sua aura.

    O chão se rompeu ao redor deles.
    Mais serpentes flamejantes emergiram, contorcendo-se em chamas vivas, e avançaram contra Azazel, que seguia preso pela lâmina cravada em seu peito.

    Althaia soltou um grito desesperado, visceral, arrancado do fundo de sua alma:

    — Labrys!

    O solo ao seu lado se abriu e um enorme machado dourado, envolto em chamas incandescentes, surgiu como se estivesse nascendo da própria terra. Um de seus braços recém-formados agarrou o cabo com ferocidade, e, num único golpe, ela o cravou no ombro de Azazel, tão fundo que quase arrancou o braço dele.

    Althaia tentou puxar o machado de volta, mas a lâmina não se movia. Era como se o próprio corpo de Azazel a tivesse aprisionado, a carne se regenerava e se fechava ao redor do metal como mandíbulas vivas.

    Mesmo assim, ela puxou.
    Puxou com o que restava do seu corpo moribundo, com cada gota da fúria que ainda queimava em seus ossos. A arma se soltou num estalo seco.

    E ela golpeou de novo.

    E de novo.

    E outra vez.

    Uma tempestade de faíscas e sangue iluminou o espaço entre eles. Cada impacto arrancava um som horrendo da carne de Azazel, um misto de ruptura e fervura, como músculos sendo triturados e costurados ao mesmo tempo.

    Azazel cambaleou um passo para trás.
    Depois outro.

    Pela primeira vez desde que surgira ali, ele parou de rir.

    O silêncio que se seguiu pareceu impossível.
    Como se o próprio ar tivesse prendido a respiração.

    Althaia permaneceu imóvel.
    O machado em sua mão pingava sangue demoníaco, gota após gota, até formar uma poça escura que se espalhava sob seus pés. Seu corpo tremia, incapaz de sustentar o próprio peso, e, ainda assim, ela permaneceu ali, encarando a criatura que deveria ser indestrutível.

    As chamas em torno de Labrys vacilaram.
    O mundo girou.
    E Althaia quase caiu de joelhos.

    Mas os olhos dela nunca desviaram dos dele.

    E ele somente a encarava.

    Calado.

    Sem sorriso.

    Sem resposta.

    Um olhar que não era vitória.
    Nem diversão.
    Nem crueldade.

    Apenas… uma pausa.

    Uma pausa que Althaia não entendia.

    Labrys pesou mais em suas mãos.
    A visão escureceu nas bordas.

    E foi então que o vento parou.

    Tudo ficou quieto demais.

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