Capítulo 51 – Torvo
Narrador: Azazel
O corpo dele estava um caos absoluto: cortado, fendido, retalhado em dezenas de ângulos impossíveis, como se tivesse sido jogado em uma fornalha de lâminas. Membros inteiros se abriam até expor ossos; pedaços da armadura viva pendiam como carne morta.
Mas nada permanecia assim por muito tempo.
A cada nova ferida, o corpo de Azazel começava a se recompor com um som grotesco: ossos deslizando como serpentes de metal, músculos se contraindo em espasmos desumanos, a armadura viva se fechando sobre si mesma como um organismo faminto. O estalo viscoso da regeneração parecia vibrar no ar, agressivo o bastante para arrancar um arrepio da espinha de Althaia.
Ainda assim, ela continuou de pé.
Quase sem vida.
Mas de pé.
E Azazel, mesmo regenerando-se, continuava calado.
Apenas observando-a.
Como se pela primeira vez, ela tivesse conseguido arrancar algo dele além de sangue.
Algo parecido com… irritação.
Azazel finalmente perdeu a paciência.
Althaia ergueu o machado Labrys para o próximo golpe, desta vez mirando direto no pescoço, pronta para arrancar-lhe a cabeça num último ato de fúria desesperada.
Mas ela nunca concluiu o movimento.
Azazel simplesmente ergueu a mão e segurou a lâmina dourada.
Como se segurasse um brinquedo.
O metal sagrado estalou.
E então quebrou.
Quebrou como vidro.
Como se jamais tivesse sido uma arma mítica.
— Patético… — zombou, a voz abafada atrás da máscara, carregada de desprezo absoluto.
Althaia arregalou os olhos, o choque atravessando seu corpo em ondas.
“Como? Como alguém poderia quebrar a Labrys? Como alguém poderia quebrar uma arma forjada para matar deuses?” — Pensou ela.
A dúvida corroeu sua mente por um instante, e foi o suficiente.
Azazel levou a outra mão até o machado que ainda estava cravado em seu peito.
Segurou a lâmina.
E despedaçou a arma com um movimento curto, seco, cruel.
O som ecoou pela floresta como um veredito.
Algo dentro de Althaia… desabou.
As serpentes flamejantes que ainda serpenteavam ao redor do corpo dele explodiram todas ao mesmo tempo, como fogos de artifício sendo esmagados.
E num piscar de olhos…
A carne de Azazel voltou a se recompor.
Cada fenda.
Cada corte.
Cada pedaço arrancado.
Tudo se reencaixou naquela forma monstruosa, impecável, absoluta.
Ele estava inteiro.
De novo.
E Althaia… não.
As pernas dela falharam.
O sangue escorreu pela lateral do corpo.
A respiração se partiu em soluços vazios.
Ela caiu de joelhos.
Caiu como alguém que acabara de ver seu destino sendo selado.
Como alguém que finalmente compreendeu que todo o seu esforço, toda sua ira, todo seu sacrifício…
…não tinham feito diferença alguma.
E, pela primeira vez desde o início da batalha, Althaia sentiu algo mais forte do que dor.
Sentiu desespero.
Azazel segurou o cabo da foice ainda cravada em Althaia e, num movimento lento e quase preguiçoso, arrancou a lâmina de dentro do corpo dela.
O metal deslizou pela carne destruída.
Althaia soltou um único som, um grunhido curto, rouco, sufocado, mais reflexo do que dor.
Ela não teve tempo de entender o que estava acontecendo.
Quando ergueu o olhar…
Azazel já estava ali, diante dela, com a lâmina da foice presa por trás do próprio braço.
E então, num piscar de olhos um único golpe horizontal fez os dois braços direitos de Althaia voarem.
O mundo girou.
O sangue jorrou em arcos grossos, respingando no chão escurecido.
A dor veio… e não veio.
O corpo estava tão destruído que a própria dor se tornara uma criatura distante.
Ainda tentando respirar, Althaia viu o segundo movimento.
Outro golpe.
Mais rápido que um relâmpago.
Os dois braços esquerdos dela foram arrancados como se não fossem nada.
Um borrão vermelho.
Um baque surdo no chão.
E o sangue, quente, pulsando das feridas abertas.
Azazel a encarou de cima, com a cabeça levemente inclinada, como quem observa um inseto aleijado que insiste em se mover.
Aquela expressão silenciosa.
Aquele desprezo absoluto.
Althaia sentiu o rosto arder.
Não de dor.
Mas de ódio.
Lágrimas quentes escorreram pelos cantos dos olhos, não de fraqueza, mas de indignação ardente, visceral.
Ela gritou.
Um urro quebrado, revoltado, feroz.
E avançou.
Mesmo sem braços, mesmo dilacerada, mesmo cambaleando em meio ao próprio sangue, ela partiu para cima dele como um animal encurralado.
Desferiu chutes em sequência, rápidos como marteladas.
Usou os joelhos, os ombros ensanguentados, o peso do corpo.
Cabeceou com uma fúria que beirava o desespero.
E quando Azazel tentou segurá-la…
Ela o mordeu.
Cravou os dentes na perna dele, atravessando o traje negro até a gengiva, como um cão raivoso tentando arrancar carne com a força pura do ódio.
Azazel riu.
Um riso grave, profano, vibrante de crueldade.
Quase ofendido pela ousadia dela.
O demônio inclinou o rosto para baixo, os olhos invisíveis queimando atrás da máscara, e murmurou:
— Você realmente achou… que isso significaria algo?
Ele ergueu a perna, com Althaia ainda presa pelos dentes, pendurada como um animal moribundo e simplesmente a sacudiu.
O corpo dela voou.
Sem peso.
Sem resistência.
Como um boneco de trapo arremessado por um gigante.
Ela colidiu de costas contra um paredão rochoso com um estalo úmido, uma explosão de poeira e sangue.
Caiu, rolando pela pedra áspera, e bateu no chão com força suficiente para expulsar o ar de seus pulmões.
Arquejou, tentando respirar, mas cada nova batida de seus corações parecia arrancar um pedaço de sua alma, como se o próprio impacto estivesse desfiando o que restava dela por dentro.
Azazel inclinou a cabeça, observando-a se contorcer.
— Patética. — disse calmamente, como quem anuncia um veredicto.
— É só isso? A violência que você tanto ostentava… agora não passa de um verme sem membros.
A voz dele não era alta.
Mas ecoou pela clareira como um trovão apodrecido.
Então ele virou o rosto.
Olhou para o alto do paredão.
Lá, escondido atrás de um tronco, estava Lethos.
Pálido.
Imóvel.
Tentando se encolher na própria sombra, como se pudesse desaparecer apenas desejando.
Os olhos de Azazel brilharam pelas fendas da máscara.
— E você? — grunhiu, a voz reverberando como o som de metal sendo esmagado.
Lethos congelou.
Por um único segundo, um segundo frágil e miserável ele acreditou que talvez pudesse enfrentar aquilo.
Mas então o instinto falou mais alto.
Os olhos se arregalaram.
E ele correu.
Virou-se e mergulhou na floresta, movendo-se com uma velocidade tão desesperada que parecia rasgar o próprio vento.
Azazel riu baixo.
E então rugiu:
— COVARDE!
A floresta tremeu.
As árvores balançaram, folhas despencaram, e até os animais mais distantes fugiram em silêncio absoluto, como se a própria natureza tentasse esconder-se daquele chamado.

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