Capítulo 56 – Ofensa à Criação de Deus
Narrador: Azazel
A parte superior de Azazel começou a rir.
Um riso seco, quebrado, impossível para um corpo partido ao meio.
Eleonor avançou sem hesitar. Pisou com força no peito do demônio e ergueu a espada para o golpe final.
Azazel estendeu a mão.
Por um instante, ela pensou que fosse instinto. Uma tentativa inútil de deter a lâmina. Ou talvez um pedido silencioso por misericórdia.
Então ele murmurou:
— Ἀπορρόφησις.
A palavra caiu como um comando.
A aura ao redor foi arrancada do mundo.
Não apenas do ar, mas do chão sob seus pés, A energia escorreu da terra como água puxada por um ralo profundo, fazendo o solo rachar em linhas finas e as folhas perderem o viço num único suspiro coletivo.
O dreno não escolheu alvos.
A aura foi sugada dos inimigos de pé… e dos corpos caídos.
Althaia e Lyria estremeceram no chão, mesmo inconscientes. Um fio opaco de energia escapou de seus corpos feridos, arrastado à força em direção a mão de Azazel, como se até a morte estivesse sendo saqueada.
O ar ficou rarefeito. Pesado. O mundo pareceu menor.
Yamamoto sentiu o impacto de imediato.
A energia que usava para fechar as feridas de Althaia começou a falhar, dissolvendo-se antes de obedecer. A carne, que momentos antes se reconstruía sob sua mão, passou a resistir, como se algo a estivesse puxando de volta para o estado de ruína. Cada tentativa de cura lhe custava o dobro, ou, até mesmo o triplo.
Azazel não absorvia apenas poder.
Ele roubava a vida.
Roubava o futuro.
Ao drenar a aura de tudo ao redor, Azazel não estava apenas matando seres vivos, mas ensinando ao mundo o que acontece com os alvos de sua fúria.
E, no centro daquele vórtice silencioso, ele sorria.
No mesmo instante, raízes negras explodiram da cintura e do abdômen decepados, serpenteando pelo chão com um farfalhar seco, faminto, buscando umas às outras como membros que se recusavam a aceitar a separação.
Mesmo sentindo sua própria aura ser drenada, Eleonor desceu a espada.
Uma vez.
O impacto afundou no peito de Azazel, e sangue jorrou em um arco espesso, quente, respingando no chão e na armadura dela como se um pecado antigo estivesse sendo cuspido para fora do corpo do demônio.
Duas vezes.
O som foi úmido e profundo. A lâmina atravessou carne e ossos, e mais daquele sangue explodiu, manchando o solo, infiltrando-se na terra.
Dez vezes.
Cada golpe cravava-se mais fundo. Cada impacto arrancava mais daquele líquido espesso que escorria em rios curtos e sujos, tingindo o chão como uma ofensa direta à própria criação de Deus.
O corpo de Azazel se retorcia, se abria e se desfazia, mas nunca cedia.
Nada parecia funcionar.
As raízes se encontraram.
Lentamente, começaram a puxar a parte inferior do corpo em direção à superior, como se o próprio chão colaborasse com a reunião. Eleonor tentou cortar os tentáculos negros, mas eles se enterravam na terra e se recomponham. A cada raiz decepada, outras brotavam do mesmo ponto, mais rápidas, mais agressivas, acelerando ainda mais a regeneração.
Ela olhou para Hendrick.
Foi o suficiente.
Hendrick ativou o modo berserker outra vez e agarrou a parte inferior do corpo de Azazel, cravando os pés no chão, os músculos inchando sob a pele rasgada. Usou toda a força que possuía.
Ainda assim, não conseguiu sequer desacelerar o avanço.
Azazel gargalhou.
Em sua mão, um fragmento de raiz negra se moldava, endurecendo, ondulando até assumir a forma de uma lâmina irregular, viva, pulsante. Eleonor não percebeu. Continuava atacando, insistindo, recusando-se a aceitar o inevitável.
“A aura dele só cresce… E ele ainda nem despertou por completo. Além disso, o que é isso que estou sentindo?” — O peso desta constatação afundou-se em sua mente. Pela primeira vez, Eleonor sentiu algo estranho, quase esquecido. Um aperto frio no peito.
“Medo?”
A palavra surgiu em sua mente como um erro. Um conceito que não deveria existir ali.
“O que diabos é essa coisa…? Isso é imortal…?”
— ELEONOR!!
O grito rasgou o ar como um estalo. Ela piscou, e o mundo antes distante, agora estava voltando de repente ao lugar, os sons, o sangue, o cheiro de terra e ferro colidindo de uma vez só. O chamado do Santo a arrancou à força daquele abismo de pensamentos, contudo, era tarde demais para evitar o que vinha a seguir.
Azazel atacou.
A lâmina negra atravessou seu peito com um impacto seco, profundo demais para ser apenas um golpe. Não houve resistência. O metal afundou na carne como se tivesse sido aceito, engolido pelo corpo por um instante.
“Como…? Como isso é possível?”
Eleonor encarou a raiz transfigurada em faca cravada em seu peito, incapaz de confiar nos próprios olhos.
Hendrick, o Santo e até Yamamoto ficaram imóveis, os olhos arregalados, presos à dúvida de estarem testemunhando algo real.
Então a lâmina reagiu.
Dentro dela, algo se moveu.
Não como um corte, mas como um desdobramento. A lâmina cresceu por dentro, ramificando-se em direções antinaturais, como raízes procurando espaço. Espinhos turvos se abriram a partir do núcleo, rasgando carne, perfurando órgãos, pressionando ossos que estalaram sob a força.
O corpo de Eleonor arqueou num reflexo tardio.
Um a um, os espinhos romperam a pele de dentro para fora, no abdômen, nas costelas e nas costas, como se algo tentasse escapar violentamente de dentro dela. O sangue não jorrou de imediato. Primeiro veio o silêncio sufocado. O olhar perdido. A compreensão lenta demais do que estava acontecendo.
Quando ela caiu, o corpo já não parecia inteiro.
Parecia… ocupado.

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