Índice de Capítulo

    Narrador: Azazel

    A parte superior de Azazel começou a rir.
    Um riso seco, quebrado, impossível para um corpo partido ao meio.

    Eleonor avançou sem hesitar. Pisou com força no peito do demônio e ergueu a espada para o golpe final.

    Azazel estendeu a mão.

    Por um instante, ela pensou que fosse instinto. Uma tentativa inútil de deter a lâmina. Ou talvez um pedido silencioso por misericórdia.

    Então ele murmurou:

    Ἀπορρόφησις.

    A palavra caiu como um comando.

    A aura ao redor foi arrancada do mundo.

    Não apenas do ar, mas do chão sob seus pés, A energia escorreu da terra como água puxada por um ralo profundo, fazendo o solo rachar em linhas finas e as folhas perderem o viço num único suspiro coletivo.

    O dreno não escolheu alvos.

    A aura foi sugada dos inimigos de pé… e dos corpos caídos.

    Althaia e Lyria estremeceram no chão, mesmo inconscientes. Um fio opaco de energia escapou de seus corpos feridos, arrastado à força em direção a mão de Azazel, como se até a morte estivesse sendo saqueada.

    O ar ficou rarefeito. Pesado. O mundo pareceu menor.

    Yamamoto sentiu o impacto de imediato.

    A energia que usava para fechar as feridas de Althaia começou a falhar, dissolvendo-se antes de obedecer. A carne, que momentos antes se reconstruía sob sua mão, passou a resistir, como se algo a estivesse puxando de volta para o estado de ruína. Cada tentativa de cura lhe custava o dobro, ou, até mesmo o triplo.

    Azazel não absorvia apenas poder.

    Ele roubava a vida.
    Roubava o futuro.

    Ao drenar a aura de tudo ao redor, Azazel não estava apenas matando seres vivos, mas ensinando ao mundo o que acontece com os alvos de sua fúria.

    E, no centro daquele vórtice silencioso, ele sorria.

    No mesmo instante, raízes negras explodiram da cintura e do abdômen decepados, serpenteando pelo chão com um farfalhar seco, faminto, buscando umas às outras como membros que se recusavam a aceitar a separação.

    Mesmo sentindo sua própria aura ser drenada, Eleonor desceu a espada.

    Uma vez.

    O impacto afundou no peito de Azazel, e sangue jorrou em um arco espesso, quente, respingando no chão e na armadura dela como se um pecado antigo estivesse sendo cuspido para fora do corpo do demônio.

    Duas vezes.

    O som foi úmido e profundo. A lâmina atravessou carne e ossos, e mais daquele sangue explodiu, manchando o solo, infiltrando-se na terra.

    Dez vezes.

    Cada golpe cravava-se mais fundo. Cada impacto arrancava mais daquele líquido espesso que escorria em rios curtos e sujos, tingindo o chão como uma ofensa direta à própria criação de Deus.

    O corpo de Azazel se retorcia, se abria e se desfazia, mas nunca cedia.

    Nada parecia funcionar.

    As raízes se encontraram.

    Lentamente, começaram a puxar a parte inferior do corpo em direção à superior, como se o próprio chão colaborasse com a reunião. Eleonor tentou cortar os tentáculos negros, mas eles se enterravam na terra e se recomponham. A cada raiz decepada, outras brotavam do mesmo ponto, mais rápidas, mais agressivas, acelerando ainda mais a regeneração.

    Ela olhou para Hendrick.

    Foi o suficiente.

    Hendrick ativou o modo berserker outra vez e agarrou a parte inferior do corpo de Azazel, cravando os pés no chão, os músculos inchando sob a pele rasgada. Usou toda a força que possuía.

    Ainda assim, não conseguiu sequer desacelerar o avanço.

    Azazel gargalhou.

    Em sua mão, um fragmento de raiz negra se moldava, endurecendo, ondulando até assumir a forma de uma lâmina irregular, viva, pulsante. Eleonor não percebeu. Continuava atacando, insistindo, recusando-se a aceitar o inevitável.

    “A aura dele só cresce… E ele ainda nem despertou por completo. Além disso, o que é isso que estou sentindo?” — O peso desta constatação afundou-se em sua mente. Pela primeira vez, Eleonor sentiu algo estranho, quase esquecido. Um aperto frio no peito.

    “Medo?”

    A palavra surgiu em sua mente como um erro. Um conceito que não deveria existir ali.

    “O que diabos é essa coisa…? Isso é imortal…?”

    ELEONOR!!

    O grito rasgou o ar como um estalo. Ela piscou, e o mundo antes distante, agora estava voltando de repente ao lugar, os sons, o sangue, o cheiro de terra e ferro colidindo de uma vez só. O chamado do Santo a arrancou à força daquele abismo de pensamentos, contudo, era tarde demais para evitar o que vinha a seguir.

    Azazel atacou.

    A lâmina negra atravessou seu peito com um impacto seco, profundo demais para ser apenas um golpe. Não houve resistência. O metal afundou na carne como se tivesse sido aceito, engolido pelo corpo por um instante.

    “Como…? Como isso é possível?”

    Eleonor encarou a raiz transfigurada em faca cravada em seu peito, incapaz de confiar nos próprios olhos.

    Hendrick, o Santo e até Yamamoto ficaram imóveis, os olhos arregalados, presos à dúvida de estarem testemunhando algo real.

    Então a lâmina reagiu.

    Dentro dela, algo se moveu.

    Não como um corte, mas como um desdobramento. A lâmina cresceu por dentro, ramificando-se em direções antinaturais, como raízes procurando espaço. Espinhos turvos se abriram a partir do núcleo, rasgando carne, perfurando órgãos, pressionando ossos que estalaram sob a força.

    O corpo de Eleonor arqueou num reflexo tardio.

    Um a um, os espinhos romperam a pele de dentro para fora, no abdômen, nas costelas e nas costas, como se algo tentasse escapar violentamente de dentro dela. O sangue não jorrou de imediato. Primeiro veio o silêncio sufocado. O olhar perdido. A compreensão lenta demais do que estava acontecendo.

    Quando ela caiu, o corpo já não parecia inteiro.

    Parecia… ocupado.

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