Índice de Capítulo

    Narrador: Azazel

    Hendrick encarou Eleonor caída no chão.

    O corpo dilacerado, atravessado por espinhos, imóvel demais para alguém como ela. Por um breve instante, duvidou da própria visão. Aquela cena simplesmente não fazia sentido.

    E, sem perceber, algo dentro dele cedeu.

    O modo berserker se desfez como uma chama sufocada. A força que mantinha seus músculos em tensão absoluta escoou num único suspiro. Seus dedos afrouxaram.

    A parte inferior do corpo de Azazel escapou de seu alcance.

    As raízes negras não desperdiçaram o instante. Avançaram como serpentes famintas, enroscando-se na carne decepada e puxando-a com violência até que, num estalo grotesco, as duas metades do demônio se uniram novamente.

    Inteiro. Outra vez.

    “Não adianta destruir o corpo dele…”, pensou Hendrick, o olhar vazio. “Ele sempre volta.”

    O pensamento mal se completou quando o mundo explodiu.

    O impacto atingiu seu rosto.

    Não houve aviso.
    Nem som.
    Nem tempo para reagir.

    O soco veio rápido demais, forte demais. Hendrick não chegou a compreender o que acontecera antes de sentir o próprio corpo ser lançado para trás. Ele atravessou metros de floresta, quebrando galhos, rasgando o solo, até cair pesadamente entre troncos partidos.

    Uma risada ecoou.

    Curta. Cruel.

    O Santo observava, claramente entretido com a cena de Hendrick rolando no chão, tentando recuperar o fôlego.

    Sem perder mais tempo com rivalidades triviais, o Santo se aproximou de Eleonor. Ajoelhou-se ao lado dela, passou um braço sob suas costas e a tomou nos braços com cuidado. Afastou-se de Azazel com passos firmes e levou-a até Yamamoto.

    O braço em chamas de Eleonor se apagava aos poucos.

    O fogo morreu como uma fogueira sem oxigênio.

    A aura dela estava se esgotando.

    E, sem aura, a morte deixava de ser possibilidade. Tornava-se certeza.

    — Cuide dela, por favor — disse o Santo, baixo, mas firme, dirigindo-se a Yamamoto.

    Yamamoto hesitou apenas um segundo. Engoliu em seco, deixou Althaia, quase completamente curada, e se aproximou de Eleonor. Bastou um único toque.

    Seu rosto envelheceu de forma abrupta. Rugas profundas marcaram a pele, os ombros perderam vigor, e a respiração falhou.

    — Chega… velho… — murmurou Eleonor com dificuldade, cuspindo sangue. — Desse jeito… você também…

    Yamamoto recuou, ofegante, mal conseguindo se manter de pé. Acabou se sentando no chão, exausto, o olhar pesado cravado nela.

    Eleonor cerrou a mandíbula.

    Com a mão trêmula, agarrou um dos espinhos que haviam atravessado seu corpo de dentro para fora.

    — Ἔσχατον… Ἅγγιγμα — sussurrou.

    Os espinhos começaram a murchar, como raízes privadas de solo.

    Em seguida, pronunciou outra palavra.

    A voz vacilou, consciente do preço que o corpo teria de pagar.

    — …Ανοξία.

    As chamas queimaram carne, sangue e aura ao mesmo tempo. Eleonor gritou. Um grito cru, dilacerado. Mas não parou. Não cedeu. Não recuou, mesmo enquanto o próprio corpo ardia, até que cada um daqueles parasitas fosse reduzido a cinzas.

    Yamamoto observava em silêncio.

    Não havia choque em seu olhar. Havia algo pior: dúvida.

    “Que tipo de demônio exigia aquilo? Que tipo de criatura forçava Eleonor a queimar a si mesma para continuar viva?”

    Enquanto isso, o Santo já avançava, decidido a enfrentar Azazel.

    Antes que desse o próximo passo, algo caiu do alto.

    Um corpo despencou do paredão e se chocou contra o chão ao lado dele com um baque seco.

    Lethos.

    Logo atrás, a Gula surgiu, ajoelhando-se imediatamente, a cabeça baixa, submissa.

    — Aqui está ele… meu senhor — disse a criatura, a voz arrastada pela fome eterna.

    O Santo não respondeu. Apenas agarrou Lethos pelo pescoço e o ergueu do chão como se não pesasse nada.

    — O que é aquela coisa? — perguntou, a voz carregada de irritação.

    Lethos se debatia, os pés chutando o vazio.

    — U-uma… humana… — conseguiu responder.

    A pressão aumentou.

    — Está tentando me irritar, Lethos? — rosnou o Santo. — Desde quando humanos possuem esse tipo de poder?

    — O nome… dela é… Li Wang.

    No instante em que o nome foi pronunciado, o Santo soltou Lethos.

    Ele caiu de joelhos, tossindo, engasgando, lutando para respirar. A máscara branca escondia o rosto do Santo, mas algo em sua postura mudou. O corpo enrijeceu. O silêncio se adensou.

    Azazel, por sua vez, não demonstrou qualquer interesse naquela conversa.

    Ele se moveu.

    Caminhou até Lyria, caída no chão, indefesa, distante dos outros. Sem hesitar, abriu o peito dela com brutalidade precisa, arrancando dois de seus seis corações ainda pulsantes.

    O corpo de Lyria estremeceu violentamente.

    Desta vez, Azazel não demorou.

    Devorou os corações em poucos segundos e, em seguida, arremessou o corpo para longe como lixo descartável.

    — Que aura fraca … — cuspiu. — E nojenta.

    O som ainda ecoava quando Yamamoto desviou o olhar de Azazel.

    Não foi o ato em si que o chamou a atenção. Aquilo já não surpreendia mais.
    Foi o silêncio.

    O Santo permanecia imóvel. A postura rígida demais. Os ombros tensos como se sustentassem um peso invisível. A máscara branca continuava voltada para a cena, mas algo nela parecia… atrasado. Como se o corpo estivesse ali, mas a mente tivesse sido puxada para outro lugar.

    Yamamoto estreitou os olhos.

    — Há algo errado? — perguntou, em tom neutro.

    Nenhuma resposta.

    O Santo não pareceu ouvir.

    O nome ainda pairava no ar.

    Li Wang.

    Yamamoto aguardou um instante a mais. Foi então que percebeu o detalhe: um tremor sutil percorreu o corpo do Santo. Não nos braços. Não nas mãos. Vinha de dentro, profundo, involuntário. Um reflexo que não pedia permissão.

    Só então o Santo se moveu.

    — Não.

    A palavra saiu com um leve atraso. Curta. Limpa. Mas deslocada, como se tivesse sido arrancada de um pensamento que não queria soltar.

    Limitou-se a observar enquanto o Santo cerrava os punhos por um segundo além do necessário. O ar ao redor dele parecia mais pesado, como se algo tivesse saído do lugar e não encontrasse caminho de volta.

    Yamamoto não sabia quem era Li Wang.
    Mas sabia reconhecer quando um nome deixava de ser som… e se tornava ferida.

    O Santo respirou fundo. Uma vez. Duas. Fechou a mão lentamente, obrigando o corpo à quietude, e quando voltou a se mover, já era o mesmo de antes. Ou algo muito próximo disso.

    — Concentre-se… Ainda não acabou. — Sussurrou.

    Não foi dito para ninguém.
    Não foi dito para o campo de batalha.

    Foi dito para si mesmo.

    Como se aquelas palavras fossem a última coisa que o separava da hesitação. Como se reunir forças fosse necessário não para enfrentar Azazel… mas para aceitar o que aquela luta exigiria.

    Yamamoto não ouviu o sussurro.

    Ainda assim, algo estava errado.

    A postura. O tempo de resposta. A rigidez forçada. Nada daquilo combinava com o Santo que ele conhecia. A discrepância cresceu silenciosa, desconfortável, cravando-se em sua mente com mais insistência do que o próprio demônio à frente.

    Azazel estava ali, visível, brutal, previsível em sua monstruosidade.

    O Santo, não.

    E, naquele instante, foi isso que mais inquietou Yamamoto.

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