Capítulo 58 – Apoc 6:4
Narrador: Azazel
— Ὁ τοὺς Πολέμους Ἱππεύων. — A voz ecoou como um trovão.
Em meio as arvores caídas, Hendrick se levantava.
Pela primeira vez, seu rosto não carregava sarcasmo, nem desprezo, nem mesmo provocação.
Ele estava sério.
Em seguida o chão respondeu ao seu chamado.
A terra tremeu sob seus pés, como um terremoto.
As raízes expostas se romperam com um estalo seco. A poeira foi empurrada para trás em ondas curtas, e o ar pareceu travar por um instante, pesado demais para se mover. O chão então se rompeu de vez, rasgando-se sob a tensão.
Da fenda aberta, linhas incandescentes emergiram lentamente, serpenteando sob a superfície.
Então, o som de cascos ecoou por quilômetros.
Não era um galope comum, mas o impacto seco de algo que atravessava campos de batalha invisíveis. Cada batida contra o chão carregava o peso de guerras que não deixaram nomes nem memórias.
O cavalo irrompeu do rasgo na terra com um salto violento e um relincho estridente demais para ser ignorado. Demasiadamente robusto para ser domado.
Sua forma não parecia nascida, mas forjada, moldada por conflitos acumulados ao longo dos séculos, como se cada osso e cada músculo carregassem o eco de batalhas que nunca terminaram.
Sua pelagem lembrava metal queimado, entre o negro profundo e o vermelho escuro, como aço manchado de sangue antigo. Não havia sela comum, nem rédeas. Runas rasgadas pelo tempo marcavam o corpo da criatura, não como adornos, mas como cicatrizes. Seus olhos não refletiam luz. Refletiam cenas: guerras esquecidas, cidades em ruínas, campos cobertos por silêncio.
Cada expiração do animal espalhava vapor quente, denso, carregado de aura. As árvores ao redor rachavam. Insetos caíam mortos antes de tocar o chão. A própria paisagem parecia reconhecer aquilo como algo sobrenatural.
O cavalo parou diante de Hendrick.
Não relinchou. Não se agitou. Apenas baixou levemente a cabeça, num gesto que não era submissão, mas reconhecimento. Como se ambos compartilhassem a mesma intenção.
Hendrick tocou o pescoço da criatura. O contato não produziu faíscas nem explosões. Produziu silêncio. Um silêncio pesado, absoluto, o mesmo que antecede o início de uma guerra.
Quando ele montou, a separação deixou de existir. Não havia cavaleiro e montaria, mas uma única presença avançando, completa, como se cada um fosse a resposta exata da existência do outro.
— Ἡ Λάμα τῆς Διχόνοιας. — Disse Hendrick.
Então, o mundo rachou.
O espaço ao redor deles começou a se partir. Linhas vermelhas surgiram no ar, como rachaduras em vidro invisível, expandindo-se em todas as direções. De dentro dessas fissuras escaparam ecos de batalhas antigas, gritos distantes, metal colidindo, escudos se partindo, memórias de guerras esquecidas pelo mundo.
Hendrick estendeu a mão.
Com um estalo seco, cravou os dedos numa dessas fissuras e puxou algo de dentro dela.
Uma espada longa emergiu.
A lâmina tinha quase um metro e meio, pesada demais para existir, vermelha como ferro mergulhado em sangue coagulado. Veios luminosos percorriam sua extensão como cicatrizes incandescentes, cada uma pulsando em tons escarlates, marcas de guerras antigas.
A espada exalava uma fumaça vermelha tênue, como se o próprio sangue evaporasse dela.
Quando Hendrick a moveu, não houve som metálico.
O que se ouviu foi o rugido abafado de centenas de batalhas sobrepostas.
E Azazel, pela primeira vez desde que despertara…
prestou atenção de verdade.
Os olhos de Azazel focaram em Hendrick montado sobre o cavalo. Um som escapou de sua garganta deformada, algo entre riso e respiração acelerada. Sua presença pulsou com algo próximo de alegria.
O desejo mais antigo, bruto e faminto daquele ser, ansiava por conflito mais que a própria vida.
Sem hesitar, Azazel cravou os próprios dedos em sua nuca e arrancou violentamente a própria coluna vertebral mais uma vez. O som foi seco, rápido demais para causar impacto visual. Seu corpo sequer tombou. As vértebras se desprenderam como matéria descartável, já se moldando no ar antes mesmo de tocarem o chão.
A regeneração foi instantânea.
A carne se fechou.
Os ossos se refizeram.
Não houve fraqueza. Não houve pausa.
A nova foice se formou em sua mão como se sempre tivesse existido ali. Mais longa. Mais densa. A lâmina curvada pulsava com veios escuros, respirando junto ao corpo do demônio, sincronizada com sua fome crescente. O cabo parecia uma extensão de seus nervos, reagindo a cada intenção violenta antes mesmo do movimento.
Do outro lado do campo devastado, próximo ao paredão, Lethos congelou.
Ele estava de pé, mas seus joelhos falharam por dentro.
Ao ver Hendrick montado no cavalo, algo antigo despertou em sua memória. Não um ensinamento. Não uma ordem. Mas um reconhecimento instintivo, visceral, impossível de negar.
Com a mão trêmula, Lethos segurou a cabeça de Gula e a puxou para baixo com força suficiente para fazê-la perder o equilíbrio.
— Ajoelhe-se, Phrágmon — disse, a voz quase quebrando, não de medo… mas de reverência.
Ambos baixaram a cabeça.
O som distante da batalha morreu por um instante, como se até o mundo aguardasse.
Lethos falou novamente, agora com a voz firme, carregando o peso de algo antigo demais para ser apenas lembrança.
— E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava montado nele foi dado tirar a paz da terra, para que os homens se matassem uns aos outros.
Gula ergueu levemente o rosto. Seus lábios rachados se moveram devagar, cada palavra arrancada como se custasse algo vital.
A fome distorcia sua voz, tornando-a rouca, arranhada, quase morta.
— Não penseis… que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz…
Ela respirou fundo, como se até falar fosse uma concessão dolorosa.
— …mas espada.
O cavalo de Hendrick bateu o casco no chão.
Uma única vez.
O som ecoou como o início de uma era sangrenta.
E Azazel sorriu.
O cavalo de Hendrick avançou.
O primeiro galope rasgou o campo como um decreto. Onde seus cascos tocaram o solo, marcas incandescentes se gravaram na terra, queimando-a até virar carvão recém-aceso.
Azazel respondeu com um riso distorcido.
Num único movimento, ele arrancou a própria coluna outra vez. Não houve hesitação. O corpo não tombou, não vacilou. A carne se recompôs antes mesmo de cair. Ossos se fundiram, músculos se fecharam, e a regeneração ultrapassou qualquer noção de limite. A coluna girou no ar e se moldou em sua mão, esticando-se, curvando-se, até assumir a forma de uma nova foice. Maior. Mais densa. Viva.
O choque foi imediato.
Hendrick desceu a lâmina em um arco horizontal. A espada não cortou o ar; ela o rompeu. O impacto contra as foices lançou uma onda de pressão que abriu uma cratera ao redor deles, jogando destroços para longe. Azazel foi empurrado para trás, rasgando o chão com os pés, mas respondeu com um contra-ataque brutal, cada golpe deixava rastros negros no espaço.
O cavalo de guerra saltou.
No ar, Hendrick girou o corpo e desceu a espada. O golpe atingiu o ombro de Azazel e o arrancou como quem quebra um galho apodrecido. Antes que a ferida se fechasse, Azazel já estava de pé outra vez, o ferimento se refazendo em espasmos grotescos. Ele avançou, atravessando a distância com violência animalesca, e os dois colidiram novamente, lâmina contra as foices, guerra contra ódio.
O mundo tremia a cada impacto.

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