Capítulo 59 – Dois Pecados, um Demônio
Narrador Azazel
Enquanto isso, o Santo se moveu.
De dentro do bolso, retirou uma pequena faca. Sem cerimônia, cortou a própria palma da mão. O sangue escorreu em poucas gotas, mas, ao tocar o solo, não se espalhou, cresceu, pulsou, tornou-se uma poça viva, espessa, que borbulhava lentamente.
— Ἔρχου! — ordenou.
Da poça rastejou um cavalo de cor enferma, como se a própria vida apodrecesse sobre seus músculos. A carne parecia frágil demais para sustentar ossos tão antigos. O hálito exalava morte, e cada passo deixava manchas pútridas no chão.
O Santo agarrou a crina da criatura e puxou sua cabeça para baixo com uma violência desnecessária, forçando-a à submissão.
Num salto seco, montou-o.
O cavalo tremeu.
Manteve a cabeça baixa e as pernas rígidas, como se o peso em suas costas fosse antinatural. Diferente de Hendrick, não havia unidade ali. Cavaleiro e montaria não se completavam. Eles se chocavam. Eram forças desalinhadas, presas uma à outra por imposição.
Lethos e Phrágmon, ainda ajoelhados, ergueram os olhos.
Foi então que uma presença se revelou atrás deles como um fantasma que sempre esteve presente.
— Matarei os habitantes desta terra, tanto as pessoas como os animais; morrerão de uma grande peste.
A voz soou suave, mas havia nela uma tensão sutil, como se cada palavra fosse escolhida para esconder o ressentimento que a alimentava.
Lirae Voss, o pecado da Inveja, permanecia de pé, envolta em um manto de tons esverdeados e negros. As camadas pesadas desciam até o chão como se carregassem o peso de incontáveis conquistas alheias. Sob a luz fraca, veios luminosos pulsavam sob sua pele pálida, contidos, quase doentes.
Seus olhos frios recaíram sobre Lethos e Phrágmon sem pressa, avaliando-os como quem mede algo destinado a ser tomado. As mãos, cobertas por luvas finas, não se moveram. Ainda assim, a presença que emanava dela sufocava.
Quando falou, não elevou a voz nem deixou que ela tremesse.
Soou estável. Limpa. Inevitável.
Como uma sentença decidida muito antes de ser pronunciada.
Por um instante, Althaia despertou.
A consciência voltou como um peso errado, deslocado. Não houve dor imediata, apenas a certeza brutal de que algo estava profundamente ausente.
O campo de batalha ainda respirava morte quando seus olhos se abriram e, entre os destroços e corpos imóveis, ela a viu.
Lirae Voss estava à frente do cenário, intocada. Observando.
Então a dor chegou.
Não como um grito, mas como um colapso interno. Uma pressão sufocante que atravessava o peito, roubando o fôlego e desorganizando o pensamento. O corpo lembrava, mesmo mutilado, mesmo incompleto. Cada nervo parecia exigir algo que já não existia.
Ela tentou se mover.
Nada.
O terror não veio do sangue ou da ferida, mas da constatação silenciosa de que seu corpo havia sido quebrado além do reconhecimento.
Cada segundo exigia um esforço para permanecer acordada.
E ela sabia. Sempre soubera.
A Inveja crescia diante da força alheia. Quanto maior o poder à sua frente, mais ela aprendia, mais se apropriava. E ali… ali havia demais.
Althaia virou o rosto, tensa.
— Lethos — gritou, a voz rouca. — Mate-a. Agora.
Lirae inclinou levemente a cabeça.
Seus olhos encontraram os de Althaia.
Por um segundo, o passado se impôs. A inferioridade antiga. A sombra constante.
Mas algo havia mudado.
Dessa vez, Lirae sorriu.
Não um sorriso aberto. Apenas um curvar mínimo dos lábios, carregado de uma superioridade venenosa, como quem finalmente olha de cima algo que sempre esteve abaixo.
Lethos estalou a língua, incomodado.
— Isso é… desnecessário — sussurrou, mais para si do que para ela. — Brigas entre pecados raramente acabam bem.
Mesmo assim, levantou-se.
Ele conhecia as consequências de ignorar uma ordem vinda de Althaia. Conhecia bem demais.
Deu um passo à frente.
Não deu o segundo.
Algo o agarrou por trás.
Uma mão firme, precisa, envolveu-lhe a cabeça como quem segura um objeto que já lhe pertence. Não houve aviso, nem esforço aparente. Apenas força absoluta.
Lethos foi arremessado contra o chão, o impacto seco ecoando pelo campo como uma sentença.
Atrás dele estava a Avareza.
Um homem de postura impecável, ereto mesmo em meio ao caos. O terno branco permanecia limpo, quase ofensivo diante da sujeira ao redor. As linhas douradas sob sua pele reluziam discretamente, imóveis, como rachaduras em algo valioso demais para sangrar.
Seus olhos dourados percorreram a cena com calma calculada, avaliando posições, riscos… propriedades.
— Não! — disse ele, com voz baixa e controlada. — Você não tocará no que me pertence.
O olhar dele passou por Althaia sem se deter, como se ela fosse um custo menor. Em seguida, pousou em Lirae.
Não havia carinho ali. Nem aliança declarada.
Apenas posse silenciosa.
— Além do mais, essa disputa — disse ele para Lethos, enquanto ajustava as mangas do terno com precisão irritante — não lhe pertence.
Lirae manteve o sorriso contido.
Althaia, no chão, sentiu algo raro crescer no peito.
Inferioridade.
— Já chega! — bradou Yamamoto, a voz rasgada pelo cansaço e pela dor. Ainda assim, havia autoridade ali.
Ele apoiou o peso no joelho e puxou o ar com dificuldade. O corpo respondeu com atraso, como se ainda não tivesse aceitado a nova realidade. Erguer-se exigiu um esforço que lhe soava estranho, quase ofensivo, e ainda assim o fez, movido pelo orgulho que nunca lhe faltará. Havia algo de trágico naquele gesto: a obstinação de um guerreiro que não reconhecia os próprios limites, ou talvez se recusasse a aceitar que, até pouco tempo atrás, a juventude ainda lhe pertencia. Agora, a velhice lhe pesava nos ossos como uma armadura mal ajustada.
— Phrágmon, Lethos, tirem os feridos daqui. Leve-os para um local seguro.
A Gula ergueu a cabeça lentamente. Seus olhos fundos demoraram a focar, como se cada palavra precisasse de tempo
antes de ser compreendida.
— Sim… senhor — respondeu, pausadamente, a voz arranhada como pedra seca.
Lethos se recompôs com esforço, cuspindo terra e sangue. Não discutiu. Apenas assentiu.
Yamamoto então voltou o olhar para os dois pecados recém-chegados.
— Lirae. Kaelmon. Juntem-se à batalha.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado.
— Não… — sussurrou Althaia.
A palavra saiu fraca, quebrada, mas carregada de algo que não era apenas medo. Seus olhos encontraram os de Lirae, implorando e desafiando ao mesmo tempo.
A Inveja inclinou levemente a cabeça, como se saboreasse aquele instante. O sorriso não se desfez. Pelo contrário, pareceu se fixar, mais confortável agora que antes.
— Você ainda insiste em me olhar dessa forma? — disse Lirae, com suavidade venenosa.
Kaelmon parou por um instante, observando o campo de batalha como quem avalia algo que será inevitavelmente danificado. Então, com calma meticulosa, começou a tirar o terno. Primeiro o paletó, dobrado-o com cuidado excessivo para aquele cenário. Depois, a camisa, desabotoando-a sem pressa, como se o caos ao redor não ousasse tocá-lo.
Quando ficou sem camisa, a verdadeira natureza da Avareza se revelou por completo.
Os veios dourados sob sua pele tornaram-se impossíveis de ignorar. Não pareciam tatuagens nem marcas superficiais, mas filões vivos, como ouro bruto correndo sob carne humana. Eles se ramificavam pelo peito, costas, ombros e braços com uma geometria precisa, fria, reluzindo mesmo sob a luz instável do campo de batalha.
Finalmente Kaelmon deu um passo à frente.
— Vamos, Lirae — disse, com o tom de quem não pede, apenas constata. — Há muito a ser ganho aqui.
O campo de batalha refletia em seus olhos dourados como um inventário em expansão: forças em choque, poderes expostos, oportunidades raras demais para serem ignoradas.
O manto da inveja se moveu como uma sombra viva enquanto ela avançava. Cada passo parecia absorver algo do ambiente: a força bruta de Hendrick em colisão com Azazel, a aura distorcida do Santo, o medo latente dos que ainda respiravam.
Althaia sentiu o peso aumentar.
Não era apenas a dor física. Era a certeza íntima de que algo estava sendo tomado dela naquele exato momento. Algo que nunca poderia recuperar.
No centro do campo, Hendrick e Azazel colidiram novamente, rasgando o mundo em ondas sucessivas.

Cavaleiro da Morte, Eleonor Jhones.

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