Capítulo 60 – Campo Cego
Narrador: Azazel
O campo ainda tremia sob o impacto distante de Hendrick contra Azazel, mas atrás do Santo formava-se outro tipo de tensão. Mais silenciosa. Mais calculada.
Lirae Voss foi a primeira a se ajoelhar.
O manto verde espalhou-se pelo chão queimado como uma mancha viva. Logo ao lado dela, Kaelmon Dreg inclinou-se também, postura impecável mesmo com o torso nu, os veios de ouro sob a pele reluzindo como rachaduras preciosas em uma estátua recém-partida.
Não era submissão.
Era protocolo.
— Por ordem de Yamamoto — disse Lirae, a voz estável como lâmina fina — devemos auxiliar na luta.
Kaelmon manteve a cabeça levemente baixa, mas seus olhos dourados analisavam cada detalhe do Santo e de sua montaria enferma.
O cavalo do Santo tremia. Não como o de Hendrick.
Ali não havia o espasmo seco de um músculo poderoso em contenção, mas um tremor irregular, frágil, que percorria-lhe o corpo inteiro. A criatura parecia resistir à presença sobre suas costas, como se carregasse algo indesejado, um peso que não lhe pertencia.
O Santo não olhou para trás de imediato.
Seus olhos estavam fixos na colisão distante entre Hendrick e Azazel. O vento levantava as vestes dele, mas seu corpo permanecia imóvel demais, concentrado demais.
Então falou.
— Esperem.
Uma única palavra. Sem pressa.
Lirae ergueu levemente o olhar.
— O momento certo ainda não chegou — continuou o Santo, a voz baixa, mas carregada de uma firmeza que não admitia discussão.
Ele apertou as rédeas. O cavalo enfermo estremeceu sob suas mãos.
— Diferente de Eleonor… diferente de Hendrick…
Houve uma pausa curta. O ar pareceu pesar.
— Eu não entrarei medindo forças.
Agora ele virou o rosto levemente, o suficiente para que um dos olhos alcançasse os dois pecados atrás dele.
— Usarei tudo que tenho desde o início.
Os veios dourados sob a pele de Kaelmon refletiram a luz distante das chamas. Lirae manteve o sorriso mínimo, atento.
O Santo então completou, sem elevar o tom:
— E espero que façam o mesmo… se não quiserem voltar para o Inferno.
Não houve grito. Não houve necessidade.
A ameaça não estava nas palavras.
Estava na certeza.
O cavalo enfermo soltou um som baixo, quase um gemido contido. À frente, a explosão de mais um impacto entre Hendrick e Azazel iluminou o campo.
Atrás do Santo, Inveja e Avareza permaneceram ajoelhados.
O Santo ergueu levemente o queixo.
A máscara ocultava sua expressão, mas algo mudou no ar ao seu redor. O cavalo enfermo curvou ainda mais a cabeça, como se pressentisse o peso da palavra antes que ela fosse dita.
— φόβος.
A palavra não ecoou.
Ela se espalhou.
Da boca do Santo, por trás da máscara, uma névoa densa começou a escapar. Não era vapor comum. Era espessa demais. Pesada demais. Como se o próprio conceito de medo tivesse sido soprado para o mundo.
A névoa tocou o chão e se expandiu.
Primeiro rasteira. Depois ascendente.
Em poucos instantes, começou a cobrir os arredores, engolindo tudo ao redor. O campo de batalha foi sendo apagado em camadas sucessivas, contornos se dissolvendo, distâncias se tornando incertas.
A luz se tornou difusa.
E então, gradativamente, toda a extensão do combate foi tomada.
Azazel rosnou.
Seus olhos piscaram em ritmos desordenados. A névoa infiltrava-se entre eles, turvando profundidades, confundindo foco e perspectiva. Formas surgiam onde não havia nada. Movimentos inexistentes chamavam sua atenção. A percepção espacial se fragmentava.
Ele girou a foice em arco amplo, tentando limpar o espaço ao redor.
Mas era tarde demais.
A espada de Hendrick surgiu da bruma como um decreto inevitável.
O primeiro golpe cortou de baixo para cima, abrindo a carne do abdômen de Azazel. Não profundo o bastante para detê-lo, mas preciso o suficiente para marcar.
O segundo veio quase simultâneo, atingindo o ombro reconstruído.
O terceiro o empurrou para trás.
Azazel cambaleou alguns passos, a regeneração agindo imediatamente, mas agora havia algo diferente. Não era a dor. Não era o dano.
Era a desvantagem.
Ele percebeu.
Mesmo imerso na névoa, Hendrick não hesitava. Não errava. Não buscava.
Atacava como quem enxerga perfeitamente.
Foi então que Azazel percebeu, que a névoa o prejudicava, mas não tocava o cavaleiro da guerra.
A névoa ainda dominava o campo quando o Santo levou a mão ao bolso interno de sua veste.
De lá, retirou um cristal vermelho.
Pequeno. Translúcido. Pulsante.
A luz dentro dele não era estável. Vibrava como um coração antigo, preso entre eras. O Santo o fechou na palma, e o ar ao redor pareceu se reorganizar.
Do interior do cristal, algo se moveu.
Primeiro, uma fissura luminosa. Em seguida, um filamento rubro irrompeu de sua superfície, fino e sinuoso, como a raiz exposta de uma árvore impossível. Ele se estendeu no ar, contorcendo-se lentamente, pulsando no mesmo ritmo instável da luz aprisionada. A cada batida, crescia mais, engrossando, ramificando-se, até perder qualquer vestígio de fragilidade.
A raiz alongou-se, curvou-se, descrevendo um arco longo, elegante, branco como marfim recém-esculpido, com adornos dourados que percorriam sua extensão em traços delicados e precisos. Não havia corda visível no início. Apenas quando ele ergueu o braço, uma linha de luz pura se estendeu entre as extremidades.
Azazel sentiu.
Seu corpo inteiro reagiu antes mesmo de compreender.
A carne se tensionou e a foice vibrou em sua mão.
— Não… — rosnou.
Ele reconhecia aquela presença.
Não inteira.
Fragmentada.
Uma parte sua. Uma parte arrancada eras atrás. Aquilo que os humanos ousaram chamar de Miguel.
O nome não era som. Era cicatriz.

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