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    Narrador: Azazel

    O campo ainda tremia sob o impacto distante de Hendrick contra Azazel, mas atrás do Santo formava-se outro tipo de tensão. Mais silenciosa. Mais calculada.

    Lirae Voss foi a primeira a se ajoelhar.

    O manto verde espalhou-se pelo chão queimado como uma mancha viva. Logo ao lado dela, Kaelmon Dreg inclinou-se também, postura impecável mesmo com o torso nu, os veios de ouro sob a pele reluzindo como rachaduras preciosas em uma estátua recém-partida.

    Não era submissão.

    Era protocolo.

    — Por ordem de Yamamoto — disse Lirae, a voz estável como lâmina fina — devemos auxiliar na luta.

    Kaelmon manteve a cabeça levemente baixa, mas seus olhos dourados analisavam cada detalhe do Santo e de sua montaria enferma.

    O cavalo do Santo tremia. Não como o de Hendrick.

    Ali não havia o espasmo seco de um músculo poderoso em contenção, mas um tremor irregular, frágil, que percorria-lhe o corpo inteiro. A criatura parecia resistir à presença sobre suas costas, como se carregasse algo indesejado, um peso que não lhe pertencia.

    O Santo não olhou para trás de imediato.

    Seus olhos estavam fixos na colisão distante entre Hendrick e Azazel. O vento levantava as vestes dele, mas seu corpo permanecia imóvel demais, concentrado demais.

    Então falou.

    — Esperem.

    Uma única palavra. Sem pressa.

    Lirae ergueu levemente o olhar.

    — O momento certo ainda não chegou — continuou o Santo, a voz baixa, mas carregada de uma firmeza que não admitia discussão.

    Ele apertou as rédeas. O cavalo enfermo estremeceu sob suas mãos.

    — Diferente de Eleonor… diferente de Hendrick…

    Houve uma pausa curta. O ar pareceu pesar.

    — Eu não entrarei medindo forças.

    Agora ele virou o rosto levemente, o suficiente para que um dos olhos alcançasse os dois pecados atrás dele.

    — Usarei tudo que tenho desde o início.

    Os veios dourados sob a pele de Kaelmon refletiram a luz distante das chamas. Lirae manteve o sorriso mínimo, atento.

    O Santo então completou, sem elevar o tom:

    — E espero que façam o mesmo… se não quiserem voltar para o Inferno.

    Não houve grito. Não houve necessidade.

    A ameaça não estava nas palavras.

    Estava na certeza.

    O cavalo enfermo soltou um som baixo, quase um gemido contido. À frente, a explosão de mais um impacto entre Hendrick e Azazel iluminou o campo.

    Atrás do Santo, Inveja e Avareza permaneceram ajoelhados.

    O Santo ergueu levemente o queixo.

    A máscara ocultava sua expressão, mas algo mudou no ar ao seu redor. O cavalo enfermo curvou ainda mais a cabeça, como se pressentisse o peso da palavra antes que ela fosse dita.

    φόβος.

    A palavra não ecoou.

    Ela se espalhou.

    Da boca do Santo, por trás da máscara, uma névoa densa começou a escapar. Não era vapor comum. Era espessa demais. Pesada demais. Como se o próprio conceito de medo tivesse sido soprado para o mundo.

    A névoa tocou o chão e se expandiu.

    Primeiro rasteira. Depois ascendente.

    Em poucos instantes, começou a cobrir os arredores, engolindo tudo ao redor. O campo de batalha foi sendo apagado em camadas sucessivas, contornos se dissolvendo, distâncias se tornando incertas.

    A luz se tornou difusa.

    E então, gradativamente, toda a extensão do combate foi tomada.

    Azazel rosnou.

    Seus olhos piscaram em ritmos desordenados. A névoa infiltrava-se entre eles, turvando profundidades, confundindo foco e perspectiva. Formas surgiam onde não havia nada. Movimentos inexistentes chamavam sua atenção. A percepção espacial se fragmentava.

    Ele girou a foice em arco amplo, tentando limpar o espaço ao redor.

    Mas era tarde demais.

    A espada de Hendrick surgiu da bruma como um decreto inevitável.

    O primeiro golpe cortou de baixo para cima, abrindo a carne do abdômen de Azazel. Não profundo o bastante para detê-lo, mas preciso o suficiente para marcar.

    O segundo veio quase simultâneo, atingindo o ombro reconstruído.

    O terceiro o empurrou para trás.

    Azazel cambaleou alguns passos, a regeneração agindo imediatamente, mas agora havia algo diferente. Não era a dor. Não era o dano.

    Era a desvantagem.

    Ele percebeu.

    Mesmo imerso na névoa, Hendrick não hesitava. Não errava. Não buscava.

    Atacava como quem enxerga perfeitamente.

    Foi então que Azazel percebeu, que a névoa o prejudicava, mas não tocava o cavaleiro da guerra.

    A névoa ainda dominava o campo quando o Santo levou a mão ao bolso interno de sua veste.

    De lá, retirou um cristal vermelho.

    Pequeno. Translúcido. Pulsante.

    A luz dentro dele não era estável. Vibrava como um coração antigo, preso entre eras. O Santo o fechou na palma, e o ar ao redor pareceu se reorganizar.

    Do interior do cristal, algo se moveu.

    Primeiro, uma fissura luminosa. Em seguida, um filamento rubro irrompeu de sua superfície, fino e sinuoso, como a raiz exposta de uma árvore impossível. Ele se estendeu no ar, contorcendo-se lentamente, pulsando no mesmo ritmo instável da luz aprisionada. A cada batida, crescia mais, engrossando, ramificando-se, até perder qualquer vestígio de fragilidade.

    A raiz alongou-se, curvou-se, descrevendo um arco longo, elegante, branco como marfim recém-esculpido, com adornos dourados que percorriam sua extensão em traços delicados e precisos. Não havia corda visível no início. Apenas quando ele ergueu o braço, uma linha de luz pura se estendeu entre as extremidades.

    Azazel sentiu.

    Seu corpo inteiro reagiu antes mesmo de compreender.

    A carne se tensionou e a foice vibrou em sua mão.

    — Não… — rosnou.

    Ele reconhecia aquela presença.

    Não inteira.

    Fragmentada.

    Uma parte sua. Uma parte arrancada eras atrás. Aquilo que os humanos ousaram chamar de Miguel.

    O nome não era som. Era cicatriz.

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