Capítulo 62 – O Fim da Mentira
Narrador: Azazel
Um rio de chamas incandescente envolveu a área, consumindo tudo ao redor. O oxigênio queimou, e, até mesmo pedras viraram pó.
Mas, sob a pressão, sob as chamas, algo não se encaixava.
Azazel abriu os olhos.
Não havia dor suficiente.
Havia pressão, sim. Havia impacto, sim. Mas não o bastante.
Ele conhecia aquele dragão.
Conhecia o peso real daquela criatura. Conhecia a força de um golpe verdadeiro. Quando ainda era um anjo, uma única investida era suficiente para rasgar-lhe as asas e quebrar-lhe os ossos.
Aquilo…
Aquilo era menos.
Muito menos.
A pata pressionava seu torso, mas seus ossos não se estilhaçavam como deveriam. Sua carne não estava sendo desintegrada. A regeneração, mesmo instável por causa da flecha, ainda respondia.
E então ele riu.
Um som baixo no início. Depois mais claro, mesmo sob o fogo.
— Entendo…
A voz ecoou abafada sob a ilusão ardente.
— Você não é ele.
A imagem do dragão rugiu acima dele, aumentando a pressão.
Mas Azazel já via as falhas.
As bordas da criatura vibravam de forma quase imperceptível. A sombra não coincidia perfeitamente com o corpo. O calor era intenso, mas não absoluto.
— Uma patada sua… — murmurou Azazel. — Teria me reduzido a algo que nem mesmo eu poderia reconstruir.
Ele forçou o braço contra o chão.
A terra cedeu sob seus dedos.
— Principalmente agora.
Sua expressão se tornou sombria.
— Que ainda não estou completo.
O fogo continuava a descer, mas não era suficiente.
— Miguel… — sussurrou, sentindo o fragmento distante, vibrando através do arco do Santo. — Iblis…
Os nomes não eram apenas lembranças. Eram lacunas. Partes arrancadas.
— Nem um terço do que sou… — os dentes se cerraram — está aqui.
A pata pressionou mais uma vez.
Azazel olhou diretamente para o dragão.
— E ainda assim… você não consegue me matar.
O sorriso que surgiu não era de loucura.
Era de compreensão.
— Uma mentira.
Com um movimento abrupto, ele fincou as mãos no solo e empurrou.
A imagem do dragão oscilou.
As chamas tremularam como reflexo em água agitada.
Azazel ergueu-se lentamente, os olhos brilhando com ódio renovado.
— Truques visuais. Medo projetado. Memórias manipuladas.
Ele cuspiu sangue para o lado.
— Tentaram me derrotar com isso uma vez.
O olhar dele atravessou a criatura, buscando o verdadeiro responsável.
— Não cometerei o mesmo erro duas vezes.
Azazel firmou os pés no chão rachado.
Os olhos fixaram-se no dragão acima dele, novamente, agora sem hesitação. Sem dúvida.
Ele não invocou arma alguma.
Não precisou.
Com um salto brutal, alcançou o pescoço da criatura e cravou os dedos nas escamas vermelhas. A resistência foi menor do que ele imaginava. Muito menor.
Ele puxou.
A cabeça separou-se do corpo como se fosse feita de névoa solidificada.
Antes que o resto pudesse reagir, Azazel atravessou o torso com o braço inteiro, rasgando-o de dentro para fora. As asas foram arrancadas em movimentos amplos, despedaçadas em fragmentos que se desfizeram no ar como cinzas dispersas.
Cada golpe era acompanhado por um som oco.
Sem ossos reais se partindo.
Sem carne verdadeira cedendo.
Em poucos segundos, o dragão não passava de pedaços flutuantes de bruma distorcida que começaram a evaporar.
A ilusão se desfez por completo.
Azazel caiu de volta ao solo.
E então urrou.
O som foi mais poderoso que o anterior. Não era apenas voz, era vibração pura. O solo sob seus pés rachou em linhas profundas que se espalharam como raízes violentas. O ar ao redor ondulou, como se o próprio espaço tivesse sido sacudido.
A onda de choque varreu o campo.
A névoa restante foi dilacerada, arrancada do ambiente e dispersa em fragmentos invisíveis. Em segundos, toda a extensão da batalha estava clara novamente.
Azazel respirou fundo.
— Essa névoa… — disse, limpando o sangue seco do ombro que ainda não cicatrizava — não entrará mais em mim.
Seus olhos se voltaram para o Santo.
— Não verá meus medos materializados outra vez.
Houve uma breve pausa.
E então, para surpresa de todos, Azazel inclinou levemente a cabeça.
A voz não era sarcástica. Era analítica.
— Um truque refinado. Manipular memórias. Forçar traumas a assumirem forma.
Ele abriu um sorriso torto.
— Funcionaria perfeitamente em um jovem anjo com pouca experiência em combate. Mas eu não sou mais aquele anjo.
O chão continuava a vibrar sob seus pés.
— E vocês… — o olhar percorreu Hendrick, o Santo e os pecados ao longe — vão precisar de mais do que ilusões para me matar.
Azazel voltou o olhar.
À distância, Kaelmon segurava uma das foices que haviam sido tomadas. O dourado sob sua pele pulsava com satisfação contida. Ao lado dele, Lirae segurava a outra.
Lirae percebeu o foco dos olhos de Azazel voltando-se em sua direção.
Ela não hesitou.
Ajoelhada um instante antes, agora se ergueu.
E mudou.
A forma humana se desfez como um véu descartável. No lugar dela, manifestou-se a verdadeira Inveja.
Alta e esguia, sua silhueta parecia instável, como se tivesse sido moldada a partir de sombras condensadas e luz corrompida. A pele pálida, acinzentada, era marcada por fissuras negras que se espalhavam como rachaduras em porcelana antiga, pulsando com energia sombria contida.
No centro do peito, uma fenda aberta revelava um núcleo luminoso em tons esmeralda. Não brilhava de maneira serena. Oscilava. Tremia. Batia sem ritmo fixo, como um coração incapaz de encontrar repouso.
Seu corpo era longilíneo, elegante, mas levemente distorcido. Força sem peso. Agilidade sem firmeza. Os dedos terminavam em garras finas, sempre tensionadas, como se buscassem alcançar algo que estivesse perpetuamente fora de alcance.
O rosto frontal mantinha uma beleza fria e melancólica. Traços delicados. Olhar vazio. Seus olhos não possuíam brilho próprio; refletiam aquilo que observavam. Ambições, talentos, poder. Absorviam desejos alheios como espelhos quebrados.
Atrás, emergindo da nuca e dos ombros, uma segunda cabeça se projetava. A face é grotesca. Sempre sorridente. Dentes longos e irregulares formavam um sorriso faminto, quase infantil em sua crueldade.
Enquanto a face frontal apenas observava, essa ria. Ria do fracasso, da queda, da dor.
Desejo e desprezo coexistiam nela.
Sua sombra não obedecia completamente. Contorcia-se, replicando posturas alheias, copiando gestos, aprendendo silenciosamente. Nada em sua essência era original. Tudo era reflexo, adaptação, distorção.
O ar ao redor tornava-se pesado, não pela violência imediata, mas pela sensação de estar sendo medido, comparado, avaliado. Onde ela permanecia, a confiança enfraquecia e rivalidades germinavam.
A Inveja não queria destruir.
Queria ser.
Ser o que o outro é.
Ter o que o outro tem.
Brilhar onde o outro brilha.
E ao perceber que jamais alcançaria plenitude, sorria.
A Inveja, já em sua forma verdadeira, ergueu o braço que segurava a foice tomada.
— Προσαρμογή.
A palavra deslizou como veneno antigo.
Escamas negras começaram a brotar por sua pele, começando nos dedos e subindo pelo antebraço em placas irregulares, brilhando com reflexo esverdeado. Não eram orgânicas como as de um réptil comum. Eram densas.
O braço se alongou levemente.
A carne se abriu sem sangue.
E então se fundiu à foice.
Metal e matéria demoníaca tornaram-se um só. A lâmina vibrou, ajustando-se ao novo portador. Veios escuros se espalharam da arma para o ombro da Inveja, como se ela estivesse absorvendo sua estrutura, aprendendo seu peso, copiando sua essência.




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