Capítulo 11: Águas Rasas
“Por que diabos colocaram cogumelos no peixe? Parece até que não limparam direito”, pensou Mirena.
Ela encarava o prato de madeira, mastigando mais um pedaço com uma careta de desgosto.
Não era um pequeno fungo invasor que a impediria de terminar a refeição. Afinal, uma viajante aprende a não desperdiçar comida.
— Você tá brincando, né? — a voz de um dos aventureiros subiu de tom e cortou o burburinho do acampamento.
As orelhas pontudas da ardenteriana se viraram no mesmo instante, miradas na direção da conversa alheia.
— Tô te dizendo, cara — retrucou o outro, parecendo genuinamente perturbado.
— Mas como as pegadas simplesmente acabam na beira do lago? Cê tá falando que os bichos pararam pra lavar o pé e seguiram pra floresta?
Mirena parou de mastigar.
“As pegadas acabam na água?”, a pergunta ecoou em sua mente.
— Eu não tenho nem ideia, esqueletos nem cérebro têm. Devem só ter seguido reto e ido pro outro lado por baixo — finalizou o primeiro aventureiro.
As palavras do homem martelavam a cabeça da garota. Tudo naquele lugar parecia absurdo demais para ser real, até para os padrões dela.
Esqueletos feitos de carma sequestrando pessoas era uma coisa, um urso de prata isolado disputando território era outra.
Mas rastros que acabavam na beira de um lago profundo? As chances de eles simplesmente terem atravessado o lago eram drasticamente baixas.
E, como se não bastasse, para completar o cenário bizarro haviam aqueles cogumelos alojados dentro da barriga do peixe frito.
“Aqueles esqueletos foram invocados, estavam seguindo ordens diretas de alguém”, a ardenteriana concluiu, encarando o nada.
Invocadores de nível baixo criam marionetes burras, mas aquilo foi um mini exército organizado, capaz de limpar rastros.
“A menos que a base deles não seja na floresta, mas sim… embaixo dela!”, o raciocínio brilhou como uma faísca.
Mirena se levantou de supetão. O prato de madeira bateu na pedra com um estalo seco e deixou as espinhas para trás.
— Vocês viram o Cucca Beludo? Eu preciso falar com ele agora! — disse ela ao grupo de aventureiros mais próximo.
Os homens ficaram de olhos arregalados, surpresos com a energia repentina da mulher que, até então, parecia exausta.
— Errr… Oi? — um deles respondeu, enquanto ainda processava a pergunta.
— Apenas diga se o viu ou não! — ela insistiu, ajeitando o braço mecânico recém-consertado.
— Ali, na boca da floresta. Ele foi fazer as honras para os que ficaram — apontou o aventureiro, meio sem jeito.
— Agradecida! — Mirena disparou na direção indicada, deixando uma nuvem de poeira e homens confusos para trás.
Os aventureiros ficaram observando a silhueta dela sumir entre as árvores, boquiabertos com o ânimo da “estrangeira”.
— Ela não é aquela garota que segurou o gigante na praça? — comentou um, com a mão na barba rala.
— Pior que é. Ardenterianos são sempre assim, meio intensos ou meio malucos, né não? — completou o outro, rindo baixo.
— Bom, é a juventude. E o Cucca é bem famoso com as garotas. Hahaha!
Mirena não ouviu a risada. Ela já estava embrenhada na parte densa da mata, onde o ar parecia mais pesado e úmido.
O céu azul que sobrevoava o lago já estava fora de vista, substituído pelo amontoado sombrio de galhos retorcidos.
Ela caminhou forçadamente, seu corpo repudiava a energia estagnada daquele setor da floresta.
Avistou Cucca não muito longe, ele estava ajoelhado em frente a sete amontoados de pedras cuidadosamente empilhadas.
Sete túmulos improvisados. Sete vidas que Eldon perdeu em uma única expedição à floresta.
Não era necessário o uso de palavras, a visão de Cucca, o líder veterano, curvado diante daquelas pedras, dizia tudo.
Ele ficava ajoelhado em silêncio absoluto. As palmas das mãos encostadas em prece, os olhos cerrados com força.
Quando terminava um, ele se levantava com dificuldade, partia para o próximo túmulo e repetia o ritual de luto.
— Que Lebkraut guie sua alma para o descanso das folhas, companheiro — ele sussurrava, a voz rouca pelo choro contido.
Era possível ver as lágrimas escorrendo pelo rosto marcado pelas batalhas, limpando a sujeira e o sangue seco.
Ele se preparava para o próximo ritual quando a voz de Mirena quebrou a redoma de luto que o envolvia.
— Cucca? — ela chamou suavemente, parada a alguns metros de distância por respeito.
— Ah! Perdão… eu estou um pouco ocupado agora — ele limpou o rosto com o antebraço, tentando recuperar a postura. — Eu só posso fazer isso por eles agora. É o mínimo que um líder deve oferecer aos seus homens.
Mirena aproximou-se lentamente, ignorou o desconforto que o lugar causava e ajoelhou-se ao lado dele.
Ela encostou a palma das mãos, fechou os olhos e recitou a ladainha que aprendera nas bibliotecas de Água-Ardente.
— Lebkraut, sopro que pulsa nas folhas e corações, abençoe o sangue que corre em nós e fortaleça o fio desta alma — disse ela.
Aquela oração era antiga, especial, algo que ele não ouvia há muitos anos.
Cucca pensou em interrompê-la, mas seu corpo o impediu. A visão de uma prece honesta feita por uma estranha foi o suficiente para comovê-lo de vez.
Os dois continuaram juntos. Repetiram o ritual até que o último dos sete túmulos fosse devidamente honrado por Lebkraut.
— Fico feliz de saber que mais alguém por aqui louve Lebkraut — Mirena comentou ao se levantar e limpar a terra dos joelhos. — Pensei que apenas nós, ardenterianos, mantivéssemos esses ritos de passagem — completou ela com um meio sorriso.
— Meus pais tinham esses costumes — Cucca respondeu, encarando as pedras. — Eles me ensinaram que a floresta sempre ouve.
— Sério? Eu pensava que a maioria dos aventureiros humanos preferissem Stormlen, por causa da fúria e das tempestades.
— Eu fui criado em Água-Ardente, sabia? Não sou daqui, então acabei herdando a cultura dos seus ancestrais.
A garota sentiu um alívio genuíno. Ter um conterrâneo, mesmo que de criação, tornava o ambiente menos hostil.
Entretanto, a urgência da sua descoberta rapidamente tomou o lugar da nostalgia em sua mente acadêmica.
— Cucca, precisamos agir. Eu descobri para onde eles levaram as pessoas, e o local é pior do que imaginávamos.
— O quê? Como assim? — o líder franziu o cenho e colocou a mão no cabo da espada por puro instinto.
— Tem algo no fundo do lago. Os rastros não param na margem, eles continuam por baixo da água!

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