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    Em meio à guerra que o lugar se tornara, Mirena conseguiu se esgueirar e chegar ao topo da parede de escalada.

    Ofegante, ela olhou para a frente. O próximo desafio era a corda de equilibrismo. “Certo, pensa, Mirena… equilíbrio é a chave.”

    Ela começou a andar com calma. Não havia mais ninguém na corda; a maioria já tinha caído ou desistido no meio do caminho.

    De repente, algo pulou sobre ela. O vulto ignorou completamente a corda e cruzou o abismo com um salto impossível.

    Mesmo com a armadura de couro, o jovem Dhaha conseguia saltar distâncias que desafiavam a lógica de qualquer atleta humano.

    — Mas quem é ele? — Mirena deixou o pensamento escapar enquanto tentava recuperar o equilíbrio na corda bamba.

    — Dhaha. Dhaha Sulfazyan! — o garoto respondeu lá na frente, sem nem olhar para trás, com um tom de puro orgulho.

    Ele dizia o nome como se fosse um título. Mirena não sabia com o que se impressionar mais, com os feitos do garoto ou com ele estar se preparando para continuar a corrida.

    — Com licença! Garoto douradiano! — gritou a ardenteriana — Como você fez isso? Olha a distância desse salto!

    — Sinto muito, mas estou sem tempo para explicações agora, senhora — ele respondeu, já focado no próximo obstáculo.

    — Perdão? Senhora? — a veia na testa de Mirena saltou. Aquela palavra doeu mais do que qualquer queda da parede.

    — Lógico. A senhora é uma ardenteriana, deve ter no mínimo o dobro da idade que parece ter — ele disse, cruelmente honesto.

    “Desgraçado! Pior que ele tem razão”, pensou Mirena, enquanto rangia os dentes e apertava o passo na corda.

    Ser ardenteriana lhe dava uma expectativa de vida enorme. Ela parecia ter vinte, mas já estava na casa dos cinquenta anos.

    Derrotada pelo argumento, ela continuou. Atrás dela, uma multidão furiosa de bêbados começava a subir as cordas, aos gritos.

    — Eu preciso daquela página! Não vou perder para um moleque exibido! — ela gritou para si mesma, ganhando velocidade.

    Dhaha era rápido como uma bala. Ele cruzava as cordas como se fossem plataformas rígidas, mostrava um equilíbrio invejável.

    Em pouco tempo, ele chegou à área de salto a distância. Os aldeões ali saltavam de forma cômica e caíam de cara na areia. A plateia se acabava de rir. 

    O rapaz se segurou para não rir também, ele precisava de foco absoluto para o que vinha a seguir.

    Deu passos para trás, respirou fundo e encheu os pulmões. Uma leve chama branca começou a cobrir seu corpo como uma aura.

    Era o controle de carma se manifestando. O carma era a energia que permeava os seres vivos, objetos e até mesmo o ar, uma força presente em tudo. Poucos tinham controle o suficiente para manifestá-lo, mas o douradiano era um desses poucos.

    Ele correu e saltou como um tigre branco que iluminava a escuridão da noite. O silêncio tomou conta da praça por um instante.

    As risadas pararam. Todos observavam o rastro de luz deixado pelo garoto, palmas começaram a ecoar por toda Eldon.

    Mirena demorou alguns minutos para cruzar as cordas. O peso de suas roupas de viagem e do braço mecânico não ajudava em nada no atletismo.

    Ao chegar na área de salto, ela viu Dhaha já no teste de natação. 

    “Prodígio desgraçado…”, pensou a mulher, exausta.

    Mesmo com raiva, ela reconhecia o talento. Sem dúvida, aquele garoto seria alguém muito poderoso no futuro próximo.

    — Certo. São só alguns pulos! Não deve ser difícil — ela tentou se motivar, antes de falhar miseravelmente três vezes seguidas.

    Seus saltos não eram dos melhores, chegavam apenas até a metade na maioria dos casos, mas conseguiu concluir a provação.

    “Esse lugar é o inferno! Eu nunca vou conseguir a página do grimório desse jeito!”, ela gritou em sua mente, sentando na areia por um segundo.

    Precisava recuperar o fôlego, a lua estava perto de se pôr e a festa logo acabaria. Aquele douradiano venceria a corrida a qualquer momento.

    “Eu não tenho tanto carma bruto quanto ele. Se ele usar isso para nadar, acabou para mim”, Mirena avaliou a situação.

    Ela sabia sobreviver sozinha, mas não era atlética. “Talvez se eu usar meu servo… isso pode dar certo.”

    Aproximou-se do tanque de água. Tinha um metro e meio de profundidade e uns vinte metros de comprimento. Era o desafio final.

    Por sorte, não havia outras pessoas ali. Os saltos de areia tinham filtrado quase todos os competidores embriagados da cidade.

    Mirena notou Dhaha parado na beira do tanque. Ele parecia hesitar, olhando para a água como se fosse um monstro devorador.

    — Ah, você ainda não foi? Não vai nadar, Guerreiro de Aço? — ela provocou, ao recuperar um pouco da confiança.

    — Eu… eu estou pensando na melhor estratégia — Ele respondeu rápido, mas sua voz tremeu de leve.

    — O sol vai nascer daqui a pouco, garoto. O tempo está acabando — ela disse, ao notar o medo no olhar dele.

    — Eu sei, senhora. Não precisa me lembrar — ele retrucou, mas continuou imóvel na beira da água.

    “De novo com esse negócio de senhora… acha que vai ser jovem para sempre?”, Mirena pensou, com a irritação visível no rosto.

    — Não parece fundo. Por que não entra logo? Inclusive, teu nome é Dhaha mesmo, certo? — ela perguntou, ao tocar a água.

    — Não é tão raso quanto parece! E sim, sou Dhaha Sulfazyan! — ele disse, de volta à pose de herói por um momento.

    Mirena entrou no tanque. A água não passava do seu pescoço. 

    — Viu? Não é tão fundo. Eu acho que você alcança.

    Finalmente o rapaz tomou coragem e pulou. A água mal chegava aos ombros devido à sua altura. Ele relaxou por um instante.

    Ele cobriu o corpo com carma e começou a empurrar a água enquanto caminhava. Era uma visão ridícula, como uma criança brigando com a água.

    “Então ele não sabe nadar…”, Mirena percebeu. 

    Ela ouviu os urros dos bêbados que se aproximavam da área de salto.

    — Eu preciso ganhar! Eu preciso daquela página agora! — Mirena saiu do tanque e concentrou carma em sua mão esquerda.

    Um choque cruzou seu corpo. Suas mãos foram cobertas por uma energia fria. Era o seu Servo atendendo ao chamado.

    Mirena era uma maga, uma das poucas capazes de firmar um contrato com uma besta de carma puro.

    — Isso tem que funcionar… [Caleidogênese] — ela sussurrou, ao focar toda a sua vontade na ponta dos dedos.

    O ar ao redor resfriou instantaneamente. A temperatura caiu tanto que a respiração de Mirena virou uma fumaça branca.

    Antes que Dhaha chegasse ao fim do tanque, o gelo se expandiu. Em segundos, toda a água do tanque virou um bloco sólido.

    — Sua… Cê é uma maga?! — gritou ele, completamente paralisado pelo gelo que prendia suas pernas e tronco.

    Mirena ignorou o protesto e correu desajeitadamente sobre o gelo liso, tentando não cair até alcançar a linha de chegada.

    Dhaha só conseguia observar, derrotado. Ele aceitou que, daquela vez, a “senhora” tinha truques que ele ainda não conhecia.

    Mirena chegou ao palco exausta. Usar o servo naquela escala tinha drenado quase toda a sua energia restante.

    — Ôloco, meu! Temos uma ganhadora! Rapaz… digo, moça! Parabéns! Qual seu nome? — Pedrão perguntou, animado.

    Mirena olhou para a multidão e para o douradiano, que agora se soltava do gelo. 

    — Eu sou… Mirena… Kaspiegel! — Mirena tentou, mas não conseguia dizer seu nome da mesma forma que Dhaha. Era necessária muita autoconfiança.

    Toda a plateia urrou. Era como se um novo conto tivesse se iniciado, mesmo que fosse somente uma corrida com obstáculos para bêbados.

     Mirena foi até os prêmios, focando apenas na caixa de prata.

    “Finalmente! Ter vindo para cá valeu a pena…”, pensou ao abrir a tampa, mas a decepção foi um soco no estômago: era apenas um desenho autografado pelo Pedrão.

    — Valeu por tudo, galera! — Pedrão gritou, enquanto Mirena tentava não chorar de frustração pelo prêmio falso.

    Mas o riso da multidão foi cortado por uma explosão distante. O chão de Eldon tremeu violentamente sob seus pés.

    Gritos de pavor substituíram a música. 

    — Isso não parece uma atração… — Mirena sussurrou, com o olhar fixo no horizonte.

    Dezenas de esqueletos marchavam pela praça destruída. Atrás deles, um colosso de carne costurada de quatro metros surgiu.

    O monstro rugiu como um trovão, vibrando os ossos de cada pessoa ali. A festa acabou, e Eldon agora era um campo de guerra.

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