Capítulo 23: Cidade Escura
— Vai querer o de sempre, Scott? — perguntou o taberneiro, ao deslizar um pano encardido por um copo de metal.
O homem atrás do balcão falava com um aventureiro que, como tantos outros, afogava as mágoas ao anoitecer.
A noite havia caído sobre a cidade de Engrenora. Mirena e Dhaha passaram o dia inteiro presos na guilda e agora, finalmente soltos, separaram-se para buscar informações.
A Taverna Pata de Gato estava abarrotada. Aventureiros de todos os cantos festejavam a vida, erguendo canecos e devorando carne no espeto. A Taverna Para de Gato era famosa por seu serviço, afinal.
Mirena aproximou-se do balcão, pediu duas cervejas e encostou-se no banco de madeira desgastada.
“Como eu vim parar nessa situação?”, ela pensou, ao deixar escapar um bocejo longo e exausto.
— Aqui está, senhorita. — O taberneiro deslizou as canecas. — O seu acompanhante chegará em breve?
— Não, não. As duas são para mim.
Mirena virou meia caneca de uma vez, deixando um suspiro de puro alívio escapar ao bater o copo no balcão.
Alguns olhares se voltaram para ela, mas a rotina da taverna falou mais alto. Falar de missões e desaparecidos era mais urgente.
— Vejo que temos uma garota boa de bebida aqui! Hahaha! — um cliente próximo riu, claramente impressionado.
— Hahaha! Não se preocupe, é apenas cerveja — ela rebateu, com um sorriso de canto.
E, para o espanto geral e desgosto do próprio fígado, ela virou o resto da caneca sem piscar.
O taberneiro a encarou, os olhos arregalados de surpresa. O normal ali era pedir doses curtas ou beliscar alguns aperitivos.
— Pelos deuses… o que te deixou tão estressada assim? — ele perguntou, apoiando-se no balcão de madeira.
— Gulp… Argh… — Mirena limpou a boca. — Eu me meti em uma grande encrenca e preciso investigar um caso sem ter pista alguma.
— Um caso? Que tipo de caso?
— Imagino que os boatos sobre os desaparecimentos já tenham chegado aos seus ouvidos…
— Aaaah, agora entendi. Os desaparecimentos aqui em Alta-Engrenora, certo?
— Esses mesmo! — Ela virou a segunda caneca pela metade. — Estou a horas fuçando os arquivos e achei quase nada!
— É complicado. O que rola de boato é que as coisas estão centradas lá pela área residencial norte, só isso.
— Área residencial norte? Engraçado, não tinha uma linha sequer sobre isso nos arquivos.
— Como eu disse, são boatos. Mas se você está tão desesperada, talvez valha a pena dar uma olhada por lá, não?
— Senhor taverneiro, o senhor tem toda a razão! — Ela bateu dez moedas na mesa e girou nos calcanhares.
— Pode me chamar de Ellenor e… E lá vai ela. — O taberneiro recolheu o ouro, suspirando com a sensação de missão cumprida.
A ardenteriana caminhou pela noite fechada de Engrenora, a cidade parecia engolida por um silêncio que beirava a morte.
Sem um mapa ou bússola, ela perguntava o caminho para qualquer alma viva que encontrava, um erro tático em uma cidade tão vasta.
O lugar era gigante demais para uma busca às cegas, mas após andar muito, ela avistou um aglomerado de casas, alguns campos abertos e a silhueta de um templo.
“Por que essa cidade é tão grande? E por que está tão escura? Não tinha um monte de fábricas funcionando até agora há pouco?”, ela pensou, sentando-se ofegante num banco de pedra.
O céu estava encoberto e pesado. Nenhuma estrela furava as nuvens escuras que prometiam chuva a qualquer minuto.
— Droga, vai chover logo agora? — ela praguejou e escondeu o rosto nas mãos. Conseguia sentir a frustração bater forte.
Foi quando ouviu passos. Eram lentos, arrastados e descompassados, o som de quem lutava para dar o próximo passo.
Uma senhora idosa surgiu na rua mal iluminada, segurava uma lamparina fraca.
— O que uma jovenzinha faz na rua a essas horas? Foi enxotada de casa? — a velhinha perguntou, o rosto enrugado com um sorriso travesso.
— O que? Não, não! Hahaha! — A surpresa quebrou a tensão de Mirena, arrancando-lhe uma risada genuína.
— Então, o que te traz a este lugar e a essa hora da noite, mocinha?
— Pode ficar tranquila, senhora. Estou bem, e agradeço pelo “mocinha”.
— Oh! Olhando bem… você é uma ardenteriana? É raro ver gente do seu povo por essas bandas.
— É que eu estou… fazendo uma pesquisa — Mirena mentiu.
Dizer que investigava sequestros assustaria qualquer informante em potencial.
— Uma acadêmica, então? — A senhora acomodou-se no banco ao lado dela. — E qual é o seu objeto de estudo?
— Bem… — Mirena hesitou, as opções de mentira sumiram da mente. — A senhora notou alguma coisa esquisita ultimamente?
— Esquisita como, minha filha?
— Não sei, talvez um movimento fora do comum? Pessoas estranhas perambulando por aqui?
— Hmmm… — A idosa fechou os olhos, o rosto contorcido como se buscasse algo no fundo de uma vida inteira de memórias.
“Isso vai demorar muito mais do que eu calculei”, Mirena concluiu, mentalmente preparando-se para uma longa história.
— Olha, no meu tempo, aquele templo ali era muito vivo. — Ela apontou com o dedo trêmulo para uma ruína.
“Ou talvez não”, Mirena corrigiu-se, ao acompanhar o gesto.
— Era cheio de padres devotos a Stormlen, mas fechou as portas há anos, e a congregação sumiu do mapa.
— É uma pena. Pelos restos, devia ser uma construção bem bonita.
— Ah, e era! Todo pintado de azul, a cor das tempestades. — A velha suspirou, o olhar marejado. — Mas hoje em dia… só esquisitões frequentam o lugar.
— Esquisitões? Do que a senhora está falando exatamente?
— Uma gente assustadora, eles andam sempre de mantos pretos e pesados. Devem ser jovens brincando com coisas erradas, eu prefiro manter distância.
— Entendi! Muito obrigada pela ajuda, senhora…?
— Lídia. Meu nome é Lídia.
— Agradecida, senhora Lídia!
Sem perder um segundo, Mirena deu um salto do banco e correu em direção à ruína, enquanto torcia para não quebrar a cara na escuridão e deixava a velha senhora para trás.
A velhinha observava com um sorriso no rosto, enquanto Mirena se afastava.
— Fácil, fácil… — murmurou a idosa para a escuridão.
A estrutura decrépita erguia-se à frente da ardenteriana, o azul que um dia coloriu as paredes agora era apenas um ciano descascado sob o mofo.
O grande Pássaro da Tempestade, símbolo de Stormlen, estava pendurado por um fio de ferrugem sobre a porta principal, que estava lacrada com grossas tábuas de madeira.
Mirena engoliu em seco. A atmosfera daquele lugar fazia os pelos de sua nuca se arrepiarem, e não era pelo frio da noite.

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