Enquanto isso, em outra parte da cidade, a busca de Dhaha parecia ter chegado a um beco sem saída.

    A noite avançava, e suas horas gastas revirando o arquivo e interrogando os cidadãos de Alta-Engrenora não renderam muito.

    — Talvez dividir o grupo não tenha sido a jogada mais inteligente… — ele murmurou para si mesmo, enquanto caminhava por uma rua residencial deserta.

    Foi quando um brilho fraco chamou sua atenção. Uma velha senhora descansava em um banco, com uma lamparina gasta ao seu lado.

    — Boa noite, senhora! — Dhaha anunciou sua presença com a delicadeza de um trovão.

    A pobre velha deu um pulo para o lado, o coração falhou um batimento ao encarar os olhos incandescentes do douradiano na escuridão. Parecia uma assombração.

    — Que susto, seu moleque! Não chegue perto das pessoas assim no escuro, quase me matou do coração! — ela esbravejou, ofegante.

    — Ah… Foi mal… Perdão, senhora… — o garoto curvou-se, o rosto vermelho de tanta vergonha.

    — Tudo bem, já passou… — ela ajeitou o pullover e sentou-se novamente. — Mas o que um jovem assustador como você quer por aqui?

    — Ah, sim. A senhora notou alguma coisa diferente ou esquisita acontecendo na vizinhança ultimamente?

    — Diferente? — Ela semicerrou os olhos, pensativa.

    “Eu acho que escolhi a pior pessoa para perguntar”, pensou Dhaha, já cogitando ir embora.

    — Bom, tirando você, tem aquela história da casa mal-assombrada no final da rua, isso serve pra você?

    “Ou talvez eu seja um gênio”, ele sorriu internamente.

    — Mal-assombrada como? — ele se animou, fazendo alguns polichinelos rápidos de pura empolgação com a pista.

    — A antiga casa da família Laurance. O pessoal anda dizendo que ouve gritos e vê sombras rastejando por lá à noite… — Ela fez o sinal de Stormlen no peito. — Dizem que quem entra, nunca mais sai.

    — Casa vazia? Gente sumindo? Perfeito! Muito obrigado, senhora! — ele acenou e disparou, o sangue já fervia com a perspectiva de uma luta.

    Ele seguiu direto para o fim da rua, deixando a velha murmurando para a lamparina, com um sorriso enigmático.

    — E com esse, já foram dois… — a velha sussurrou para o vazio.

    Dhaha logo encontrou a residência abandonada: o mato alto engolia as paredes, e a madeira podre dava a sensação de que a casa desabaria a qualquer sopro de vento. Era pequena, com poucos cômodos, e não demoraria a ser vasculhada.

    Ignorando as leis de invasão de domicílio, ele forçou a porta da frente, que cedeu com um som fúnebre.

    O interior cheirava a mofo e a pouca luz da rua morria nas janelas opacas de sujeira. O assoalho de madeira gritava sob as botas pesadas do garoto.

    Ele concentrou carma na mão e criou uma pequena labareda pálida, que teimava em iluminar apenas o suficiente para mostrar que a casa estava vazia.

    “Nem um móvel velho… Pra onde levaram as coisas daqui?”, ele se perguntou, desapontado com os cômodos dilapidados e vazios.

    Ele quase cruzou a porta para sair e buscar outra pista, quando todos os músculos de seu corpo travaram.

    O ar congelou. O instinto gritou na base de seu cérebro, alertando-o de que algo o observava do fundo mais escuro da sala.

    Dhaha sacou a espada num piscar de olhos e girou num corte largo, mas a lâmina cortou apenas ar cheio de poeira.

    — Que palhaçada é essa?! — ele xingou. 

    O suor frio escorria, e suas pupilas dilataram ao máximo contra a sua vontade. O medo não era natural.

    Ele avançou devagar, com a guarda alta, em direção à parede onde a escuridão era mais espessa. Os rangidos do chão pareciam quanto mais andava.

    — Espera aí… — Ele abaixou a espada e olhou para o assoalho irregular sob seus pés.

    Seu punho brilhou com um branco ofuscante, ele começou a socar as tábuas podres. No décimo soco, a madeira estilhaçou por completo.

    Um buraco escuro se abriu e revelou uma escadaria de ferro que descia para as profundezas da terra. O final era impossível de ver.

    Ele mordeu o próprio dedo, usando a dor aguda e a adrenalina para afastar a sensação paralisante de terror.

    — Tem um mago lá embaixo… tá na hora do show.

    Sem pensar duas vezes, ele pulou no abismo escuro e cobriu o corpo com uma camada espessa de carma para sobreviver à queda livre. Era um salto de mais de quinze metros.

    Aterrissou com um baque surdo que tremeu o chão de pedra. Um cheiro forte de produtos químicos e amônia invadiu seus pulmões de imediato.

    Ele andou às cegas e esbarrou em cadeiras que tombaram ruidosamente. Ao tatear encontrou uma grande mesa de metal.

    Quando os olhos finalmente se acostumaram ao escuro, ele viu uma parede larga, feita quase inteiramente de um vidro grosso, ao fundo da sala. Uma porta de aço ficava ao lado.

    — Uma sala de interrogatório? — ele deduziu, rodeando a mesa cheia de documentos empilhados com perfeição.

    Ele forçou a vista para ler os papéis mais próximos. Não eram velhos, pareciam muito recentes e oficiais.

    — “Carta de Promoção”? “Fichário de Aventureiro”? O que essas coisas da guilda tão fazendo num buraco desses?

    Seu olhar escorregou da mesa para trás do vidro grosso, foi quando ele a viu.

    A figura de uma jovem pálida e magra estava encostada no canto. Ele ainda conseguia sentir uma fraca pulsação de carma vindo dela.

    — Ei! Você tá viva?! — ele gritou, e correu em direção ao vidro sem a mesma cautela de antes.

    Mas ele parou subitamente no meio do caminho. A mulher tinha uma mordaça na boca, e, ao focar melhor, ele percebeu o perigo que a rodeava.

    O carma ao redor dela estava distorcido, formava ondulações no ar, como o calor saído de uma fornalha. O arrepio na nuca de Dhaha voltou com força total. 

    Aquela garota era uma isca.

    A sensação de esmagamento tomou conta de seu peito. Uma sombra monstruosa e disforme cresceu do outro lado do vidro, cobrindo o corpo da mulher e o observando com olhos vazios.

    “Preciso sair daqui agora!”, seu instinto de sobrevivência berrou, e ele recuou lentamente em direção à escada de ferro.

    Com um último olhar para trás, ele notou outra silhueta do outro lado do vidro, ofuscada pela escuridão e pela fumaça.

    A sombra parecia muito com Mirena, mas o terror imposto pela criatura bloqueou qualquer tentativa de retorno.

    Em pânico, Dhaha expandiu seu carma e saltou em um único impulso até o topo do buraco, em direção à noite úmida.

    Ele desabou na grama lamacenta do lado de fora. A chuva caia forte, o que o ajudou a recuperar o controle da própria respiração ofegante.

    “Pera aí… A Mirena tava lá embaixo!”, o desespero bateu, mas o corpo se recusava a voltar para a escuridão. 

    Aquela coisa era um pesadelo vivo, e Mirena estava em um perigo iminente.

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