A pequena esfera de carma lutava bravamente para iluminar algo, mas o breu parecia espesso demais. Tanto a luz quanto a garota estavam afundadas na escuridão do porão.

    Mirena procurou outras formas de destrancar a porta de aço, mas seus olhos encontraram apenas mais papelada espalhada próxima aos cadáveres acorrentados.

    — “Remessa de Frutos de Carma”? “Fichário de Aventureiro”? — ela leu, com as sobrancelhas franzidas. — Quem quer que seja esse psicopata, estava estudando as vítimas antes de agir.

    Ela recolheu os papéis e caminhou de volta para a escada, sentindo a escuridão tatear suas pernas, como se tentasse puxá-la para o chão.

    — Eu preciso sair daqui… e rápido! — a ardenteriana murmurou, com suor que escorria pelo rosto.

    Mas quando a ficha do perigo caiu, já era tarde demais. O silêncio foi rompido por um estrondo colossal do outro lado do vidro, o que as paredes do porão tremerem.

    Mirena parou, seu maior erro foi a hesitação. Ao virar-se lentamente para o vidro, a própria escuridão a encarou.

    O breu se moldou como algo vivo e abriu um par de olhos brancos e vazios. Seu corpo inteiro congelou sob aquele olhar.

    Era um medo primordial, muito diferente do pavor que sentiu diante do Titã de ossos. Este era um medo não natural, um medo vivo.

    “O… que… é isso?”, ela pensou, sem forças sequer para sussurrar a pergunta, os pulmões recusavam-se a puxar o ar.

    Subitamente, uma fonte de luz fraca emanou do fundo da sala, atrás da criatura. A sombra virou-se para a luz, parecendo esquecer completamente a presença de Mirena ali.

    A garota aproveitou a brecha e disparou em direção às escadas, cortando o ar gélido e a escuridão.

    Sua pequena chama mágica já havia sido devorada pelo ambiente e deixado ela sozinha no escuro. Ou talvez, não tão sozinha assim.

    Quando chegou à base da escada metálica, tentou erguer os braços para começar a subir, mas seu braço mecânico estava completamente travado.

    O carma que movia as engrenagens parecia não fluir mais. O membro avançado tinha se tornado apenas um pedaço pesado e inerte de metal.

    — Não, não, não… — ela murmurou, enquanto amaldiçoada a própria sorte. — Não faça isso agora…

    Sem opções, ela apoiou a bota na primeira barra e enganchou o braço esquerdo, o de carne, um degrau acima.

    Na falta do braço direito, ela abocanhou a barra de metal frio para manter o equilíbrio do corpo. A cena era patética, mas necessária.

    A estratégia animalesca funcionou bem até o terceiro degrau. Então, sua bota escorregou no metal úmido e ela despencou de volta à estaca zero.

    Mirena caiu com as costas chapadas no piso de tijolos. A dor aguda tirou o ar de seus pulmões e abafou o grito que tentou escapar.

    Ela ficou estirada no chão por alguns segundos, enquanto lutava para recuperar o fôlego.

    — Como eu fui tão burra…? — a mulher resmungou, massageando a nuca dolorida com a mão. — Argh… isso vai virar um galo enorme.

    Por memória, ela tentou flexionar o braço metálico e, para sua surpresa, as juntas dobraram normalmente. O fluxo de carma havia se estabilizado de repente.

    — Tentar escalar uma escada vertical sem usar um dos braços… brilhante, Mirena. Muito brilhante — ela repreendeu a si mesma, sentada no chão.

    Foi quando a lógica a atingiu: 

    — Aquela coisa está do outro lado de um vidro blindado, sua idiota! Se pudesse me atacar, já teria rasgado minha garganta…

    Acalmando a respiração, Mirena engatinhou até os cadáveres e puxou o farrapo de roupa mais seco que conseguiu encontrar no meio da sujeira.

    Caminhou de volta até a porta de aço e, com um movimento brusco, atritou as placas do braço mecânico contra o metal da porta.

    O atrito gerou uma chuva de faíscas que caiu sobre o tecido velho. A chama não demorou a pegar, iluminando o porão muito melhor do que sua esfera de carma.

    O lugar, agora iluminado, era ainda mais grotesco e abafado. Através do vidro, ela viu que a outra sala continha móveis de metal, e o vidro em si parecia mais frágil do que ela imaginava.

    Um detalhe macabro chamou sua atenção: havia marcações talhadas na parede, como um contador de dias rústico.

    Dia vinte e nove.

    — Um mês inteiro… Parece que eu caí direto na toca do coelho — Mirena constatou, a voz carregada de pesar.

    Ao se aproximar do vidro, ela finalmente viu o corpo da mulher amarrada ao fundo. Estava pálida, magra, e já havia dado seu último suspiro há muito tempo.

    — Que Lebkraut fortaleça o fio desta alma que se foi — Mirena rezou baixo, fazendo o sinal do cervo com as mãos.

    A sombra monstruosa voltou a se formar do outro lado, colidindo contra o vidro com força, mas o impacto não produziu rachadura alguma.

    Mirena agora encarava aquele abismo frente a frente, com os olhos fixos na escuridão que se contorcia como um polvo de sombras.

    Seus olhos correram pela sala além do vidro e notaram o túnel vertical atrás da criatura. A sombra parecia relutante em subir por ele e escapar.

    Mirena aproximou a tocha improvisada do vidro e a massa sombria recuou instintivamente da claridade do fogo.

    — Um fantasma com pavor da luz… Hmph, que fraqueza conveniente — ela ironizou.

    Mirena deitou as folhas de anotações sobre uma bancada metálica e se afastou um passo. Levantou o braço direito na altura da cabeça.

    Com um balanço perfeitamente calculado, socou o vidro com o punho mecânico. Ao invés de atacar, a besta preferiu se encolher nas sombras, longe do fogo.

    A ardenteriana lançou um olhar frio e analítico sobre os cadáveres, o fantasma parecia estar se alimentando dos resquícios de carma deles.

    Seu corpo, ou o vácuo que o formava, emanava uma energia distorcida e antinatural, como se fosse um buraco negro comendo a luz.

    Silenciosamente, Mirena recolheu os papéis da guilda e separou o que parecia ser apenas lixo das anotações inúteis.

    Espalhou o papel inútil pelo chão, sobre os corpos secos, e jogou o pano incandescente por cima, iluminando o recinto em chamas altas.

    A reação foi imediata: as sombras se agitaram como tentáculos desesperados para fugir do calor, mas recusaram-se a abandonar sua fonte de alimento: os cadáveres.

    Eram como espíritos obsessores, acorrentados ao porão e engolidos pela própria ganância insaciável.

    Mirena não ficou para ver o churrasco vencido. 

    Sabia que podia sair pela porta da frente do templo, mas a curiosidade falou mais alto. Queria ver onde o túnel terminava.

    Com as chamas já consumindo o porão, ela subiu com calma pela mesma escada de ferro, que Dhaha tinha usado minutos antes, e chegou ao interior da casa abandonada.

    Dhaha estava na grama, enquanto reunia até a última gota de coragem que tinha para pular de volta naquele fosso e salvar a amiga.

    Quando finalmente se preparou para o salto, deu de cara com a cabeça de Mirena que subia pelo buraco, com o rosto coberto de fuligem.

    As expressões dos dois colidiram, mas pânico cedeu lugar a um misto de alívio genuíno e confusão completa.

    — Dhaha? — ela perguntou, piscando para afastar a fumaça.

    — Mirena, você… — Ele olhou para as labaredas que subiam do buraco e para os bolsos dela, abarrotados de papéis. — Como diabos você foi parar lá embaixo?!

    — Eu meio que… caí em buraco. Literalmente. — ela deu de ombros, ao subir o último degrau.

    “Meu Nahhashir, ela virou uma toupeira!”, Dhaha pensou. 

    O garoto esfregava o rosto e tentava processar o caos daquela noite.

    Ele deu mais uma espiada nas chamas que crepitavam no fundo da escada, o cheiro de podridão queimada subia forte.

    — Você devia tá bem ocupada ali embaixo, né? — ele comentou, com a sobrancelha erguida.

    — Eu só… garanti que aquelas pessoas tivessem um descanso em paz — ela respondeu, após tirar a poeira e caminhar para a porta da casa.

    — Bom, pelo menos acho que agora essa investigação vai andar, né? — o garoto a seguiu.

    “Ele parece bem para quem tem um porão macabro pegando fogo às suas costas”, pensou a garota.

    — Quanto antes sairmos daqui, melhor. — Ela olhou para os escombros da casa. — Mas o que a gente tá fazendo em uma…? Deixa pra lá, vamos achar a Syndona…

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota