Capítulo 27: O Culto de Nazhur
Os dois partiram em direção à sede da guilda com passos apressados. A noite não se alterava, mas a escuridão tornava cada passo mais incômodo.
A lembrança da criatura amorfa devorando o carma da mulher ainda assombrava a mente de Dhaha. Aquilo estava longe de ser uma besta mágica comum.
O que seria capaz de devorar a energia vital de um ser vivo e se alojar no corpo como um parasita daquela forma?
Dhaha, que nunca fora de recuar, estremeceu. Mesmo que agora soubesse a fraqueza da criatura, um pânico primitivo ainda estava gravado em seus ossos.
Eles trocaram poucas palavras durante a caminhada, apenas o necessário para compartilhar as descobertas: a criatura, os papéis da guilda e o templo abandonado.
Quando chegaram aos portões da guilda, a madrugada já estava no fim. Não sabiam se Syndona estaria acordada, mas a urgência não permitia pausas.
Eles cortaram o pátio pavimentado quase em alta velocidade e responderam às perguntas dos guardas de vigia com a pressa de quem foge de um incêndio.
Ao entrarem no corredor principal, deram de cara com Thalwara. Ela saía da sala da regência segurando uma xícara de café fumegante.
— Senhor Dhaha, senhorita Mirena? — ela perguntou, a sobrancelha erguida em confusão ao ver o estado deplorável dos dois.
— Thal? O que você tava fazendo na sala do regente a essa hora? — Dhaha rebateu a pergunta, direto ao ponto.
“Ele se acostumou rápido demais com esse apelido”, Thalwara pensou, com um suspiro longo.
— Bom… gulp… — Ela ignorou a insolência, ergueu a xícara de porcelana e bebeu com calma e parcimônia.
O café pareceu fazer mágica. Os ombros dela relaxaram, as bochechas coraram levemente e um sorriso mínimo surgiu nos lábios.
— Eu estava apenas trabalhando. Alguém precisa manter as coisas em ordem — ela justificou, alisando o uniforme.
— Você trabalha na sala do regente? Mas o cara não sumiu junto com as outras pessoas?
— Sim, eu sou a vice-regente… gulp… — Ela tomou mais um gole, a satisfação evidente no rosto. — Deixem-me adivinhar, foi a tagarela da Syndona que contou isso pra vocês? O caso do regente era confidencial…
Dhaha e Mirena trocaram um olhar rápido, a sorte tinha jogado a favor deles. Sem aviso, empurraram a vice-regente de volta para dentro da sala.
— Ei! Esperem! O meu café vai derramar! — ela protestou, forçada a engolir a bebida quente em um só gole para não manchar a roupa.
Em menos de um minuto, os três estavam sentados em cadeiras de couro ao redor da imponente mesa circular de madeira nobre.
— Eu espero, do fundo do meu coração, que vocês tenham motivos excelentes para estragar meus minutos de ca… de descanso — Thalwara corrigiu-se rapidamente, fuzilando a dupla com uma carranca severa.
— Desculpe a indelicadeza — Mirena tomou a frente, organizando os pensamentos. — A senhorita Syndona exigiu que resolvêssemos o caso dos desaparecimentos…
— Argh… é claro que aquela azulada exigiu isso e não me disse uma única palavra… — Thalwara enterrou o rosto nas mãos, derrotada. — Certo. Prossigam.
— Nós fomos investigar e encontramos coisas… interessantes. Creio que você vai querer ver isto.
A ardenteriana tirou o maço de papéis amarrotados do colete e os entregou. A carranca da vice-regente deu lugar a uma expressão de pura confusão.
— “Remessa de Frutos de Carma”? Onde, por Nahhashir, vocês encontraram relatórios sobre colheita de carma concentrado?
— Escondidos num porão, debaixo daquele templo antigo caindo aos pedaços — Dhaha assumiu a palavra, inclinado na mesa. — E tem mais. Tinha uma pilha de fichários de aventureiros lá. O sequestrador tava monitorando as vítimas antes de atacar.
A mulher ficou em silêncio, era humilhante e difícil crer que dois novatos tinham feito mais em horas do que seu esquadrão de elite fez em um mês.
— “Alom’Ha”… “Lynda Vene”… Estes são aventureiros experientes da nossa sede. Todos desaparecidos. — ela murmurou, ao alinhar as folhas. — Vou precisar que vocês me guiem até esse templo. Pode haver mais pistas preservadas na cena do crime.
— Não vai rolar — Dhaha cortou a ideia na raiz, sem sequer piscar.
— E por que não?
A imagem opressora da criatura amorfa assolou a mente de Dhaha, aquele abismo negro com olhos brancos devoradores de almas.
— Porque nós encontramos uma… coisa, presa lá embaixo… — O garoto engoliu em seco, puxando o ar com força.
— Não era exatamente uma besta ou um animal. Era uma coisa viva, feita de escuridão. Como um maldito fantasma — Mirena corrigiu.
Thalwara calou-se. Ela esperou que o garoto prosseguisse, seus olhos severos cravados no rosto tenso de Dhaha.
Ele estava muito mais inquieto do que o normal. A perna batia no chão em um ritmo frenético, as mãos apertavam os joelhos e seus olhos não paravam de se mover.
— Um fantasma? Vocês têm certeza? Talvez fosse um Eco-Mortal? Eles são bem parecidos com descrições de fantasmas — a voz de Thalwara saiu lenta, como se nem ela não quisesse acreditar na própria teoria.
Os Eco-Mortais eram abominações letais que matavam com gritos ultrassônicos.
— Eu duvido. Eu imagino que o que vimos tenha a ver com isto aqui. — Mirena tirou o livro negro, recém-adquirido, do bolso.
Ela deslizou o tomo esquisito pela mesa. Assim que Thalwara viu os símbolos rúnicos, a cor sumiu do seu rosto e a preocupação escapou em um suspiro trêmulo.
— O Culto de Nazhur… — O silêncio que tomou a sala era cortante. As feições apavoradas das duas mulheres falaram por si só. — Isso é muito pior do que eu imaginava…
“Culto de Nazhur?”, Dhaha alternava o olhar entre as duas, esperando ansiosamente que alguém explicasse em quem eles tinham que bater.
Quando percebeu a cara de dúvida do garoto, Thalwara assumiu uma postura de professora:
— O Culto de Nazhur é uma seita extremista que existe há séculos. Onde eles vão, sempre acontece algum atentado.
— Uma seita? Mas o que raios é um “Nazhur”? O líder deles?
— Nazhur é uma espécie de deus mitológico. As lendas antigas dizem que ele governou a antiga Arthuria na Era Perdida.
A vice-regente entrelaçou os dedos, o rosto tensionado.
— Os fanáticos que o cultuam não batem bem da cabeça. Eles sempre estão no centro de assassinatos ritualísticos e sacrifícios em massa. São lunáticos.
— Na academia em Água-Ardente, eles vivem caçando esses caras, mas o culto sempre desaparece sem deixar rastros antes da guarda chegar — Mirena completou a explicação.
— Entendi. E vocês acham que o sumiço da galera da guilda é pra fazer alguma oferenda pra esse deus aí? — Dhaha concluiu.
— Eles são megalomaníacos e não tentam ser discretos, um sacrifício em massa faz todo o sentido. Precisamos ir até lá agora mesmo.
— Então, sobre isso… A sombra estava absorvendo o carma dos corpos mortos, então eu, meio que, taquei fogo no porão inteiro. — Mirena desviou o olhar.
— Como é?!
— Eu… incinerei a sala. Os corpos, os papéis inúteis, a sombra. Tudo. — A ardenteriana encolheu os ombros, esperando a bronca. Destruir a cena do crime era um erro crasso.
— Não! Não a parte do fogo. Repita o que você disse antes disso.
— Hã… que a sombra gigante estava se alimentando do carma dos cadáveres?
Thalwara não disse mais nada. Ela se levantou de forma brusca e começou a abrir gavetas furiosamente, até encontrar um mapa detalhado de Engrenora.
Ela estendeu o papel na mesa e puxou uma caneta vermelha, tudo isso para circular e marcar cruzamentos com uma velocidade absurda.
— Desculpa a pergunta, mas o que cê tá desenhando aí, Thal? — O douradiano esticou o pescoço sobre a mesa.
— Estou marcando as áreas da cidade com as maiores concentrações de carma registradas pela guilda. Os frutos de carma são basicamente baterias de energia. Eles devem usar as oscilações para atrair essas aberrações!
A lógica dela era impecável. Se os monstros se alimentam de carma, as plantas germinadas em zonas de carma seriam a isca perfeita.
— Se cruzarmos as zonas de alta oscilação com os pontos exatos de onde as pessoas sumiram… e onde vocês viram os cultistas…
Thalwara cravou a caneta em um ponto específico do mapa, o olhar brilhava como a descoberta de um gênio.
— Aqui! A rua meia nove! É lá que eles estão operando!
— Rua meia nove? Isso fica lá na Baixa-Engrenora, não é? — Dhaha estalou os nós dos dedos, um sorriso surgindo no rosto. — Já sabemos pra onde ir.
— Acalme-se, garoto. Não temos o endereço exato. Como vocês planejam vasculhar uma rua inteira cheia de fábricas num lugar daqueles?
— Eu tenho um plano. Eu decorei o cheiro daquela sombra.
— Cheiro? — Mirena encarou o amigo como se ele tivesse perdido a sanidade.
— Você está farejando fantasmas agora? — Thalwara acompanhou a confusão.
— É sério! Aquele treco quase me matou de asfixia, o cheiro dele ficou impregnado no meu nariz. Eu acho ele.
— Dhaha, você virou um cachorro? — A ardenteriana não escondia o ceticismo.
— Só confia no pai, eu não erro. A gente vai achar o Gasparzinho da Petrobrás.
— O que é “Gasparzinho”? E “Petrobrás”?
—- Também não sei.
— Espera, quando você diz “cheiro”, você se refere à assinatura do carma da criatura, não é?
— Eu não sabia que o carma tinha cheiro, mas deve ser isso aí que você falou.
— Você passou muito rápido de um guerreiro de aço para um cão farejador. Isso é estranho e amedrontador. — Mirena deu um passo para trás.
Thalwara observou a cena, incrédula. Não sabia se ficava abismada com o fato de eles terem resolvido o caso, ou com o fato de um garoto tão jovem já conseguir detectar carma alheio.
Após mais alguns minutos de bate-boca, a dupla finalmente entrou em um acordo e voltou-se para a vice-regente.
— Bom, a noite foi longa. Vamos capotar por umas horas. Amanhã cedo a gente marcha pra essa rua meia nove — Dhaha anunciou, soltando um bocejo digno de um urso.
— Concordo. Estão dispensados, mas, por favor, redobrem a cautela amanhã — ela alertou, recolhendo a xícara vazia.
— Por que a preocupação extra?
— A Baixa-Engrenora não é tão gentil quanto a Alta-Engrenora, a lei não vai proteger vocês lá.
— Relaxa, Thal! Nós vamos chegar lá, bater nos cultistas de manto e voltar com a glória! — ele socou a própria palma.
— Nós vamos ficar bem. E tentaremos ser discretos… certo, Dhaha? — Mirena fuzilou o garoto com o olhar.
Ele assobiou, olhando para o teto e ignorando a pergunta.
— Certo. Os alojamentos vazios ficam no corredor oeste, aqui estão as chaves. — Thalwara entregou dois chaveiros de metal pesado.
A dupla saiu da sala e deixou a vice-regente sozinha com seus pensamentos e o mapa rabiscado.
“Eles resolveram em poucas horas o que nosso departamento de investigação não conseguiu em um mês…”, ela pensou, ao traçar os círculos no papel com o dedo.
Uma sensação de tristeza varreu seu rosto, trazendo à tona uma memória que ela tentava enterrar todos os dias.
“O que você faria se estivesse aqui, Aldric…?”.
Com um suspiro pesado, ela caminhou até o telefone no canto da sala e girou o disco de metal com lentidão. Alguém atendeu quase imediatamente.
— Alô? Ellenor? Sou eu, Thalwara. — Ela sentou-se na beirada da mesa. — Eu preciso de um favor. Você pode assumir a guilda para mim amanhã?

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