De um dos bolsos de Belmorth, saltou um cubo vermelho e pulsante. Ele realizava movimentos rítmicos, como um coração humano.

    O cubo cresceu grotescamente e assumiu uma forma que desafiava a sanidade de qualquer pessoa normal o visse.

    Era feito inteiramente de carne exposta. Sua estrutura lembrava um pequeno templo quadrado, mas com janelas e portas vermelhas de sangue.

    Membros humanoides se formavam e desapareciam nas paredes de músculo e rostos em agonia saltavam da carne, enquanto lutavam por ar.

    A criatura se movia criando braços e pernas instantâneos, que se tornavam carne morta logo após o uso. Ela emitia o som de gritos abafados por trás da carne.

    — Regenere-me, [Carnoféx] — sussurrou o nobre magnata, com uma calma que beirava a loucura.

    Com um passo leve, Belmorth tocou a monstruosidade. O amálgama de carne engoliu o toco de seu ombro e o braço caído.

    Em instantes, as fibras musculares se reconectaram, fundindo o membro ao corpo novamente. O braço estava novo em folha.

    — Tenho assuntos a tratar nas ruínas antigas, então deixarei a página do grimório sob tua responsabilidade — intimou o necromante.

    — Farei como desejar, meu amado Signore — Belmorth afastou-se da criatura de carne, batendo palmas suaves. — Solte a garota agora. Libere o conteúdo, [Carnoféx].

    De um dos rostos assimilados à parede do monstro, um corpo começou a se desprender. Uma jovem gelariana caiu nua ao chão da sala.

    Ela parecia estar no auge de seus dezoito anos. Não demorou a recuperar a consciência, enquanto piscava zonza para a luz do escritório.

    — Onde eu estou…? O que aconteceu? — a garota murmurou, a voz trêmula e cheia de confusão.

    — Ah… você acordou — Belmorth comentou, ajeitando a gravata branca com um sorriso gélido.

    Ao notar as duas figuras sinistras e o monstro de carne ao lado, a garota tentou cobrir o corpo, lutando contra o vômito. O cheiro de podridão na sala era insuportável. 

    — Quem são vocês? Senhor Belmorth? O que está acontecendo aqui?

    O magnata levou a mão ao bolso interno da camisa militar, e retirou um objeto pesado e metálico.

    — Sinceramente, querida? Teria sido muito melhor se você tivesse continuado a dormir para sempre.

    — O que você quer dizer com…? — Antes que ela terminasse, o som de um tiro ecoou e perfurou o crânio da jovem.

    Belmorth observou o cadáver cair sem vida, satisfeito com a precisão do disparo. Ele ainda segurava o revólver fumegante.

    Armas de fogo eram o verdadeiro terror para guerreiros que não sabiam manipular o carma para se protegerem.

    — Ela está pronta, meu Signore… ou devo dizer, minha Signore? — Ele limpou o respingo de sangue do rosto com um lenço.

    O necromante caminhou silenciosamente até o corpo. O carma sombrio se espalhou de suas mãos para o chão, ademtrando o cadáver.

    Em segundos, a garota começou a se mexer de forma dura e artificial, como uma marionete de carne e ossos.

    Com um movimento súbito, o necromante golpeou o peito do próprio corpo ardenteriano que habitava, e esmagou o coração podre.

    O monte de carne costurada desabou no chão em restos secos, sem derramar uma única gota de sangue.

    A garota morta-viva levantou-se. Agora ela se movia perfeitamente, com uma agilidade que não possuía segundos atrás.

    Ela pegou as roupas do antigo monte de carne e vestiu-se com calma. Belmorth assistia a tudo, fascinado pelo espetáculo macabro.

    “Tão belo… se moldar e remoldar com tamanha naturalidade… é simplesmente divino”, pensou o magnata. Os olhos dele brilhavam.

    A falsa gelariana testou o novo corpo. Moveu os braços, deu saltos curtos e soltou alguns grunhidos para testar as cordas vocais.

    — Parece bom o suficiente. Deve durar algumas décadas antes de apodrecer — a voz agora era feminina e aguda, porém continuava  fria. — E quanto ao restante da carga necessária para o ritual?

    Sem dizer uma palavra, Belmorth enviou um comando mental para o seu Servo. O templo de carne começou a expelir corpos.

    Primeiro um, depois cinco, dez… até totalizar trinta cadáveres de diversas raças. A maioria não era humana.

    Ao toque de [Carnoféx], as pessoas começaram a se desfigurar e se fundir em uma massa compacta e bizarra.

    Uma pequena esfera de carne concentrada e membros atrofiados formou-se diante deles, pulsando com uma energia densa.

    — Minha Signore? — Belmorth abriu caminho para a dama fúnebre, que andou até a esfera orgânica.

    Ela tateou os robes até encontrar outra esfera idêntica. Ao aproximá-las, o carma emanou como duas bolas de fogo recém acesas.

    — [Carnoféx], por favor — pediu a necromante. 

    O monstro fundiu as duas esferas em um único amálgama. O tamanho não aumentou, mas o carma acumulado ali desafiava muitos magos. Era um núcleo de poder praticamente absoluto.

    Com um puxão para ajustar as vestes, a necromante caminhou para o canto escuro da sala. 

    — Kharon, estamos de partida.

    — Sim, minha Signore — uma voz grave respondeu das sombras, uma voz capaz de fazer os ossos de Belmorth vibrarem com o impacto.

    As sombras no canto se deformaram, abrindo um portal tão escuro que não era possível ver o outro lado.

    A necromante lançou um último olhar sobre Belmorth, semelhante a uma mestra com expectativas no pupilo..

    — Em algumas horas, mandarei Kharon buscar você. O ritual começará em alguns dias, na ruína. Até lá, consiga o máximo de informações que puder sobre a pesquisa da guilda. Não admita falha.

    Ela estendeu a mão e uma pequena chama branca surgiu em sua palma. O fogo moldou-se até virar uma folha de papel antigo.

    O nobre segurou o presente com as mãos trêmulas de excitação: era uma página autêntica do grimório da primeira maga.

    — Por suposto que sim, minha amada Signore — ele confirmou, ao realizar uma mesura profunda e respeitosa.

    A defunta desapareceu no portal de sombras. Suas expectativas eram baixas, mas pesavam sobre os ombros do nobre.

    Belmorth caminhou até o monstro de carne e acariciou a textura esponjosa e vermelha que pulsava sob seus dedos.

    — Oh… você ainda está com fome, meu pequeno? — sua voz era carinhosa, como se falasse com um bicho de estimação.

    Ele removeu o terno e o colocou sobre a cadeira, exibindo a imponente camisa militar negra marcada pelo sangue da garota.

    — Senhor Belmorth? — uma voz ecoou atrás da porta, acompanhada de batidas rítmicas. Era Alastor, o operário idoso.

    O nobre virou o olhar para a porta. Seu sorriso, antes apenas perverso, agora era puramente sádico e realizado.

    “Tudo pela minha Signore… eu realmente sinto muito por isso, Alastor”, o pensamento quase escapou por seus lábios.

    Ele caminhou até a porta e convidou o velho para entrar. Os gritos de Alastor nunca cruzaram as paredes isoladas da sala.

    Enquanto a criatura se divertia, Belmorth observava o trabalhador lutar inutilmente por sua vida, fascinado pela agonia alheia.

    O magnata era a encarnação viva do símbolo tatuado em seu pescoço: a marca de Nazhur. O caos estava apenas começando.

    O culto não conhecia o medo ou o silêncio. Eles eram um tumor que sempre deixava cicatrizes profundas naqueles que cruzavam seu caminho.

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