Capítulo 3: Quebra-Cabeça Mal Cheiroso
A silhueta da criatura era imensa. A queda da nuvem de poeira, causada pelo impacto do monstro, apenas a tornou mais ameaçadora.
Pele acinzentada e robusta, recoberta por músculos enormes e deformados que pareciam prestes a rasgar o tecido morto. O cheiro de decomposição era insuportável.
Marcas de costura grosseiras cruzavam seu corpo, ligando forçadamente partes mal encaixadas e claramente não compatíveis de diferentes cadáveres.
Era como ver um quebra-cabeça mal encaixado, pútrido e movido por uma vontade que ninguém ali conseguia compreender.
Seu braço direito, desproporcionalmente mais robusto, tinha uma imunda maça metálica acoplada a ele, enquanto o esquerdo era armado com uma adaga longa e serrilhada.
Mas não bastava a criatura horrenda. Pequenos esqueletos humanoides surgiam das frestas e sombras, cercando as pessoas em pânico na praça.
Alguns portavam armas rudimentares: pequenas espadas cegas e escudos lascados. Outros usavam bestas e disparavam contra quem tentava fugir.
Havia ainda aqueles com correntes e cordas, aprisionando alguns sobreviventes como se fossem gado. Um exército ósseo em miniatura.
Dhaha não se importou com a aparência bizarra daquela coisa. Ele não era do tipo que recuava diante de um rosto feio ou de uma morte certa.
O garoto cruzou a praça em uma velocidade atlética invejável, enquanto desviava das barracas de comida destruídas e das pessoas que corriam por suas vidas.
Golpeava os esqueletos no caminho sem diminuir o passo. O metal de sua espada estraçalhava as costelas secas dos mortos-vivos, abrindo caminho.
Mesmo com seu montante pesado, o garoto se movia sem qualquer restrição física aparente. Seu treinamento intenso havia apagado o peso de sua arma.
Não demorou a chegar diante do gigante. Com um grito de guerra, ele golpeou as mãos da criatura para tentar desarmar aquela maça colossal.
O choque metálico do golpe ecoou por todo o local, fazendo os ouvidos de quem estava perto zumbirem com a vibração violenta.
— Pra algo tão grande, você até que é rápido — disse Dhaha, com um olhar preocupado. O gigante havia bloqueado seu ataque com facilidade.
A troca de golpes começou de fato. Ambos portavam armas pesadas, e cada colisão fazia o ar tremer ao redor dos combatentes.
Os golpes não eram rápidos, mas possuíam uma força devastadora que rachava o solo. O impacto da maça contra a montante levantava faíscas amarelas.
Dhaha não estava controlando seu carma, mas seu corpo já sentia o peso de lutar contra algo daquela magnitude.
Precisava tirar vantagem de algo, e rápido. A força bruta do monstro era claramente superior à sua.
— Só te encher de porrada não vai me salvar agora, né? — murmurou ele, enquanto mantinha a pose de ataque firme.
— Roaaaaar!!! — o gigante respondeu com um urro que cheirava a carne podre, fazendo o peito de Dhaha vibrar.
Definitivamente, ele não estava lutando com algo humano. Era uma máquina de carne costurada, desprovida de cansaço, medo ou hesitação.
O monstro golpeou-o na vertical. Dhaha tentou se defender, mas sentiu que sua montante quase se estilhaçou com o impacto absurdo.
Seguiu-se uma sequência de golpes esmagadores. O garoto só podia se contentar em esquivar, de um lado para o outro como uma presa.
Cada acerto que passava raspando, rompiam o chão de pedra abaixo de Dhaha, lançando estilhaços de granito para todos os lados.
Sempre que o garoto tentava devolver o golpe, a criatura já tinha outro ataque preparado, como se antecipasse seus movimentos da forma mais simples possível.
O ritmo do douradiano estava completamente quebrado. Ele não conseguia encontrar a brecha necessária para um corte profundo.
“Essa almôndega não dá abertura. O jogo é teu por acaso?”, pensou Dhaha, ao sentir o suor quente escorrer pelo rosto e arder nos olhos.
Ele saltou o mais longe que pôde, em busca de distância e tempo. Precisava de alguns segundos para respirar e mudar sua estratégia de combate.
“Essa coisa tá golpeando igual louco, e sem padrão nenhum. Se eu vacilar um segundo, viro patê de douradiano na praça.”
Ele abaixou a espada até a altura da cintura. Fechou os olhos por um breve momento e buscou o centro de sua energia vital, o núcleo do seu poder.
Puxou o ar profundamente pelo nariz, sentindo o oxigênio queimar, e soltou-o pela boca logo a seguir. Ao abrir os olhos, pareciam dois sóis tamanho o seu brilho.
Seu corpo foi instantaneamente coberto pelas chamas brancas do carma. A temperatura ao seu redor subiu, uma onda de calor surgiu no ar.
Avançou novamente sobre a criatura. O zumbi tentou impedi-lo com um soco lateral, mas Dhaha deslizou por baixo e golpeou os flancos.
O montante de Dhaha não estava mais em suas mãos. Em seu lugar, em um lampejo metálico, surgiu um par de espadas curtas e ágeis.
— [Metalóxis]! — gritou ele, iniciando uma onda de ataques frenéticos, que o gigante não conseguia mais acompanhar facilmente.
Os cortes não eram profundos o suficiente para derrubar aquela montanha de carne, mas eram velozes e constantes, e picotavam a massa cinzenta de monstro.
O som da carne esponjosa se partindo era como música para os ouvidos do douradiano. Cada corte arrancava um naco daquela estrutura podre e fétida.
Não havia sangue para jorrar, apenas pedaços secos que se separavam do resto. A grande costura que mantinha a criatura estava sendo desfeita à força.
O gigante começou a recuar, seus passos pesados agora eram incertos. Seu corpo maciço era lento demais para as armas rápidas de Dhaha.
O som da batalha ao redor crescia em volume. O tilintar de aço contra osso se misturava aos gritos de guerra que vinham de todos os lados.
— Aventureiros! Em posição! — Uma voz imponente e clara se destacou no meio da confusão generalizada que assolava Eldon.
Era um aventureiro veterano. Alto, de cabelos longos e pele bronzeada pelo sol das estradas. Era Cucca Beludo, conhecido na cidade como um farol em meio ao caos.
— Avante! Não deixem esses sacos de ossos avançarem mais sobre os civis! — ordenou ele, liderando a carga contra os esqueletos.
Os mercenários sacaram suas armas com um vigor renovado. Espadas e bestas entraram em ação, perfurando e partindo a horda óssea.
Mirena não perdeu tempo. Viu uma espada jogada de canto, provavelmente de algum guarda sem sorte, e a empunhou.
Correu na direção das criaturas menores e destruiu dois esqueletos distraídos, com golpes precisos e potencializados por seu braço mecânico.
Sua arma brilhava com uma aura branca encantada. Mesmo sem ser uma guerreira nata, o carma a tornava letal contra aqueles quase-mortos.
“Veteranos são incríveis, isso é muito difícil”, pensou a garota.
“O caramba que vamo perder de novo pra uma andarilha de braço de lata!”, pensaram os veteranos, recuperando a sobriedade no susto.
Ao verem a ardenteriana lutar, os outros aventureiros sentiram que não podiam deixar uma simples andarilha brilhar sozinha.
Auras de carma começaram a brilhar por toda a praça, como um grande céu estrelado. O campo de batalha estava iluminado por guerreiros reais.
Mirena voltou sua atenção para o centro da praça: Dhaha tinha a vantagem agora, mas o gigante parecia se regenerar e ignorar a dor.
Ele estava sozinho contra aquela abominação. Os aventureiros estavam ocupados demais contendo a horda de esqueletos para ajudá-lo.
“Ele tá segurando aquela coisa sozinho… mas o carma está oscilando”, Mirena pensou, ao analisar o cansaço do garoto.
A praça estava em frangalhos. Bancos destruídos, as chamas das tendas e o cheiro de álcool dos barris quebrados impregnavam o ar pesado.
— Espera. O álcool… as chamas… É isso! — concluiu ela em voz alta, com um estalar de dedos para o céu.
Ela não ia ficar apenas assistindo. Se Dhaha era o escudo e a lâmina, ela seria o fogo que Eldon precisava.


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