Capítulo 30: Baixa-Engrenora
Os dois mal acabaram de preparar seus equipamentos e já estavam ao pé da colossal torre do relógio.
A grande edificação funcionava como o portão de ferro que separava dois mundos distintos: a evoluída Alta-Engrenora da temida Baixa-Engrenora.
Os ponteiros de aço não deixavam abertura para enganos: dez horas da manhã, em ponto.
Lá embaixo, as casas eram abarrotadas umas sobre as outras como um castelo de cartas, sufocadas pela fumaça das fábricas.
O céu era acinzentado e cuspia chuva ácida, enquanto o lixo era revirado por mãos desesperadas em busca de sustento.
Mirena fazia uma expressão complicada, uma mistura de pena com um desgosto que ela tentava, sem sucesso, esconder.
— Pronta? — disse Dhaha, trazendo-a de volta à realidade com um toque no ombro.
A mulher pousou a mão na lateral de seu colete de couro, checando se suas ferramentas e o livro misterioso ainda estavam lá.
— Vamos… — Mirena engoliu em seco, enquanto sentia o peso da responsabilidade esmagar sua confiança.
Desceram o barranco por um chão de terra batida e barrenta, que tentava roubar o equilíbrio a cada passo em falso.
Conforme se aproximavam, sentiam os olhares curiosos e famintos dos habitantes caírem sobre eles como lâminas.
As pessoas vestiam trapos surrados e seus corpos eram marcados por cicatrizes e hematomas de brigas por migalhas.
O primeiro detalhe que passou pela mente da garota foi outro: quase ninguém ali era humano. Era um depósito de raças descartadas pelo progresso da Alta-Engrenora.
Viram um grupo de crianças brincando com uma bola de couro mal costurada, que se rompeu em pedaços diante de seus olhos.
Os pequenos não choraram, apenas se dirigiram à montanha de lixo mais próxima para garimpar algo que pudesse substituí-la.
Não muito longe, uma das grandes fábricas rugia de forma sufocante, expelindo fuligem sobre os operários cobertos de graxa.
Do alto dos telhados de zinco, figuras em mantos de couro os observavam com olhos afiados como os de raposas durante uma caçada.
— Esse lugar me causa calafrios — murmurou a ardenteriana, enquanto afagava o braço metálico para dissipar a tensão.
— Sim… isso nem parece uma cidade… É só uma grande fábrica — Dhaha devolveu, o desconforto evidente em sua voz.
A Baixa-Engrenora era um lixão organizado. O mar de metal e nuvens negras formava a área industrial, onde as pessoas faziam suas casas e tentavam ter suas vidas.
As gaiolas de metal fundido, que os engenheiros chamavam de máquinas, eram as únicas companheiras daqueles trabalhadores condenados.
A área comercial era inexistente, resumindo-se a uma praça aberta onde se gritava por trocas de objetos achados no entulho.
Do alto de algumas casas, “guarda-costas” os encaravam, figuras encapuzadas estáticas com armas improvisadas.
— Vamos precisar de informações se quisermos concluir isso com excelência — comentou Mirena, ao analisar as barracas de venda.
— É só perguntar pra qualquer um? — Dhaha sugeriu, enquanto cogitava perguntar algo como “Bom dia, você viu sequestradores com roupas ameaçadoras?”. — Talvez com dinheiro?
— Talvez, mas vamos tentar o método diplomático primeiro. Nosso ouro não é infinito.
Mirena aproximou-se de um vendedor que parecia menos soterrado pelo trabalho: um douradiano com uma bandana de pasteleiro na cabeça.
— Olha o pasteeeeel!!! — O homem berrou, fazendo os ouvidos de Mirena zunirem.
— Senhor? — ela chamou, ao tentar manter a postura acadêmica em meio ao cheiro de fritura e esgoto.
— Hahaha! A senhora quer um pastel de vento ou um de carma? — Ele reconheceu a raça dela no mesmo instante.
— Na verdade… — A ideia era tentadora, o pastel era de qualidade, pelo menos. — Eu preciso perguntar algumas coisas.
— Vixi! Não foi eu não! Eu tava em casa dormindo!
— O que não foi você? Eu nem fiz a pergunta ainda…
— Num era uma acusação da guilda? — O homem relaxou, ao limpar as mãos no avental sujo. — Ah bom, então manda.
A esperança de Mirena decaia a cada frase, mas o mistério dos desaparecidos falava mais alto que a estupidez do momento.
— Estamos atrás dos desaparecidos da Alta-Engrenora. Soube de algo?
— Aaaah… A guilda teve aqui perguntando issaê também. Mandaro vocês pra terminar o serviço que eles não queriam fazer?
— Mas e aí? O senhor sabe de algo? — Dhaha adentrou a conversa.
— Iiiih! Eu não quero problema pro meu lado não. O silêncio aqui é o que mantém a cabeça no pescoço.
— São somente algumas perguntas simples. O senhor é um cidadão de bem, não? — Mirena tentou usar a lógica.
— Tá… pergunta! Mas seja rápida que o pastel tá queimando!
— Notou alguma coisa ou alguém estranho circulando por aqui recentemente?
O homem parou por alguns segundos, a fala pareceu entalada na garganta enquanto olhava para os lados, nervoso.
— Olha, dizem as más línguas que ontem de noite, um povo de manto preto apareceu por aqui. Isso é tudo.
— Entendi. E o senhor… — Mirena ia continuar, mas Dhaha foi mais rápido e prático.
— Talvez isso refresque sua memória. — O douradiano colocou uma moeda de ouro sobre o balcão. — E eu quero um pastel.
— Dhaha… — ela sussurrou, mas o efeito foi imediato e milagroso.
— Nossa! Me lembrei de tudo! — O vendedor guardou a moeda com uma velocidade sobre-humana. — Eram guardas das fábricas, a mando do chefe.
Dhaha encarou a garota com o olhar vitorioso de uma criança que acabou de ganhar uma aposta impossível.
— E você sabe o que esses guardas queriam com o “povo estranho”?
— Num tenho certeza, num me lembro bem desse detalhe… — O homem fez beicinho, olhando para o teto.
— Droga! — O orgulho de Dhaha murchou por um segundo, mas o vendedor ainda não tinha terminado o jogo.
— Mas então, querem saber isso por quê? Estão caçando briga com peixe grande?
— Não sei, não me lembro bem… — Dhaha devolveu a provocação, ao cruzar os braços com um sorriso de canto.
— Talvez isso refresque sua memória. — Agora foi a vez do vendedor colocar a moeda de volta na mesa, desafiador.
— Nossa! Me lembrei.
Mirena sentiu seu cérebro derreter enquanto a lógica daquela negociação fugia de seu alcance.
— Nós estamos a mando da guilda. É um serviço oficial — Dhaha continuou
— Aventureiros? Daqueles que morrem na primeira esquina?
— Não lembro. — Dhaha entrou na brincadeira, bloqueando a informação.
— Droga! — O vendedor riu. — Vocês são espertos.
— Mas então, sabe quem é o chefe? Ele parece um candidato a ser nosso suspeito.
— Não sei, não me lembro bem… — O vendedor estendeu a mão para a moeda.
— Talvez isso refresque sua memória.
A mesma moeda voltou para a mesa. Mirena já havia desistido de usar alguma lógica para essa conversa.
— Você é bom em negócios, garoto.
“Ele é?!”, pensou Mirena, no último fio de sanidade.
— O líder é o tal do Belmorth Rubrae. Um granfino que ganhou status e dinheiro mais rápido que fogo em palha seca.
Ele guardou a moeda definitivamente, satisfeito com o lucro e com a diversão daquela manhã cinzenta.
— De brinde: parece que ele tava atrás de umas pessoas. Muita gente “limpinha” da Alta-Engrenora veio parar aqui de noite.
— Entendo… Muito obrigada, senhor pasteleiro. Vamos investigar esse tal de Rubrae.
— Nada! Negócios são negócios! Aliás, qual o nome do garoto bom de bico?
— Não me lembro… — Dhaha provocou uma última vez.
— Talvez isso refresque sua memória? — O homem ameaçou pegar outra moeda, mas Dhaha foi mais rápido.
— Nossa! Me lembrei! É Dhaha Sulfazyan. E cadê meu pastel? — Ele colocou a moeda original no balcão.
Mirena repensou toda a sua educação acadêmica. Dhaha tinha conseguido informações e comida em cinco minutos de conversa fiada.
— Que foi? Quer um pedaço? Tá quentinho — Dhaha ofereceu o pastel, mas a garota o afastou com um gesto de mão.
— Eu acho que não vou querer ver um pastel por um bom tempo. Agradecida.
Os dois seguiram rumo, dessa vez em direção às fábricas da rua meia nove. Com as informações que tinham, já possuíam um grande suspeito em mente: Belmorth Rubrae.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.