Chegaram até a área residencial improvisada, onde o metal e a pedra formavam o cenário. Mirena caminhava a passos lentos e seus olhos não paravam em um ponto fixo.

    A sensação de ser observada crescia a cada metro percorrido. Os olhares não vinham apenas das janelas quebradas, mas de muito mais alto.

    Os encapuzados que antes apenas vigiavam, agora bloqueavam estrategicamente os becos e as rotas de fuga. O cerco estava fechado.

    — Dhaha, tem algo estranho… — sussurrou a ardenteriana, a mão direita pairava sobre o braço mecânico.

    Antes que o douradiano pudesse responder, uma voz rouca e jovem ecoou do topo de um barraco de zinco.

    — Cês não são daqui. Perderam algo ou tão só querendo se perder? — a pergunta veio carregada de escárnio.

    Um dos encapuzados saltou, caindo entre os dois com um impacto que ergueu uma cortina de poeira.

    O manto de couro escondia um corpo pequeno, mas robusto. O rosto jovial contrastava com os olhos pretos como carvão, afiados como os de um predador.

    — Estamos de passagem. Apenas isso — respondeu Dhaha, seco, ao terminar o resto do seu pastel com uma única mordida audaciosa.

    O garoto encapuzado soltou um riso alto e tapou a boca com a mão, como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do dia.

    — Não, cara… acho que cê não entendeu como a engrenagem gira por aqui — ele disse, ao revelar um taco de beisebol feito de aço. — Não existe “só de passagem” nessas bandas. Cês só precisam colaborar, eu quero as armas. Agora.

    Mirena e Dhaha entraram em posição de combate instantaneamente. Vários vultos saíram das vielas, a emboscada estava montada.

    — Entreguem as armas e eu deixo o resto passar, só dessa vez — anunciou o líder da gangue, apontando a arma.

    — Quantos você contou? — Dhaha perguntou, enquanto sacava sua espada, que brilhava com um resquício de carma.

    — Sete. Dois gelarianos à esquerda, três ardenterianos atrás, um douradiano à direita e esse aí na frente — Mirena recitou, gélida.

    — Eles não parecem grande coisa. Acabamos com isso rápido — Dhaha sorriu, os ombros relaxados e prontos para o bote.

    — Só você que está dizendo… — Mirena murmurou, ao preparar o fluxo de carma em seu braço metálico.

    O líder avançou e, com ele, o bando saltou. Dhaha não perdeu tempo: afastou o primeiro com um chute potente no peito e um golpe de guarda.

    Mirena recebeu uma investida de adaga com o braço mecânico. O som do metal colidindo ecoou antes de ela aplicar um chute certeiro nos países baixos do agressor.

    — [Metalóxis]! — gritou Dhaha, enquanto transformava sua espada em um martelo pesado em um milissegundo.

    Ele girou o corpo e utilizou a força centrífuga para varrer dois oponentes de uma vez. O impacto mandou os assaltantes para tão longe que gemeram de dor.

    Mirena finalizou o que Dhaha havia afastado, afundou o rosto do sujeito no barro com um gancho de direita. Os outros, ao verem a surra, bateram em retirada.

    — O quê?! — O líder, vendo-se sozinho, cobriu-se em carma e saltou sobre Dhaha.

    O choque das armas soprou a poeira ao redor. O garoto encapuzado era pequeno, mas revelou-se um esgrimista razoável.

    “Um usuário de carma?”, pensou Dhaha, surpreso. O moleque não apenas balancava o bastão metálico, mas movia-o com uma precisão absurda.

    A troca de golpes se intensificou, mas a vantagem era claramente do douradiano. Dhaha lia os movimentos do adversário como um livro aberto.

    — Você tem muitas aberturas — Dhaha corrigiu, bloqueando um golpe descendente com facilidade.

    — Não ferra comigo! — gritou o garoto, as veias do pescoço saltavam devido ao esforço de sustentar o embate.

    Dhaha decidiu encerrar a brincadeira. Liberou uma fração de seu carma e lançou uma sequência de golpes que pressionaram o ar e fizeram os escombros tremerem.

    O último impacto arremessou o encapuzado contra um monte de vigas enferrujadas. Qualquer pessoa comum estaria morta, mas ele se levantou.

    — Ainda não! — Ele sacou o bastão com as duas mãos. A arma brilhou com chamas albinas, capazes de distorcer o ar ao redor.

    “O controle de carma dele melhorou”, notou Dhaha, segurando seu martelo com as duas mãos agora, em respeito ao esforço do garoto.

    As armas se chocaram com um estrondo que rachou o solo barrento. O encapuzado recuou, mas suas pernas cederam, o peso do carma de Dhaha era demais.

    Ele caiu sentado e o bastão escapou de suas mãos trêmulas, não havia mais energia para lutar.

    — Quem são vocês? — gritou o jovem caído, ofegante e derrotado.

    — Acha mesmo que está na posição de fazer perguntas? — Mirena caminhou até ele, com o olhar pragmático de quem já perdeu a paciência.

    — Tsc! — O garoto cuspiu para o lado, encarando-os com rebeldia. — Acham que vão conseguir algo de mim? Hahaha!

    Dhaha o ergueu pela gola e tirou-o do chão sem esforço. O manto caiu, o que revelou um rosto jovem e um par de orelhas longas e pontudas.

    “Uma criança?!”. Os olhos de Dhaha se arregalaram. 

    O garoto não devia ter mais de dezoito anos, apesar da perícia em combate.

    — É raro encontrar usuários de carma por aqui, ainda mais um ardenteriano tão novo — Mirena comentou, ao analisar o rosto espetado do menino.

    — Melhor levar pra guilda? — perguntou Dhaha, que balançava o jovem como se fosse um saco de batatas.

    — Talvez. A senhorita Thalwara vai adorar conversar com um “velho amigo” de Engrenora — Mirena sorriu de forma levemente sádica.

    — Espera… Thalwara? Aquela Thalwara?! — O garoto paralisou. O nome da Raposa Relâmpago parecia ser um gatilho.

    — Oh, você a conhece? Ótimo. Ela tem métodos muito… convincentes para fazer as pessoas cooperarem — Mirena continuou, alimentando o medo do jovem.

    O moleque sentiu o sangue gelar. Na Baixa-Engrenora, o nome de Thalwara era sinônimo de interrogatórios dos quais ninguém saía sem falar

    — Parou, parou! Vamo conversar! Vocês são gente boa, eu vi logo de cara! — ele exclamou, enquanto tentava mudar o tom desesperadamente.

    O sorriso de Mirena se ampliou, ela adorava quando a “diplomacia” funcionava com tanta eficiência.

    — Que bom que chegamos a um acordo. Pode abaixar ele, Dhaha — ela ordenou, com uma falsa inocência que assustou até o douradiano.

    — Qual o seu nome? — Dhaha perguntou, enquanto mantinha a mão firme na blusa do garoto para evitar fugas.

    — Daten… Stajäger… — respondeu ele, agora completamente coagido pela menção à autoridade da guilda.

    — Parabéns, você lutou bem, Daten. Vai ser um grande guerreiro se não morrer antes — Dhaha elogiou, para a surpresa do menino.

    Daten perdeu o ar por um segundo, desarmado pelo elogio sincero, mas a voz de Mirena o trouxe de volta à urgência da situação.

    — Muito bem, Daten… — Ela bateu palmas, aproximando-se. — Vamos começar nossa pequena conversa?

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