Capítulo 32: Pequena Promessa
O grupo se afastou da área aberta e buscou refúgio da cidade movimentada sob um amontoado de escombros e um teto de metal retorcido.
Daten estava sentado no chão úmido, as costas contra uma viga metálica e os braços amarrados por cordas, que Dhaha fez nós improvisados.
— Tá bom, Daten. Vamos começar com algo simples — disse Dhaha, de braços cruzados e a postura de quem não cairia em qualquer truque barato. — Por que vocês nos emboscaram?
O jovem ardenteriano cuspiu no chão, os olhos brilhando com um escárnio que parecia ser sua única armadura contra o mundo.
— Cês são gente nova na região, o que achou que ia rolar? Que a gente ia receber cês com tapete vermelho e um buquê de flores?
— Então você e seu grupo são apenas assaltantes de rua? — Mirena interveio, sua voz soava pragmática, da forma que tanto irritava os locais.
— Não viaja, mulher. Eu nem conheço aqueles caras direito. Eles só tavam por perto quando a oportunidade surgiu.
— Então por que se juntar a eles? — questionou a maga, com uma de suas sobrancelhas finas arqueada.
— Aqui, na Baixa-Engrenora, a gente segue a lei do mais esperto. É melhor ajudar alguém a roubar e dividir os lucros do que bancar o herói e não ganhar nada além de um buraco na barriga.
A mente de Dhaha travou por um instante. Para alguém criado com ideais de cavalheirismo e heroísmo, era difícil acreditar que a sobrevivência ali era uma moeda tão suja.
— Você parece bem jovem pra falar com tanta amargura — o douradiano comentou, suavizando o próprio tom. — Você vive aqui há muito tempo?
Daten soltou uma risada sincera e contagiante, embora repleta de uma ironia pesada que não condizia com sua aparência de nove anos.
— Se eu tô aqui há muito tempo? Eu nasci nesse ferro-velho, heroizinho! Eu aprendi a correr antes de aprender a escrever meu próprio nome.
Ele carregava marcas profundas nos nós das mãos e cicatrizes, eram a prova de que sua infância nunca existiu. A vida não fora gentil com o garoto.
O garoto cruzou as pernas e baixou a voz, seus olhos pretos como carvão varreram as frestas do esconderijo para garantir que ninguém mais ouvia.
— Olha, eu não sei o que vocês dois tão tentando fazer, mas esse lugar não é um parquinho. Ninguém que nasceu aqui consegue uma vida boa. Isso é só conto de fadas da Alta-Engrenora.
Ele fez uma pausa, a expressão exausta de quem já viu a mesma tragédia se repetir em cada canto daquele lixão.
— Ninguém nesse lugar é amigo de ninguém. Ou você rouba pra comer, ou você se mata de trabalhar na fábrica de armas pra ganhar migalhas. Não tem terceira opção.
Mirena apertou o braço metálico. Ela queria negar, dizer que sempre havia uma escolha, mas o cheiro de óleo e carne podre que emanava daquele lugar era uma prova irrefutável do contrário.
— Muito bem, vamos mudar de assunto então — Dhaha guiou o interrogatório, ao perceber que o sentimentalismo não levaria a lugar algum. — Se você vive aqui, deve conhecer muita gente.
— Eu conheço uma galera aí, por quê? Querem que eu apresente vocês pro prefeito do lixo?
— Você já viu alguém coberto por um manto preto? Alguém que carregava um símbolo estranho?
Daten engoliu em seco. Seu coração pareceu pular uma batida, e o suor frio brotou instantaneamente em sua testa escura.
A reação foi idêntica àquela que ele teve ao ouvir o nome de Thalwara, mas carregada de um tipo de pavor muito diferente.
— Já… — falou o garoto, quase em um sussurro inaudível. — Vocês tão mesmo atrás desses caras?
Mirena e Dhaha trocaram um olhar cúmplice, o silêncio deles foi a resposta mais clara que Daten poderia receber.
— Essa gente é problema de outro nível. Cês tão loucos se pretendem colocar os pés na Rua Sessenta e Nove.
— Como você sabe que estamos indo para a Rua Sessenta e Nove? — Mirena deu um passo à frente, a aura de seu carma começou a oscilar.
Daten respirou profundamente, como se estivesse prestes a mergulhar em um lago muito fundo.
— Porque é pra lá que eles levam quem eles “gostam”. E aqui na Baixa, todo mundo sabe que ninguém volta de lá, nem as cinzas.
Dhaha abaixou a cabeça ao sentir o peso da confirmação. Os cultistas de Nazhur estavam operando sob o nariz da guilda, e Belmorth era o facilitador.
— Era por isso que você queria nossas armas? — Dhaha perguntou, sua voz agora séria e sem qualquer traço de brincadeira. — Você pretendia invadir a fábrica?
— Era — o garoto completou, a voz desprovida de orgulho.
Ele parecia subitamente muito menor do que o guerreiro que enfrentara Dhaha minutos antes.
— Então você viu eles levando alguém recentemente? — Mirena pressionou. — Eles têm reféns lá dentro agora?
O silêncio pesou como uma montanha de chumbo sobre o grupo. Daten tentava falar, mas as palavras estavam entaladas em sua garganta.
Ele desviou o olhar e fixou-o em um pedaço de metal no chão. A angústia em seu rosto era quase palpável, não era necessário dizer uma palavra sequer.
— Daten… — Dhaha aproximou-se e, com um movimento rápido da mão, desatou os nós que prendiam os punhos do garoto. — Fique tranquilo. Nós vamos salvar essas pessoas. Apenas espere aqui ou vá para algum lugar seguro, deixe o resto com a gente.
O douradiano se levantou, ajeitou a espada na cintura e fez um sinal para Mirena. Juntos, eles começaram a caminhar em direção à saída do refúgio.
Daten ficou para trás, imóvel sobre os escombros, observando as costas dos dois aventureiros que acabara de tentar roubar.
Eles o deixaram livre, mesmo após a emboscada. Eles carregavam uma determinação que Daten há muito tempo tinha perdido, ou que talvez nunca teve o luxo de possuir.
Ele soltou o ar pelo nariz, foi uma risada curta e sem som, oca. Não havia nada que pudesse fazer, era apenas uma criança.
“Nós vamos estar sempre juntos”, um clarão de memória atravessou sua mente como uma lâmina de gelo.
A imagem de uma pequena ardenteriana, ela o seguia e segurava sua mão com dedos finos e sujos de graxa. Aquilo martelou sua consciência, uma promessa de infância feita em um mundo que não perdoa promessas.
O rosto da menina, agora provavelmente trancado em alguma cela fria da Rua Sessenta e Nove, havia se tornado um peso insuportável em sua alma.
— Maldição! — Daten se levantou em um salto, chutando uma lata de óleo velha. — Ei! Vocês dois! Esperem!
Mirena e Dhaha se viraram, surpresos pela súbita explosão de energia do garoto. Daten não parecia mais aquele ladrãozinho acuado.
Ele carregava um sorriso raivoso na face e chamas ardentes de carma começavam a tremeluzir em seus olhos pretos.
— Eu… eu levo vocês. Não garanto que a gente saia vivo, mas eu conheço um caminho que os olhos e os guardas de Rubrae não cobrem direito.
Dhaha abriu um sorriso largo e bateu um punho contra a palma da mão, enquanto Mirena apenas suspirou. Ela preferiu guardar o sarcasmo para depois.
— Ótimo — disse o douradiano. — Então vamos logo, Daten. Temos pessoas pra salvar e uns cultistas pra chutar.
— Só não se acostumem — resmungou Daten, já tomando a frente. — Eu só quero o que é meu de volta.
O caminho para a fábrica de Belmorth estava oficialmente aberto, e o cheiro de metal derretido nunca pareceu tão próximo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.