O grupo se afastou da área aberta e buscou refúgio da cidade movimentada sob um amontoado de escombros e um teto de metal retorcido.

    Daten estava sentado no chão úmido, as costas contra uma viga metálica e os braços amarrados por cordas, que Dhaha fez nós improvisados.

    — Tá bom, Daten. Vamos começar com algo simples — disse Dhaha, de braços cruzados e a postura de quem não cairia em qualquer truque barato. — Por que vocês nos emboscaram?

    O jovem ardenteriano cuspiu no chão, os olhos brilhando com um escárnio que parecia ser sua única armadura contra o mundo.

    — Cês são gente nova na região, o que achou que ia rolar? Que a gente ia receber cês com tapete vermelho e um buquê de flores?

    — Então você e seu grupo são apenas assaltantes de rua? — Mirena interveio, sua voz soava pragmática, da forma que tanto irritava os locais.

    — Não viaja, mulher. Eu nem conheço aqueles caras direito. Eles só tavam por perto quando a oportunidade surgiu.

    — Então por que se juntar a eles? — questionou a maga, com uma de suas sobrancelhas finas arqueada.

    — Aqui, na Baixa-Engrenora, a gente segue a lei do mais esperto. É melhor ajudar alguém a roubar e dividir os lucros do que bancar o herói e não ganhar nada além de um buraco na barriga.

    A mente de Dhaha travou por um instante. Para alguém criado com ideais de cavalheirismo e heroísmo, era difícil acreditar que a sobrevivência ali era uma moeda tão suja.

    — Você parece bem jovem pra falar com tanta amargura — o douradiano comentou, suavizando o próprio tom. — Você vive aqui há muito tempo?

    Daten soltou uma risada sincera e contagiante, embora repleta de uma ironia pesada que não condizia com sua aparência de nove anos.

    — Se eu tô aqui há muito tempo? Eu nasci nesse ferro-velho, heroizinho! Eu aprendi a correr antes de aprender a escrever meu próprio nome.

    Ele carregava marcas profundas nos nós das mãos e cicatrizes, eram a prova de que sua infância nunca existiu. A vida não fora gentil com o garoto.

    O garoto cruzou as pernas e baixou a voz, seus olhos pretos como carvão varreram as frestas do esconderijo para garantir que ninguém mais ouvia.

    — Olha, eu não sei o que vocês dois tão tentando fazer, mas esse lugar não é um parquinho. Ninguém que nasceu aqui consegue uma vida boa. Isso é só conto de fadas da Alta-Engrenora.

    Ele fez uma pausa, a expressão exausta de quem já viu a mesma tragédia se repetir em cada canto daquele lixão.

    — Ninguém nesse lugar é amigo de ninguém. Ou você rouba pra comer, ou você se mata de trabalhar na fábrica de armas pra ganhar migalhas. Não tem terceira opção.

    Mirena apertou o braço metálico. Ela queria negar, dizer que sempre havia uma escolha, mas o cheiro de óleo e carne podre que emanava daquele lugar era uma prova irrefutável do contrário.

    — Muito bem, vamos mudar de assunto então — Dhaha guiou o interrogatório, ao perceber que o sentimentalismo não levaria a lugar algum. — Se você vive aqui, deve conhecer muita gente.

    — Eu conheço uma galera aí, por quê? Querem que eu apresente vocês pro prefeito do lixo?

    — Você já viu alguém coberto por um manto preto? Alguém que carregava um símbolo estranho?

    Daten engoliu em seco. Seu coração pareceu pular uma batida, e o suor frio brotou instantaneamente em sua testa escura.

    A reação foi idêntica àquela que ele teve ao ouvir o nome de Thalwara, mas carregada de um tipo de pavor muito diferente.

    — Já… — falou o garoto, quase em um sussurro inaudível. — Vocês tão mesmo atrás desses caras?

    Mirena e Dhaha trocaram um olhar cúmplice, o silêncio deles foi a resposta mais clara que Daten poderia receber.

    — Essa gente é problema de outro nível. Cês tão loucos se pretendem colocar os pés na Rua Sessenta e Nove.

    — Como você sabe que estamos indo para a Rua Sessenta e Nove? — Mirena deu um passo à frente, a aura de seu carma começou a oscilar.

    Daten respirou profundamente, como se estivesse prestes a mergulhar em um lago muito fundo.

    — Porque é pra lá que eles levam quem eles “gostam”. E aqui na Baixa, todo mundo sabe que ninguém volta de lá, nem as cinzas.

    Dhaha abaixou a cabeça ao sentir o peso da confirmação. Os cultistas de Nazhur estavam operando sob o nariz da guilda, e Belmorth era o facilitador.

    — Era por isso que você queria nossas armas? — Dhaha perguntou, sua voz agora séria e sem qualquer traço de brincadeira. — Você pretendia invadir a fábrica?

    — Era — o garoto completou, a voz desprovida de orgulho. 

    Ele parecia subitamente muito menor do que o guerreiro que enfrentara Dhaha minutos antes.

    — Então você viu eles levando alguém recentemente? — Mirena pressionou. — Eles têm reféns lá dentro agora?

    O silêncio pesou como uma montanha de chumbo sobre o grupo. Daten tentava falar, mas as palavras estavam entaladas em sua garganta.

    Ele desviou o olhar e fixou-o em um pedaço de metal no chão. A angústia em seu rosto era quase palpável, não era necessário dizer uma palavra sequer.

    — Daten… — Dhaha aproximou-se e, com um movimento rápido da mão, desatou os nós que prendiam os punhos do garoto. — Fique tranquilo. Nós vamos salvar essas pessoas. Apenas espere aqui ou vá para algum lugar seguro, deixe o resto com a gente.

    O douradiano se levantou, ajeitou a espada na cintura e fez um sinal para Mirena. Juntos, eles começaram a caminhar em direção à saída do refúgio.

    Daten ficou para trás, imóvel sobre os escombros, observando as costas dos dois aventureiros que acabara de tentar roubar.

    Eles o deixaram livre, mesmo após a emboscada. Eles carregavam uma determinação que Daten há muito tempo tinha perdido, ou que talvez nunca teve o luxo de possuir.

    Ele soltou o ar pelo nariz, foi uma risada curta e sem som, oca. Não havia nada que pudesse fazer, era apenas uma criança.

    “Nós vamos estar sempre juntos”, um clarão de memória atravessou sua mente como uma lâmina de gelo.

    A imagem de uma pequena ardenteriana, ela o seguia e segurava sua mão com dedos finos e sujos de graxa. Aquilo martelou sua consciência, uma promessa de infância feita em um mundo que não perdoa promessas.

    O rosto da menina, agora provavelmente trancado em alguma cela fria da Rua Sessenta e Nove, havia se tornado um peso insuportável em sua alma.

    — Maldição! — Daten se levantou em um salto, chutando uma lata de óleo velha. — Ei! Vocês dois! Esperem!

    Mirena e Dhaha se viraram, surpresos pela súbita explosão de energia do garoto. Daten não parecia mais aquele ladrãozinho acuado.

    Ele carregava um sorriso raivoso na face e chamas ardentes de carma começavam a tremeluzir em seus olhos pretos.

    — Eu… eu levo vocês. Não garanto que a gente saia vivo, mas eu conheço um caminho que os olhos e os guardas de Rubrae não cobrem direito.

    Dhaha abriu um sorriso largo e bateu um punho contra a palma da mão, enquanto Mirena apenas suspirou. Ela preferiu guardar o sarcasmo para depois.

    — Ótimo — disse o douradiano. — Então vamos logo, Daten. Temos pessoas pra salvar e uns cultistas pra chutar.

    — Só não se acostumem — resmungou Daten, já tomando a frente. — Eu só quero o que é meu de volta.

    O caminho para a fábrica de Belmorth estava oficialmente aberto, e o cheiro de metal derretido nunca pareceu tão próximo.

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