Todos voltaram suas atenções para o outro lado da porta, ignorando a metodologia deturpada do amigo. O corredor era estreito e escuro, exalava a atmosfera opressiva de uma prisão.

    O ambiente mudou drasticamente ao cruzarem o que sobrou do portão de aço. O piso e as paredes eram de tijolos cinzas, velhos e cobertos de poeira.

    Tochas de madeira e correntes enferrujadas adornavam as paredes. Ao fundo, cubículos de cinco metros quadrados serviam de jaulas, cercados por barras metálicas descascadas pelo tempo.

    Um forte cheiro podre tomava o lugar, o odor metálico de sangue misturado ao de carne em decomposição. Era o aviso do que mais temiam encontrar: cadáveres.

    O rosto de Mirena empalideceu e suas pupilas se contraíram como agulhas. Uma única olhada sobre os defuntos revelou parte do horror que aquilo representava.

    Membros metálicos. Braços, pernas e olhos mecânicos haviam sido fundidos à carne antes de estar morta. Eram ciborgues sem escolha, experimentos forçados a se tornarem maquinas.

    — Meu Lebkraut… — Mirena engoliu em seco, enquanto lutava contra a náusea que subia por sua garganta.

    — Não… não pode ser… — As pernas de Daten o forçaram a seguir em frente, seus olhos varreram as celas em busca de um fio de esperança. — Por favor…

    Ele olhou entre os cadáveres e soltou um suspiro trêmulo ao encontrar sobreviventes. Eram poucos, um vivo para cada dois mortos, mas eram pessoas que ainda respiravam.

    A dupla de aventureiros agiu rápido, abrindo as celas e quebrando as correntes. Os prisioneiros estavam desnutridos e envelhecidos precocemente pela fome.

    Muitos deles carregavam os mesmos membros mecânicos rudimentares dos mortos. Eram protótipos que felizmente, ou infelizmente, não vieram a morrer no decorrer do experimento.

    — Eu sinto muito… — disse Dhaha, ao olhar para uma jovem cujos olhos haviam sido substituídos por lentes de vidro frio.

    — Não sinta… — Mirena encarou o próprio braço metálico, ela sentia o mínimo de empatia com aquelas vítimas. — Eles não tiveram escolha. Vamos tirá-los daqui.

    O resgate começou: guiaram os sobreviventes para fora dos enclausuramentos e ajudaram os que mal conseguiam se manter em pé sobre as próprias pernas.

    — Irmã? Spiena?! — Daten elevou a voz, o desespero de volta a tomar conta. Ele olhou cada rosto desfigurado, cada corpo desnutrido. Nada. — Ela não tá aqui… não!

    Ele correu até o grupo de ex-prisioneiros, seus olhos tremiam como se estivessem perdendo o foco da realidade.

    — Você viu uma ardenteriana pequena? — ele perguntou a um homem, enquanto gesticulava à altura de sua cintura. — Pele escura, usa chiquinhas…

    — Não, garoto… eu sinto muito — respondeu o prisioneiro, com a voz rouca e sem esperança.

    Daten não desistiu, questionou cada pessoa que conseguia balbuciar uma palavra, até que uma mulher caída em um canto o respondeu.

    — Uma… ardenteriana de… chiquinhas? — A mulher mal tinha forças para manter os olhos abertos.

    — Isso! Você viu ela? Por favor, me diz que você viu ela! — Daten agarrou os ombros da mulher, balançando-a em um surto de ansiedade.

    Os olhos da moça se arregalaram em pânico. Ela tentou se afastar, chutando o chão debilmente enquanto o terror voltava a brilhar em suas pupilas.

    Mirena adiantou o passo e segurou o braço do garoto com firmeza. O olhar de Daten era puro desespero, sua sanidade parecia pendurada por um fio.

    — Daten! Respira! — gritou a maga. — Solte ela, agora!

    O garoto pareceu voltar a si, soltou a mulher e respirou fundo. Tentou estabilizar o ritmo cardíaco que pressionava contra seu peito.

    — Desculpa… é que essa garotinha é minha irmã — ele murmurou, de joelhos para encarar a ex-prisioneira nos olhos. — Eu preciso saber dela.

    O medo da mulher foi se esvaindo ao perceber que Daten era apenas uma criança ferida.

    — Eu a vi… — ela continuou, a voz falha. — Ela chegou aqui há alguns dias, mas não ficou muito tempo nas celas.

    — Não ficou? Belmorth levou ela para outro lugar? Para onde?!

    — Eu… eu não sei. Mas ele mesmo veio buscá-la. Levou-a para fora do complexo…

    Mirena abaixou a cabeça, o peso daquela informação esmagou qualquer tentativa de consolo. Ela ajudou um senhor a se levantar e voltou seu foco à fuga imediata.

    — Spiena… — a voz de Daten saiu fraca, quase um lamento. — Belmorth!

    “Se acharmos o Belmorth, achamos ela”, ele pensou, agarrado àquela última lógica como um náufrago a um pedaço de madeira.

    Ele se virou para os aventureiros, os punhos cerrados com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

    — Mirena… Dhaha. O Belmorth deve tá com ela. Precisamos parar aquele desgraçado!

    Para a surpresa de Mirena, o garoto não chorava. Sua voz estava mais para um ressentimento amargo, mas firme como o aço.

    “Eu não vou deixar isso acontecer de novo…”, pensou a mulher, ao lembrar-se das perdas que já sofrera. Ela não deixaria Daten perder alguém também.

    — Nós vamos. Com certeza vamos — afirmou ela, a aura de carma começou a esfriar o ar ao redor.

    — Vamos levar esse povo para fora primeiro — continuou Daten. — Lá a gente dá um jeito de achar o…

    Um som ensurdecedor de metal e pedra se chocando interrompeu o raciocínio do garoto. Três pares de luzes coloridas surgiram na escuridão do corredor à frente.

    Azul, vermelho e amarelo. As luzes brilhavam com uma intensidade artificial, como lampiões.

    — Daten, tire os reféns daqui agora! — Mirena ordenou, ao colocar um prisioneiro sob os cuidados do garoto e sacar seu cano torcido.

    Dhaha se pôs ao lado dela, seu corpo já brilhava em carma pálido. O tilintar de metal transformou-se em um estrondo, e três figuras massivas se formaram.

    O primeiro era azul-escuro. Tinha uma cabeça de coelho caricata com orelhas de trinta centímetros e uma barriga enorme que servia de compartimento.

    A criatura terminava diretamente em pés metálicos e um rabo em forma de bolinha, uma abominação mecânica que ofendia todos os coelhos do mundo.

    À direita, uma máquina amarelada com traços de pássaro. Penas metálicas cobriam o corpo, exceto pela barriga pálida. O bico de galinha era enorme e afiado.

    À esquerda, um urso robusto de três metros de altura. Possuía músculos metálicos esculpidos como os de um fisiculturista, e vestia uma calça jeans e uma cartola ridícula.

    As aberrações mecânicas encaravam o trio com um olhar de superioridade. 

    Mirena sentiu um calafrio, não via invenções assim desde que deixara Água-Ardente.

    — Autômatos de combate… — murmurou ela, apertando o cabo da arma.

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