Capítulo 36: Bicos e Patas
Daten correu para tirar os reféns da linha de fogo, enquanto guiava os debilitados para além dos escombros da porta de aço. Dhaha e Mirena seguiram na direção oposta e postaram-se diante das abominações.
Um forte cheiro podre que emanava dos autômatos: sangue viscoso pingava das garras e das frestas das armaduras do trio animal.
— Animais mecânicos, que divertido… — comentou Dhaha, o sarcasmo quase tão sólido quanto o martelo que empunhava.
— Acha que conseguimos? Só tem esses três — disse Mirena, ao erguer o cano quebrado em uma postura defensiva.
— Sem dúvida alguma… — completou o douradiano, os olhos fumegantes pelo brilho pálido do carma que começava a transbordar.
As criaturas avançaram com a voracidade de predadores famintos. O coelho azul saltou sobre Dhaha, tentando esmagá-lo com seu peso desproporcional, mas o guerreiro desviou com um salto para trás.
— [Metalóxis]! — Com o erguer do martelo, ele golpeou a lateral da máquina e, em um movimento fluido, moldou a arma em uma alabarda e a cravou na superfície azulada.
O coelho, surpreendentemente ágil, segurou o cabo da arma com braços roliços e puxou Dhaha para perto. Tentou fincar seu dente gigantesco no ombro do garoto.
O douradiano converteu a alabarda em duas espadas curtas e se livrou do agarrão com um giro de corpo que o lançou na direção da parede.
Ao colidir com o concreto, Dhaha sentiu o corte ardente no ombro. O coelho não parou, começou a ricochetear pelas paredes enquanto usava o impulso para atacar de todos os lados.
As espadas de Dhaha colidiam com as placas metálicas em uma tentativa de reduzir a inércia da besta, mas apenas geravam clarões de faíscas que iluminavam o corredor sombrio.
Em um dos saltos, o coelho usou o autômato marrom como plataforma, aumentando ainda mais a velocidade.
As paredes agora exibiam buracos profundos no formato de patas.
“Ok, plano B: fazer ele ficar parado”, pensou o garoto, encurralado pelo estilo de luta caótico do autômato. “E já sei exatamente como…”
Ele parou de revidar, moldou as lâminas em um único martelo pesado e fechou os olhos. Sua respiração se tornou profunda, enquanto o carma estabilizava seus batimentos cardíacos.
Cedendo a visão, ele se concentrou nos outros sentidos: o tato que percebia o deslocamento do ar e a audição que rastreava o zumbido mecânico do coelho.
“Agora!”.
Com um giro veloz, Dhaha realizou um ataque em arco completo e interceptou o coelho no meio do ar, rebatendo-o violentamente contra a parede de pedra.
Um som seco de “bonk” ecoou pelo subsolo. Dhaha abriu um sorriso confiante enquanto a criatura azulada tentava recuperar o equilíbrio.
— Agora você vira camisa de saudade, dentuço! — exclamou ele, ao avançar sem dar chance para que a máquina pudesse saltar novamente.
A sequência de marteladas se repetiu. Cada vez que o coelho tentava ganhar impulso, o martelo de Dhaha o encontrava e abria rachaduras na blindagem azul.
Em poucos minutos, a vantagem mudou de lado. Dhaha estava ofegante, mas inteiro, enquanto o autômato cambaleava com a face metálica completamente amassada.
— Não consegue mais pular? — Ele desferiu um golpe com o martelo, em cheio, na direção da máscara em forma de coelho.
O garoto remodelou o metal em uma wakizashi e avançou para o golpe de misericórdia, mas hesitou ao ver o que havia sob a máscara partida: um rosto humano desfigurado.
Não era um robô, era um ciborgue, e uma sombra negra e fétida exalava de dentro da armadura, como se a alma estivesse apodrecendo ali dentro.
— Droga! — Após um recuo instintivo, ele avançou implacavelmente, partindo o tronco do coelho ao meio.
O sofrimento do coelho estava encerrado.
Sangue e óleo se misturaram em uma poça negra no chão. Dhaha parou diante dos restos, curvou-se e fez um sinal em “S” com o braço.
— Que Nahhashir forje seu caminho… — murmurou a breve prece antes de se virar para o restante do combate.
Mirena, por sua vez, lutava contra a galinha amarela. O cano improvisado rangia sob a pressão do bico metálico que tentava perfurar seu crânio.
Com um chute no estomago, ela se afastou e desferiu um golpe giratório na cabeça da ave, que a fez girar no próprio eixo como um brinquedo.
— Mas o que é isso? Um exorcismo? — perguntou Mirena, incrédula com a resistência daquela coisa.
A ave amarela contra-atacou com uma investida de bico que partiu o cano de Mirena ao meio e derrubou a ardenteriana no chão frio.
Ela se ergueu em um salto, mas notou algo: a galinha parara por alguns segundos, emitindo um chiado de exaustão, como se precisasse recuperar fôlego.
“Essa coisa funciona a bateria?”, pensou ela, enquanto analisava as aberturas de ventilação da criatura. “Não venço na força física, nem na velocidade”
Ela tocou o colete, com seu trunfo em mente, mas recuou.
“Não posso usar isso, aquelas placas são duras demais”.
Seus olhos captaram a luta de Dhaha ao lado. Ele estava cercado por canos de vapor que ele mesmo amassara com seus golpes.
“Canos… Vapor!”, a ideia estalou em sua mente como um cristal de carma ativado.
O construto amarelo avançou novamente, seu bico girava como uma broca de mineração. Mirena rolou para o lado e escapou por milímetros.
A ave parou, “respirou” fundo e mirou novamente. Era o ciclo de resfriamento da máquina.
— Ei! Por aqui, frango assado! — gritou Mirena, balançando os braços freneticamente enquanto corria em direção a uma parede repleta de tubulações de alta pressão.
A galinha mecânica, movida por uma determinação furiosa, lançou-se em uma investida contra a maga.
No último segundo, Mirena saltou para o lado. A máquina colidiu contra a parede e rompeu as válvulas de latão. O vapor fervente envolveu a ave, o que a prendeu nas ferragens retorcidas.
— Quem disse que só homens podem operar uma máquina deste tamanho? — zombou Mirena, enquanto se aproveitava da imobilidade do inimigo.
Ela pegou a metade pontiaguda do cano partido e procurou as frestas na armadura. Encontrou um núcleo de cristais de carma pulsando nas costas, envolto em carne viva e sombras.
Com um golpe preciso e impiedoso, ela perfurou o núcleo. A criatura sofreu um curto-circuito violento, estrebuchou e apagou definitivamente.
O cheiro de carne queimada e ozônio tomou o corredor quando a armadura se abriu, revelando outro cadáver fundido ao metal. Mirena sentiu o estômago revirar.
— Sério?! Qual o fetiche estranho destas pessoas em brincarem com cadáveres?! — A indignação de Mirena superava, em muito, o seu nojo.
Ela limpou o suor da testa e olhou para Dhaha. Dois dos autômatos estavam caídos, mas o urso de três metros ainda permanecia de pé, e Daten não parecia estar em bons lençóis.

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