Seguindo as ordens da ardenteriana, Daten guiava os ex-prisioneiros em direção à saída. Fez o mais rápido que pôde, mas a lentidão dos debilitados apenas atrasou o inevitável.

    O som de passos pesados e metálicos ecoou pelo corredor como um trovão. O chão vibrava, o que anunciou a chegada da pseudo-criatura.

    — Oh droga… — murmurou o garoto, sacando seu bastão de ferro com as mãos trêmulas.

    O autômato marrom, o urso de três metros, aproveitou-se da brecha deixada pelos outros dois e avançou direto para o ponto mais fraco das defesas: Daten e os reféns.

    Sem tempo para raciocinar, o garoto cruzou o bastão à frente do corpo. O soco da criatura foi como uma prensa hidráulica e o arremessou violentamente contra a parede.

    — Isso vai deixar uma mar… — Daten tentou completar a piada, mas o fôlego acabou. 

    Ele rolou para o lado no último segundo e desviou de um  segundo impacto, que pulverizou o tijolo.

    — Qual foi? Me deixa zoar pelo menos! — gritou ele, ao recuperar o equilíbrio e golpear as pernas maciças do urso.

    O corpo do ardenteriano estremeceu com o impacto. Golpear aquela estrutura era completamente diferente de enfrentar os guardas humanos de antes.

    “Esse cara é feito de quê? Aço?”, pensou ele, o recuo da arma vibrou em seus dentes. “Não, espera. Ele é de aço…”

    Com um chute lateral, o urso afastou Daten novamente. O pequeno sentiu seus ossos racharem sob o impacto, e colidiu com o chão de pedra branca com um baque seco.

    O autômato aproximou-se com o punho erguido, pronto para esmagar o garoto como um inseto, quando algo pesado colidiu com suas costas e o fez cambalear.

    Era o coelho azul. Em seus saltos desgovernados pela luta contra Dhaha, a máquina não notou o aliado e o usou como plataforma para ricochetear.

    O urso rosnou um chiado metálico, olhando para trás com uma cara indignada, por ser atingido pelo próprio colega de equipe.

    Daten aproveitou a distração e ergueu-se com dificuldade, sua arma agora envolta pelas chamas de seu carma.

    Ele golpeou o chão abaixo da criatura com força total, o que desestabilizou a pedra e forçou o colosso a ficar de joelhos. Em seguida, iniciou uma sequência frenética contra a face mecânica.

    “Não posso deixar ele chegar nos reféns… eu não posso!”, pensou o garoto, enquanto seu corpo ardia de cansaço.

    A poeira levantada pelos ataques cegou Daten por um breve momento, mas foi o suficiente para o urso acertar um soco na boca do estômago.

    O pequeno mal teve tempo de cambalear, construto agarrou-o pela cabeça com uma das mãos enormes e arrastou-o contra a parede, destruindo tijolos no caminho.

    Após soltar o corpo do loiro sobre os escombros, o animal metálico de cartola voltou-se para o grupo de prisioneiros encolhidos no canto.

    Os tremores de seus passos eram abafados pelo som das outras lutas, mas o piso rachava sob seu peso.

    Foi então que uma pedra atingiu sua nuca. Depois outra.

    No meio dos escombros, Daten se mantinha de pé por puro milagre. Segurava o bastão em uma mão e pedras na outra, o rosto coberto por uma máscara de sangue.

    — Cai dentro… gogoboy de merda — Daten desafiou, a voz ofegante e lenta.

    Seu olho esquerdo estava inchado e fechado, a perna direita tremia sob seu peso. Ele era uma pilha de ferimentos sustentada pela teimosia.

    Uma chuva de pedras começou. Daten as arremessava com a velocidade que sua agonia permitia. O urso virou o corpo e caminhou calmamente em direção ao garoto.

    Ignorando os projéteis, a máquina segurou Daten pelos braços e o ergueu no ar, à altura de sua cabeça.

    — Argh! Me… larga… Seu pedaço de… sucata! — O garoto se debateu, mas seus músculos não tinham mais força para oferecer resistência.

    O bastão de ferro escorregou de sua mão e caiu no chão com um tilintar fúnebre. Naquele momento, o silêncio da derrota desceu sobre Daten.

    Ele percebeu a realidade nua e crua: ele era fraco. Estava quebrado e sangrava, enquanto o monstro estava praticamente intacto.

    — Eu não consigo… vencer nem a porcaria de um autômato — murmurou ele, as lágrimas de sangue e raiva escorreram pelas bochechas.

    Num último ato de rebeldia, Daten encheu as bochechas e cuspiu sangue diretamente no visor óptico do urso.

    — Engole essa… sua sucata maldita.

    O autômato não reagiu à provocação. Ele abriu a mandíbula e revelou fileiras de dentes metálicos acionados por pistões hidráulicos.

    A máquina aproximou a cabeça do garoto da abertura escura. Daten fechou os olhos, esperando pelo estalo final.

    “Uma criança com a cabeça na boca de um urso… onde foi que eu já vi isso?”, ele pensou, um lampejo de humor antes do fim.

    Quando o urso ameaçou fechar as mandíbulas, um estrondo metálico interrompeu o movimento. Duas mãos fortes agarraram a parte superior e inferior da boca da fera.

    Pousado sobre os ombros da criatura, Dhaha forçava o metal para cima. Ele era a única barreira entre Daten e uma morte grotesca.

    Aos pés do urso, Mirena surgiu com o martelo de Dhaha em uma mão e seu cano torcido na outra, de olhos fixos no inimigo.

    Ela desferiu uma martelada devastadora na perna já danificada do urso e aparou Daten com o braço mecânico quando ele despencou da boca da fera.

    — Você foi bem, moleque. Segurou a onda — disse Dhaha, ao recuperar seu martelo. — A gente assume daqui.

    Os aventureiros avançaram em uma sincronia perfeita. Mirena distraía a besta com golpes rápidos e precisos, enquanto Dhaha descarregava o dano bruto.

    A imagem dos dois era heróica, mas não apagava o amargor na boca de Daten. Ele caiu de joelhos e viu a luta através dos olhos cansados.

    Não pôde proteger a irmã, não pôde invadir sozinho, não pôde sequer arranhar o monstro que quase o devorou.

    Suas lágrimas caíam pesadas, misturando-se ao óleo negro que jorrava do autômato sob os golpes de Dhaha. Ele amaldiçoava sua própria impotência.

    — Hahaha… Que merda… — ele riu de si mesmo, os punhos cerrados contra o solo frio.

    O urso era mais forte que os outros dois, mas não podia vencer a dupla. Mirena era esguia demais e Dhaha era uma muralha quase inabalável.

    Com uma abertura criada por um soco em falso do monstro, Mirena atingiu a junta do joelho da fera e a derrubou.

    — [Metalóxis]! — rugiu Dhaha, transformando a arma em um machado de batalha e golpeando o pescoço da criatura com toda a sua força.

    O corpo mecânico tombou. De dentro da armadura de urso, a mesma sombra fétida e o cadáver desfigurado revelaram-se à luz das tochas.

    — Bom, acho que… acabamos com o zoológico — Dhaha ofegou, apoiado no cabo do machado enquanto o brilho pálido diminuía.

    — Vamos tirar essas pessoas daqui e ir atrás do Belmorth — Mirena disse, ao olhar para Daten.

    — Meus parabéns… — Uma voz aveludada e fria ecoou do final do corredor.

    Belmorth caminhava em direção ao grupo. Seus passos eram calmos, os passos de quem já venceu o jogo antes mesmo de começar.

    — Nem em minhas melhores previsões eu diria que venceriam meu trio de elite — ele sorriu, os braços abertos em um gesto teatral.

    — Belmorth… — Mirena sibilou, seu carma de volta a resfriar o ar. Seus olhos eram adagas fixas no nobre pálido.

    O nobre parou a poucos metros, sua presença fez os reféns soluçarem de terror. Atrás dele, a escuridão do corredor pulsava de forma rítmica.

    — Mas, é claro… podemos resolver isso sem mais delongas — ele disse, e o ar ao redor tornou-se subitamente pesado, quase sólido.

    Dhaha apertou o cabo do machado com o resto de força que tinha. Mirena não desviou o olhar. Daten, do chão, sentiu um calafrio que não vinha dos ferimentos.

    Algo na retaguarda do vilão estava se movendo. Uma sombra imensa que fazia o chão vibrar e o oxigênio parecer escasso.

    E então, a sombra atrás de Belmorth abriu os olhos.

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