Era mais um fim de dia na fábrica de armas Rubrae. O céu cinzento de fuligem e fumaça dava lugar a uma vista completamente escura, sem o brilho de qualquer estrela.

    A maioria dos trabalhadores já tinha batido o ponto e ido para os barracos que chamavam de casa. Apenas três homens restaram no setor de triagem: um supervisor e dois funcionários.

    O supervisor, um humano já na velhice, caminhou até uma mesa metálica enferrujada. Ele carregava nas mãos uma garrafa marrom com um rótulo extravagante.

    — Que ideia idiota foi essa, rapazes? — Ele bateu a garrafa sobre a mesa, encarando o funcionário: um douradiano de barriga avantajada. — Jogar cartas no expediente?

    — Desculpe, chefe… — disse o segundo funcionário, sentado à mesa. Um gelariano de chifres curtos e rombudos que pareciam cotocos.

    — E se o patrão tivesse pego vocês? Esqueceram o que aconteceu com o Alastor? — O velho continuou o sermão, a voz rouca pela fumaça da fábrica.

    — É que o Elias tinha apostado um encontro com a irmã dele… — O douradiano tentou se defender, mas o olhar do supervisor o calou.

    — Argh… Vocês não têm jeito… — O idoso virou um copo de bebida goela abaixo.

    Enquanto estavam distraídos, uma batida na porta chamou a atenção dos três. O som ecoou pelo galpão vazio e silencioso.

    — Eu atendo! — disse o gelariano, que se levatou em um pulo. Ele correu para a entrada, ansioso para fugir da bronca do velho.

    Os três não podiam beber na parte interna, então a guarita era o único refúgio. Ao abrir a porta, uma mulher de armadura verde apareceu diante dele.

    — Em que posso… — começou o gelariano, mas foi interrompido antes de completar a frase de cortesia.

    Sem perder tempo, a mulher estendeu um distintivo de um pássaro azul para o rapaz.

    — Guilda da Folha-de-Louro. Posso entrar? — perguntou ela, já um passo para dentro antes mesmo da resposta.

    Longe dali, nas profundezas do complexo, a realidade era muito mais sombria. A criatura fitava o grupo de Mirena com seu olho solitário e amarelado.

    O corpo massivo de carne viva e retorcida mal estava oculto pela escuridão. O [Carnoféx] pulsava com um som alto, como um coração gigante.

    Um som de vozes em agonia vinha de dentro da besta. Mirena paralisou, ela sentiu que a morte chegaria se ela desse um passo.

    Belmorth deu um passo à frente, com  uma expressão imponente e serena. Ao seu redor, flutuava um pedaço de papel que se destacava em suas roupas brancas.

    — Ah não… — murmurou a garota, ao reconhecer o objeto. A sensação do choque a trouxe de volta à realidade.

    A folha era exatamente como as descrições: uma página de caderno antiga, escurecida pelo tempo, feita de papel e fibras de árvore.

    Ela flutuava próxima ao nobre, sustentada por um carma raso que queimava ao seu redor. Era uma das folhas que Mirena tanto procurava.

    — Eu pensei que vocês abraçariam a beleza que estávamos oferecendo — disse Belmorth, com um sorriso perturbadoramente alegre. — Mas parece que eu estava…

    — Beleza? Isso aqui? — Dhaha apontou para as celas de carne, sem desviar o olhar do homem. — Você tem um péssimo gosto pra decorações.

    — Pessoas sem educação e de mente fechada nunca entenderiam a perfeição disso — o mago loiro suspirou, com a mão na bochecha em êxtase.

    — Não, você só tem um péssimo gosto mesmo — retrucou Mirena.

    — Parece algo que uma criança faria com massinha, e você ainda usou cadáveres — alfinetou Dhaha, com uma face de puro nojo e escárnio.

    — Fiquem quietos. Em breve, vocês se juntarão à minha obra de arte — o “artista” ergueu os braços em um gesto de superioridade absoluta.

    O homem de branco aproximou-se de uma das celas. Ele já não conseguia segurar o sorriso insano que ia de orelha a orelha.

    — Veem? Estão belíssimos. Desfigurados, deformados. Aaaah… que inveja… — riu ele, tão entretido que nem notou a própria língua escapando da boca.

    — Esquisitão… — Dhaha comentou, com a simplicidade de quem constata que o céu é azul.

    — Acho que ele apenas é louco mesmo, o culto de Nazhur possui vários membros como ele — Mirena completou a sequência de ofensas.

    As veias no pescoço de Belmorth saltaram. Ele cerrou os punhos com tanta força que o tecido de suas luvas brancas rangeu.

    — Louco? Hahaha… Não, não — corrigiu ele, retomando o olhar sério. — Loucos são vocês, que desafiaram minha Signore e o belo plano dela.

    — Plano? Você… estava nos observando este tempo todo? — Mirena ergueu seu cano com dificuldade. Suas mãos ainda estavam trêmulas pelo cansaço.

    — O que achou que eu faria com quem cometia vandalismo em minha propriedade? — A voz do nobre carregava um ressentimento gélido.

    — Propriedade privada? — A garota lembrou do porão clandestino. — Espera, como você sabe daquele lugar?

    — Vocês vandalizaram… propriedade alheia? — interrompeu Daten, caído ao fundo da sala sobre os escombros do combate anterior.

    — Aquilo era… propriedade privada? — Dhaha olhou para Mirena, sem saber se dava razão para o inimigo ou para a amiga incendiária.

    A garota viu-se cercada por olhares de acusação, seu rosto ficou vermelho de vergonha.

    — Bom, err… de certa forma…? — A mulher tentou se defender, mas era inegável que ela havia reduzido aquele lugar a cinzas.

    — “De certa forma”? Vocês incendiaram um porão que ligava dois prédios — continuou Belmorth. — E eles eram razoavelmente distantes um do outro.

    — É… Parando para pensar, o fogo se espalhou bem rápido — falou Dhaha, ao repensar a estratégia de fuga que usaram.

    — Nossa… isso é extremo… cof cof… até para mim — Daten cutucou a ferida da garota, mesmo quase sem fôlego para falar.

    — Você destruiu o piso de uma casa, Dhaha! — esbravejou a ardenteriana. — E você, Daten, nos ajudou a invadir este complexo!

    — Detalhes, cara — rebateu Dhaha, dando de ombros sem desviar os olhos do [Carnoféx].

    — Detalhes… cof cof… cara — repetiu Daten, que aproveitou para implicar com a maga.

    — Por que eu virei o alvo agora? — resmungou a garota, sem saber se sentia medo do monstro ou vergonha dos amigos.

    Seu rosto ardia como um rubi. Ela respirou fundo para retomar o controle da situação antes que perdesse a postura de vez.

    — De qualquer forma! — gritou ela. — Como você sabia que viríamos exatamente para cá hoje?

    — Isso é bem simples — o olhar do pomposo mudou da ironia para a seriedade em um piscar de olhos. — Fui eu que os trouxe.

    Belmorth passou a palma da mão sobre o rosto. Sua carne começou a se mover de forma aleatória, desconfigurando-se até formar a face da senhora Lídia.

    — Isso responde? — A voz da idosa saiu da boca do homem, perfeita e assustadoramente familiar.

    Os três encararam a cena em silêncio absoluto. Não sabiam se ficavam surpresos com a revelação ou com a determinação dele em se vestir de velha.

    — Olha… — Dhaha ameaçou falar algo sobre o disfarce, mas foi cortado imediatamente.

    — Cale-se, douradiano! — Belmorth já estava sem qualquer paciência para as piadas de baixo calão do guerreiro.

    — Eu não sei se você é muito determinado ou se só tem fetiches meio estranhos — Dhaha insistiu, incapaz de segurar a língua.

    Mirena não entendia como, diante de uma criatura que mal cabia na sala, eles discutiam os gostos artísticos e pessoais de Rubrae.

    — Você sabia… desde o começo? — A garota reuniu as últimas forças para fazer a pergunta que realmente importava.

    — Eu conheço tudo nesta cidade — falou o humano, reconfigurado ao seu rosto original. — Vocês seriam belos se tivessem se aliado aos Vagantes.

    — Vagantes? São aqueles fantasmas que enfrentamos no porão? — perguntou Dhaha, lembrando-se das sombras que quase os mataram.

    — A capacidade dedutiva de vocês é melhor do que eu espera…— insultou Belmorth, sendo interrompido novamente pelo douradiano.

    — Ela é muito melhor que o seu senso de arte, isso eu garanto — Dhaha finalizou, com o punho fechado no cabo de sua arma.

    Foi a gota d’água. Com um gesto brusco da mão de Belmorth, um rugido gutural e úmido tomou toda a sala subterrânea.

    O templo de carne saiu das sombras e moveu-se na direção de Dhaha, raspando a cabeça no teto e rachando o chão.

    — Muito bem. Eu disse à minha Signore que levaria mais sobras para o banquete — falou o loiro, com um estalar de dedos.

    Vários braços e pernas de humanos brotaram do torso da criatura.

    — É hora de brincar, [Carnoféx]!

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