— Finalmente! — Dhaha não perdeu a oportunidade. Com um urro, ele golpeou a lateral do templo de carne com seu machado pesado.

    A lâmina rasgou alguns dos membros que saltavam para fora, mas não conseguiu penetrar a camada de tecido.

    — Ué? — o guerreiro estranhou. 

    Ele tentou puxar a arma de volta, mas o metal parecia ter sido tragado pela musculatura da criatura.

    Com uma puxada violenta, Dhaha arrancou o machado. O [Carnoféx] soltou um urro gutural e golpeou o garoto contra a parede usando três braços simultâneos.

    — Argh! — o grito escapou involuntariamente. 

    A exaustão começava a cobrar o preço, seus reflexos estavam pesados e lentos.

    Belmorth estalou os dedos novamente. A catedral de carne direcionou uma sequência de socos brutais, forçando Dhaha a usar o cabo da arma como escudo.

    “Que droga… se ele fosse um pouco menos duro!”, pensou o douradiano. O gosto metálico do sangue invadiu sua boca enquanto ele tentava não ser esmagado.

    Mirena observava a cena com horror. O monstro era forte, e mantinha Dhaha, seu aliado mais poderoso, na defensiva.

    O nobre a encarava com um sorriso sádico, parecia satisfeito por finalmente ter conseguido arrancar uma reação de puro pavor de um de seus “convidados”.

    — E você, ardenteriana… — começou ele, ao encurtar a distância entre os dois com passos leves e elegantes.

    A mulher olhou para os lados, confusa, como se procurasse qualquer outra pessoa da sua raça com quem ele pudesse ter falado.

    — Sua reação me interessou… Você sabe o que é isto, não sabe? — Ele estendeu a palma, onde a folha mágica flutuava.

    “É claro que o vilão psicopata estaria com uma das páginas do Karmagó”, Mirena quase deixou o pensamento escapar enquanto tentava controlar a respiração.

    — Por que você possui isso? Como a conseguiu? — questionou a garota, apertando o cano metálico com as mãos suadas.

    — É muito simples: minha adorada Signore me entregou o dever de cuidar de seus Vagantes, e agora…

    Antes que o magnata pudesse concluir a frase pomposa, Mirena avançou. Ela desferiu um golpe lateral veloz, na direção do pescoço.

    Belmorth reagiu no último segundo. Um leve inclinar de costas fez o cano passar a milímetros de seu rosto e cortar apenas o ar.

    — Vocês têm algum tesão em me interromper? — reclamou ele, a voz  irritada.

    Outro golpe veio em seguida, um corte descendente pesado. Belmorth foi obrigado a rolar para o lado, agora sujo de poeira.

    — Você não deveria ter isso em mãos. Vou confiscá-la agora — declarou Mirena, com uma postura de combate agressiva.

    Belmorth levantou-se e limpou o paletó com um toque de desdém. Ele balançava a cabeça, como se estivesse lidando com uma criança mal-educada.

    Ele levou a mão ao interior do paletó e sacou uma pequena adaga cinzenta. No cabo, brilhava o emblema da Guilda da Folha-de-Louro.

    — Isso será suficiente para lidar com uma ardenteriana vil como você — concluiu ele, enquanto seu carma começava a cobrir a arma.

    Mirena ergueu o cano acima da cabeça, era a postura de guarda que Dhaha usava com espadas curtas.

    Ao dar o primeiro passo para o ataque, ela sentiu um ardor súbito. Parou no mesmo instante, pois um filete de sangue escorreu por seu ombro.

    “O quê?”, ela pensou, confusa. “Quando foi que ele me atingiu? Eu nem entrei no alcance daquela faca!”

    Belmorth havia feito apenas um movimento sutil com a adaga no ar. Ele nem sequer tinha chegado perto de tocá-la fisicamente.

    — Mirena… cuidado! — gritou Dhaha, enquanto tentava desvencilhar-se da aberração de carne. — O cheiro dele… ele fede demais!

    Para Mirena, Belmorth parecia um mago comum, mas para os sentidos de Dhaha, ele era uma fonte de carma tão intensa que o ar vibrava.

    Ao ouvir o aviso, Belmorth mudou o foco. Ele balançou a adaga como se fosse um brinquedo, ao encarar o douradiano.

    — Que surpresa agradável… — murmurou o nobre. — Um xamã é raro hoje em dia. Um que também é mago… você é um tesouro.

    O [Carnoféx], pela a vontade de seu mestre, entendeu a ordem silenciosa: deveria subjugar Dhaha, mas mantê-lo vivo.

    — Você é muito interes… — Belmorth tentou falar, mas foi interrompido novamente.

    Mirena aproveitou a distração e golpeou a face do vilão com o cano. O impacto arremessou o nobre alguns metros para o lado e o desestabilizou.

    — Sua desgraçada… — ele tentou ofendê-la, mas teve que rolar para escapar de um chute que visava suas costelas.

    — Já te contaram que você fala demais? — debochou a garota, recuperando um pouco da confiança perdida.

    O nobre levantou-se furioso e atirou o terno sujo em uma cela qualquer. Ele empunhou a adaga com as duas mãos e respirou fundo.

    Antes que Mirena pudesse piscar, Belmorth cortou o ar horizontalmente. O corte invisível se projetou e atingiu o ombro da garota.

    “Porcaria!”. O ferimento ardeu, mas Mirena não parou. 

    Ela correu em direção ao homem, e as armas colidiram em uma explosão de ar. Os rostos estavam próximos, ela podia ver a loucura nas pupilas dele.

    A troca de golpes tornou-se frenética. Mirena atacava com força total, enquanto o nobre se concentrava em estocadas precisas e rápidas.

    A mulher dava o seu melhor, mas não era uma combatente física de elite. A exaustão logo começou a tornar seus movimentos pesados.

    Os golpes daquela adaga eram anômalos. Tinham o peso de uma espada longa e o alcance de uma lança.

    Com um salto e uma rolagem, Mirena agarrou pedaços de tijolos e os arremessou. Belmorth foi obrigado a recuar, enquanto protegia o rosto.

    A garota golpeou a parede com o cano, e levantou uma cortina de fumaça. Em seguida, disparou mais pedras para manter a distância.

    Belmorth cruzou a nuvem de poeira em um lampejo, investindo com a adaga. As armas se chocaram novamente e faíscas azualadas voaram.

    O nobre agora arfava. O carma ao seu redor brilhava e apagava como um lampião sem combustível.

    “Ele não está acostumado a usar o próprio carma”, Mirena percebeu, ao notar a abertura na guarda dele.

    Ela golpeou o teto, já fragilizado, e desceu uma cortina de escombros e poeira ainda maior entre os dois combatentes.

    — Você só sabe… uff… fugir e sujar meus sapatos, ardenteriana? — esbravejou o mago.

    Com três golpes rápidos, ele dissipou a poeira e abriu o caminho. Ele sorria, crente que tinha vencido o combate.

    “Eu só tenho uma chance…”, pensou Mirena, com a mão dentro de seu colete de couro, onde guardava seu último recurso.

    Belmorth viu o movimento, mas algo agarrou seu tornozelo. Daten, ensanguentado e quase sem consciência, arrastou-se até ali.

    — Eu ainda… tô no jogo… droga! — o pequeno loiro gritou, e mordeu com força na perna do vilão.

    — Argh! Solta, criança maldita! — Belmorth livrou-se do aperto com um chute que jogou Daten para longe mais uma vez.

    Quando voltou a encarar Mirena, ela apontava algo metálico em sua direção, mas a visão dele estava turva demais para distinguir o objeto.

    — Uma adaga? Acha que… meu poder vem de uma faca? — ele riu, abrindo os braços. — Vai me cutucar com essa adagui…

    Uma explosão ensurdecedora ecoou pelo subsolo. Belmorth teria preferido mil vezes que aquilo fosse apenas uma faca.

    O projétil de metal perfurou a carne do nobre como se fosse papel. O cheiro de pólvora e enxofre invadiu as narinas de todos no recinto.

    — Não é… possível… — a voz de Belmorth falhou. O sangue começou a jorrar de uma ferida circular perfeita em seu ombro.

    Os olhos dele quase saltaram das órbitas. Mirena segurava um revólver Colt, com tambor de cinco balas.

    — Depois que inventaram a pólvora, a esgrima virou dança! — exclamou a garota, com os olhos cheios de determinação.

    O homem recuou, com as mãos na ferida, mas Mirena não deu trégua. 

    O segundo tiro atingiu o ombro direito, inutilizando o braço da adaga.

    O terceiro balaço perfurou a região abaixo do pulmão. O quarto e o quinto atingiram a perna direita e forçaram o nobre a desabar de joelhos.

    Mirena descarregou o tambor inteiro, o som dos disparos sobrepujaram os gemidos dos prisioneiros.

    — Como? — o homem gaguejava, enquanto tossia sangue. — Quase ninguém… neste distrito… tem uma dessas armas…

    — Isto é um protótipo. A senhorita Thalwara me permitiu testá-lo — explicou Mirena, a voz fria como o aço da arma.

    — Droga… [Carnoféx]! — berrou o vilão, rastejando para longe enquanto Mirena recarregava.

    No instante em que ela desviou o olhar, a massa de carne surgiu diante dela. Dhaha era carregado por um dos braços da besta.

    — E aí… Mirena… — o guerreiro saudou, com um olho inchado. — Como… cê tá? Mandou bem… nos tiros…

    Com um giro brusco, o [Carnoféx] arremessou Dhaha para perto da maga. Belmorth, moribundo, rastejou até a montanha de carne.

    O nobre abraçou a criatura e fundiu sua carne à dela. Ambos começaram a se contorcer e mudar de forma.

    — Evolua… [Carnoféx]! — foram as últimas palavras humanas que saíram da boca deformada de Belmorth.

    O amálgama de corpos distorcidos recolheu seus braços para dentro, em um imenso cubo pulsante de carne.

    — Era só o que faltava… — Dhaha cuspiu sangue. — O chefão agora tem segunda fase.

    O ar tornou-se quase irrespirável, saturado pelo odor e pelo carma esmagador que emanava do casulo. Eles não tinham como lutar um segundo round.

    O casulo de carne começou a rachar, e o que emergiu dali era algo muito além de um simples mago.

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