Capítulo 4: Churrasco Vencido
Mirena correu para perto de uma das tavernas. A fachada tinha sido varrida pelo gigante minutos antes. O caminho estava livre por enquanto, mas os gritos na praça não paravam.
O local por dentro estava desolado, o cheiro de serragem e bebida velha era forte.
Mesas viradas e canecos de madeira quebrados forravam o chão. Atrás do balcão tombado, esmagado por uma viga, ela avistou o ouro líquido.
Barris de carvalho. Cheios de cerveja forte e destilados. Estavam intactos nas sombras.
— Perfeito — sussurrou ela.
Com a força de seu braço mecânico, ela agarrou um dos barris. Ela os rolou até a entrada destruída, criando uma barricada improvisada.
Pegou um lampião a óleo que ainda resistia aceso num prego torto. O plano estava montado na cabeça, claro como cristal, mas ela precisava de distância e munição.
Seus olhos vasculharam os escombros freneticamente, encontrou um guarda morto e pediu desculpas silenciosas. Tomou dele uma besta pesada e uma aljava quase cheia.
Um barulho de ossos batendo em madeira a fez girar. Dois esqueletos menores tentavam escalar os destroços da entrada.
— Agora não! — gritou ela.
Mirena sacou uma faca curta do cinto num movimento rápido. Cravou a lâmina no crânio do primeiro, que desmontou na hora. O segundo recebeu um soco direto da prótese metálica.
A caixa torácica velha explodiu e enviou ossos para longe. Ela voltou ao trabalho, o coração martelando contra as costelas.
— Devagar, Mirena… não estraga tudo agora — ela repetia para si mesma, enquanto sentia o metal do braço vibrar com a adrenalina.
Ela abriu o tampo do primeiro barril com uma coronhada seca. O cheiro pungente de álcool puro subiu na hora.
Sem hesitar, banhou as pontas das flechas no líquido inflamável e deixou a madeira beber o combustível. Aproximou a primeira flecha da chama do lampião.
O fogo saltou para a seta, criando uma pequena e faminta tocha na ponta.
Cuidou para não queimar a corda da besta ou as próprias mãos. O tilintar do metal da prótese na arma denunciava o nervosismo. A firmeza era um desafio nessa pressão esmagadora.
Mirena respirou fundo e fechou os olhos por um segundo. Deixou o carma circular e acalmar o coração. Quando abriu os olhos, eles brilhavam num tom intenso de energia.
— Três… dois… um! — Ergueu a besta sobre a barricada e disparou. A chama cruzou o céu como um risco de sangue na noite.
Enquanto isso, no centro da praça, Dhaha continuava sua dança com o zumbi gigante. Pedaços de carne podre voavam a cada movimento seu.
Ao redor deles, a batalha secundária fervia, veteranos e aventureiros tentavam conter a maré de esqueletos.
— Mantenham a formação! — gritou Cucca, o veterano de pele bronzeada. — Não deixem essas coisas chegarem perto do garoto!
Todos sabiam: aquele douradiano era a única chance deles.
Ele agora portava um tridente imenso em suas mãos, usando as pontas para manter as mãos deformadas do gigante longe de seu peito.
O impacto de cada golpe do monstro fazia o chão tremer. Pedras do calçamento voavam como poeira.
— [Metalóxis]! — Dhaha rugiu.
Seu carma envolveu a arma e ela se distorceu, tornando-se um machado de batalha de lâmina dupla.
O golpe seguinte, na altura do cotovelo, partiu o braço desarmado da criatura em dois. O som da lâmina ao partir o osso podre foi gratificante.
Não houve sangue para jorrar, e o gigante não parou. A dor não parecia existir para ele.
Ele girou o tronco e lançou um soco de revés com o braço restante.
O machado mudou e voltou novamente a ser uma espada montante para aparar o golpe do gigante, tão forte que teria explodido um cavalo.
“Só isso não vai matar essa coisa. Ele não cansa, e a carne é muito densa!”, pensou Dhaha, sentindo o carma queimar suas reservas de energia.
O garoto sentiu o suor escorrer pelo rosto e arder nos olhos.
Foi quando a primeira flecha flamejante de Mirena atingiu o ombro esquerdo do monstro, iniciando uma combustão química imediata.
— Roaaaaar!!! — O gigante urrou de uma forma diferente. Pela primeira vez, havia uma nota de agonia em seu grito gutural.
O fogo carbonizava rapidamente a carne podre. Uma segunda seta atingiu a junta da perna direita, e fez o gigante vacilar no meio do passo.
— Fogo? De onde veio essa agora? — Dhaha murmurou, sorrindo ao ver o brilho das chamas iluminar o campo de batalha.
O terceiro alvo foi certeiro: a ferida aberta no torso. O monstro agora se tornava em uma pira funerária ambulante, enquanto lutava contra as chamas.
Mirena, da entrada da taverna, não parava. Ela produzia munição incendiária em ritmo industrial, usando o álcool como combustível.
A criatura desfixou sua maça do braço e a jogou no chão. Em seguida, tentou inutilmente apagar o fogo que devorava sua carne costurada e seca, mas só conseguiu espalhar mais ainda.
O cheiro de churrasco podre impregnou a praça inteira.
“Uma abertura! É agora ou nunca!”, Dhaha se impulsionou, usou a maça caída como degrau e saltou alto em direção ao pescoço da criatura.
Com um movimento circular e fluido, ele cortou o braço direito do monstro, que agora era apenas o tronco em chamas.
O gigante caiu de joelhos, vencido pela dor e pelo calor intenso.
— [Metaloxis]! — Dhaha moldou sua arma uma última vez em uma lâmina colossal.
Fincou-a no peito do monstro e o rasgou com toda a força até o ombro. Depois, ergueu a espada acima da cabeça, brilhando como uma estrela.
— Queime até às cinzas! — O golpe final decapitou a abominação. A cabeça enorme rolou pelo chão da praça.
Ela parou aos pés de um grupo de aventureiros estupefatos, o corpo gigante desabou logo em seguida.
A batalha principal terminara. Um silêncio momentâneo pairou, quebrado apenas pelo fogo. Então, os aventureiros soltaram um grito de guerra uníssono.
Avançaram com vigor renovado para esmagar os últimos inimigos. Sem seu líder, os esqueletos perderam o rumo e a coordenação, reduzidos a pó em segundos.
Dhaha cambaleou em direção à Mirena e aos outros. Seus músculos relaxaram subitamente e o peso de cada golpe recebido apareceu.
Ele despencou exausto sobre um saco de grãos que Mirena havia arrastado para fora, mal conseguia manter os olhos abertos.
— Você parou aquela coisa sozinho, meus parabéns, garoto — disse ela, coberta de fuligem, mas com um olhar de respeito. — Nunca vi alguém lutar dessa forma.
— Eu… não sei do que… você tá falando… senhora… — ele balbuciou com um sorriso fraco antes de apagar de vez sobre os grãos.
— Tsc! Exibido até quando está desmaiado — Mirena suspirou, mas seu olhar logo se perdeu na destruição ao redor da praça.
Casas em ruínas, famílias chorando sobre corpos e o cheiro ferroso do sangue. Eldon não era, e, provavelmente, nunca mais seria a mesma cidade de três noites atrás.
A mulher caminhou até uma das ossadas carbonizadas dos pequenos esqueletos. Ao tocar no osso, ele se desfez em pó brilhante.
Sua expressão endureceu. A confirmação que ela mais temia estava ali, flutuando no vento em forma de carma negro.
“Essas coisas não são esqueletos de pessoas, foram feitas com carma”, pensou ela, ao olhar para as sombras. “Isso foi obra de um mago”.


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