Capítulo 40: Carne Podre
Daten se arrastou para junto do grupo, agarrando-se às paredes para se manter de pé. O ar ao redor tornava-se cada vez mais denso, saturado pelo carma pútrido que emanava da transformação de Belmorth.
Rachaduras profundas surgiram pelo cubo de carne, fissuras que pulsavam do centro às bordas. Com um estalo orgânico e úmido, os pedaços de tecido começaram a se descolar e revelaram a nova “perfeição” do nobre.
De dentro do amontoado vermelho, o novo corpo de Belmorth emergiu. A face era lisa e distorcida, uma máscara de carne viva. Possuía dois pares de braços repletos de buracos e hematomas.
As pernas eram quatro, assimétricas e grossas, enquanto mantinham a estabilidade por pura força muscular. Sua boca rasgava o rosto de orelha a orelha em um sorriso sádico e desdentado, encimada por três olhos, um deles grotescamente maior que os outros.
— Contemplem! Eu sou a perfei… — proclamou Belmorth, ao erguer os membros deformados em um gesto teatral.
— Parece uma… arte abstrata! — alfinetou Dhaha, enquanto arfava e o suor limpava trilhas de fuligem em seu rosto.
A abominação partiu para o ataque com dois socos descendentes. O douradiano não hesitou: sua arma moldou-se em um escudo largo e reforçado.
O choque do impacto rachou o solo abaixo de Dhaha, empurrando-o contra a parede. Seus pés cavaram dois sulcos perfeitos no piso de pedra enquanto ele tentava frear a investida.
“Ok, isso doeu”, pensou ele, ao sentir a vibração subir pelos ossos. “Nota mental: não bloquear socos de um bife anabolizado de quatro braços.”
Dhaha arrancou em uma corrida de contra-ataque e colidiu o escudo contra o torso de Belmorth. O monstro, porém, travou o avanço ao segurar a chapa de metal com os quatro braços simultâneos.
“Ah, ótimo. Agora tem dois”, pensou o garoto, que já via dobrado. “Vou vomitar se vibrar mais um pouco… e se eu sujar o escudo, vou ter que limpar depois. Que dia.”
Com um empurrão casual de sua força bruta, Belmorth obrigou o guerreiro a recuar outra vez. Daten aproveitou a brecha e golpeou a perna do nobre com seu taco metálico.
Um amassado profundo formou-se na carne do monstro, mas, em segundos, o tecido borbulhou e voltou à forma original.
“Regeneração?”, pensou o jovem ardenteriano, enquanto cobria as próprias pernas com carma para conseguir saltar para longe do alcance das garras.
— Você ainda está aqui? Não vai fugir, como fez em todas as outras invasões? — zombou Belmorth, os três olhos fixos no garoto loiro.
Antes que Daten pudesse responder, um punho colossal cruzou o ar. O jovem desviou com um salto instintivo, mas caiu ao chão quando o brilho de seu carma apagou.
O soco da aberração pulverizou o piso, mas a força foi tanta que os próprios ossos da mão do monstro estalaram.
— Tsc! Acho que gastei carne demais me recuperando daqueles tiros… — murmurou Belmorth, observando a mão deformada se curar lentamente.
Mirena correu até o cano caído e o ergueu com as duas mãos para um ataque lateral desesperado. O impacto foi curto, incapaz de penetrar a couraça de músculos.
Em resposta, Belmorth girou o corpo e acertou um soco que arremessou a garota contra a parede do corredor. A estrutura tremeu, e pedaços do teto desabaram ao redor dela.
— Argh! — gritou Mirena, quando sentiu uma de suas costelas rachar.
Os movimentos de Belmorth não eram velozes, mas eram o suficiente para subjugar os três combatentes exaustos.
— O que foi? — riu o homem-monstro, que se aproximou com passos desajeitados. — Eu nem estou completo e vocês já caíram?
— E quem tá caído? — Dhaha rugiu, em outra investida. — É que o chão tava com saudade de mim! [Metalóxis]!
O escudo alongou-se em um cabo fino, o topo achatou-se em um bico de pássaro e uma lâmina de machado. Uma alabarda.
Dhaha tentou girar a arma para ganhar impulso, mas o ataque foi interrompido bruscamente. A lâmina bateu na parede estreita do corredor antes mesmo de completar o arco.
A arma vibrou nas mãos do douradiano, que ficou parado em uma pose heroica, encarando os três olhos confusos de Belmorth.
“Preciso de mais espaço”, pensou ele, o rosto vermelho de vergonha. “Ou de um corredor mais largo. A culpa é claramente desse lugar!”
Com um puxão, ele soltou a arma e a remodelou para uma maça de espinhos. Saltou sobre um monte de escombros, ele descarregou o golpe no ombro esquerdo do vilão.
O impacto fez o corpo de Dhaha tremer como se tivesse batido em concreto puro. Belmorth sequer vacilou sob o peso do ataque.
— “Você” caído, douradiano! — gritou a abominação.
O monstro atingiu o estômago de Dhaha com um braço e usou os outros dois para prensá-lo de cima para baixo contra o piso rachado.
Dhaha bloqueou o esmagamento ao cruzar os braços, mas suas pernas cederam. O estalo de seus joelhos contra a pedra ecoou pelo lugar.
— Isso vai deixar uma… bela cicatriz… — sussurrou ele, quase inconsciente. — As garotas adoram… cicatrizes… certo?
Seus olhos ficaram pesados, e a mente mergulhou no breu. Seu carma dissipou-se como fumaça.
— Quem é o próxi… — Belmorth começou, mas Mirena o calou com um chute giratório no centro do rosto, coberto de carma.
O vilão recuou, a carne da face tremeu antes de se regenerar. Mirena arfava, a aura fumegante ao seu redor indicava que ela estava no limite.
— Com essa regeneração… até eu venceria! — ela provocou, enquanto escondia a dor na costela.
— Se está no jogo, é para usar, ardenteriana! — respondeu o projeto de homem, com um sorriso macabro.
Ele atacou com os braços direitos, mas Mirena esquivou com uma rolagem acrobática, cravando o cano na costela exposta do monstro.
Ao arrancar um pedaço de carne, ela viu: a página do grimório pulsava dentro do corpo do vilão, envolta em uma película de carma.
“Aí complica…”, pensou ela, percebendo que teria que estripar a criatura para recuperar o que buscava.
Belmorth tentou chutá-la, mas o taco de Daten interceptou o movimento. O garoto estava com o olhar fixo, o carma concentrado inteiramente nas pernas e na arma.
— Eu ainda… tô aqui! — berrou o loiro. O choque entre o taco e a perna monstruosa gerou um brilho que cegou os presentes por um instante.
Ao fim do impacto, ambos recuaram. Daten avançou novamente, ele imitava o estilo que vira em Dhaha usar constantemente.
Mirena aproveitou a brecha. Agarrou pedaços de tijolo e canalizou seu carma através deles, o que transformou os restos de construção em projéteis afiados.
— Basta uma canalização… — ela respirou fundo.
As pedras em chamas voaram como balas e explodiram contra as costelas de Belmorth.
— Argh! Vai ficar atirando pedrinhas até quando? — Belmorth galopou em direção à garota, ignorando Daten.
Ele a atingiu com um soco no plexo e a prensou contra a parede. Ela, agora, estava soterrada em escombros.
— Você não terá a página de minha Signore. Agora…
Antes de finalizar, Daten descarregou um golpe descendente e pesado na perna do vilão.
“Faça igual ao Dhaha!”, ele repetia mentalmente.
O golpe foi forte, mas a carne de Belmorth se fechou quase instantaneamente. O monstro ergueu os quatro punhos, seus olhos brilhavam com sadismo.
— Agora… você se unirá à minha arte!
Os punhos desceram como martelos pneumáticos.
Para Daten, o tempo parou. Ele viu sua vida passar pelos olhos: o pão roubado de cada dia. O riso com poucos dentes de sua irmã. O dia a dia que, mesmo podre, eles conseguiam manter.
“Eu não posso morrer agora… eu prometi pra Spiena!”, o pensamento ecoou como um grito.
Foi então que o ar estalou.
Antes que o último golpe atingisse o garoto, um clarão branco cortou a penumbra. Os braços de Belmorth foram decepados por um corte invisível. O carma no ambiente tornou-se elétrico e afiado.
— Sua exposição foi cancelada — uma voz feminina e firme ecoou.
Entre Daten e o monstro, uma silhueta materializou-se. A armadura verde com o brasão da Guilda da Folha-de-Louro faiscava com arcos de eletricidade.
Daten, ainda no chão, piscou, sem ter certeza se aquilo era real ou uma alucinação de seus últimos momentos. Era Thalwara, a Raposa Relâmpago.

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