A besta recuou alguns passos, a carne borbulhava enquanto tentava desesperadamente regenerar os braços decepados. Diante de seus olhos, raios brancos cobriam o corpo da vice-líder.

    — A Raposa Relâmpago… — balbuciou Daten, encostado na parede fria. 

    Ele mal conseguia acreditar que a lenda da Baixa-Engrenora estava ali, em carne e osso.

    — Bem que eu achei que estava tudo fácil demais para aqueles dois — comentou a mulher, embainhando o facão cinzento de aço.

    Com o corpo parcialmente recuperado, Belmorth estufou o peito e soltou uma gargalhada rouca e desdenhosa.

    — Mas o que temos aqui? A vice-líder da Guilda da Folha-de-Louro, em pessoa… — Ele parou o riso, os três olhos focados nela. — Já guardou a arma? Desistiu antes de começar?

    Em resposta, a corrente de raios ao redor de Thalwara intensificou-se. O ar começou a cheirar a ozônio, e seus olhos brilharam com uma eletricidade pálida.

    — Acho que você não entendeu. Me permita demonstrar — disse ela, ao desaparecer do campo de visão, em um piscar de luz.

    Raios pálidos tocaram cada canto da sala apertada. Com movimentos quase coreografados, a mulher alcançou Mirena e, logo em seguida, o inconsciente Dhaha.

    Belmorth sentiu a eletricidade cruzar seu corpo apenas pela proximidade. Era uma energia densa, diferente de raios comuns, era carma em forma de alta tensão.

    A mulher se movia com uma fluidez surreal. Cada passo era preciso, e eficaz, enquanto deslizava pelo campo de batalha.

    — Nossa prioridade é salvar os reféns — declarou ela, usando as paredes como plataforma para alcançar a porta principal do bloco de celas.

    Ela acomodou Mirena e Dhaha contra a parede do corredor inicial, proximos dos antigos reféns, e acariciou a cabeça da ardenteriana com um gesto breve.

    — Vocês fizeram um bom trabalho. Agora, deixem com a Guilda — Thalwara ergueu-se e caminhou de volta para o centro do caos.

    Belmorth queria atacá-la, mas hesitou. Sabia que sua massa muscular e peso nunca superariam aquela velocidade surreal.

    — Não esperava que usasse seu carma tão bem. Será uma ótima refeição para minha Signore — sibilou o mago, a língua passava pelos lábios secos.

    — Para uma criatura tão grotesca, você até que tem bons olhos — Thalwara pousou a mão novamente no cabo do facão. — Percebeu o carma rápido até demais.

    — Hahaha… Eu conheço muito sobre vo… — O rosto do monstro desceu alguns centímetros. Uma de suas pernas acabara de ser esmagada por um golpe súbito.

    Daten havia golpeado a junta do monstro com o taco, erguendo a arma agora como um espadachim orgulhoso faria com sua lâmina.

    — Eu ainda tô aqui… filhote de cruz-credo! — exclamou o pequeno ardenteriano, ofegante.

    — Criança maldita! — Belmorth rugiu, ao regenerar a perna pela enésima vez.

    Ele ergueu os punhos para esmagar o garoto, mas cortes profundos explodiram de sua carne, seguidos por uma descarga de raios brancos.

    — Eu ia tirar você daqui agora, garoto… — Thalwara olhou de soslaio para Daten. — Mas você parece discordar. Consegue me acompanhar?

    A mulher curvou as pernas, os braços em posição de guarda, e apontou a lâmina cinzenta diretamente para o peito da abominação.

    — Hmph! Até parece… que consigo… — Daten sorriu, mesmo com as pernas tremendo. — Mas eu não… vou cair… tão fácil!

    O mago retomou o ataque, focado em Daten. Uma chuva de socos brutais veio em sua direção, mas o garoto os rebatia com “home runs” improvisados.

    Cada colisão fazia a estrutura da fábrica vibrar. O carma de Daten brilhava em sintonia com os ataques, enquanto soltava fagulhas nas paredes rachadas.

    — Muito bem — Thalwara sorriu de forma quase infantil. — Eu te nomeio membro temporário da Guilda da Folha-de-Louro. Não me decepcione.

    Os ataques da mulher acertaram em cheio. Um golpe horizontal partiu uma perna dianteira da criatura, e um corte vertical em corrida fez Belmorth tombar de lado.

    Daten seguiu o ritmo, golpeava o tronco deformado. O mago estava encurralado, obrigado a usar os quatro braços como um escudo inútil contra a dupla.

    “Esse jovem tem talento”, pensou Thalwara, ao se preparar para mais um golpe.

    Belmorth saltou e regenerou os membros em pleno ar, com um esforço desesperado pela sobrevivência. Ao tocar o chão, tentou agarrar a Raposa com suas mãos gigantes, mas Thalwara desapareceu em um clarão. 

    Ela usou as paredes como piso, subiu no lombo do monstro e executou uma sequência de cortes que transformaram as costas dele em tiras de carne.

    “Maldição! Se eu tivesse mais corpos, eu estaria comple…”. O pensamento foi interrompido pelo taco de Daten, que atingiu exatamente a mesma perna de antes.

    — Argh!!! — o urro de Belmorth foi ensurdecedor.

    Chamas brancas e fumaça envolveram o ponto de impacto. Pedaços de pedra e carne voaram para todos os lados com a força da pancada.

    Diferente das outras vezes, Daten não causou apenas um hematoma. A perna inteira do mago de carne simplesmente explodiu.

    O garoto recuou, chocado com a própria força. Olhou para o taco e depois para o que restara de Belmorth.

    — Rapaz… isso tá certo? — ele ofegou. — Uff… Esse claramente era… meu plano desde… o começo!

    Thalwara aproveitou a abertura e lançou uma série de estocadas invisíveis contra a outra perna dianteira..

    — Para alguém tão grande, você é bem frágil — zombou a douradiana. — Comeu pouco feijão?

    Os membros de Belmorth demoraram a reagir, a regeneração dele chegava ao limite.

    — Quieta! Eu estou incompleto… com pouca matéria prima — esbravejou o vilão, a respiração pesada e errática. — Mas vou fazer vocês pagarem!

    Ele tentou uma última carga: galopou pelo corredor e atravessou as paredes com os braços estendidos. Tentava usar os escombros para tentar enterrá-los.

    “O cérebro dele apodreceu junto com a carne”, pensou Thalwara, com uma calma surreal.

    Daten foi mais ousado. Correu em paralelo à besta e saltou sobre seu lombo.

    Belmorth tentou colidir contra a parede para esmagar o garoto, mas Daten estava fixado como um carrapato, enquanto golpeava sem parar.

    O som de “Bonk” ecoava furiosamente. Daten abriu uma fenda nas costelas do monstro com um de seus golpes, mas seu taco ficou preso entre os ossos.

    — Qual foi? — praguejou ele, ao puxar a arma. 

    Foi quando a ferida se dilatou e revelou um certo brilho branco.

    Daten parou de puxar e apertou os olhos, coisas brilhantes dentro de monstros geralmente significavam dinheiro Suas prioridades mudaram instantaneamente.

    Enquanto se equilibrava no lombo da fera, ele enfiou a mão livre entre as costelas abertas. Belmorth debateu-se em pura agonia.

    — Fica quieto… arte abstrata! — murmurou o pequeno para si mesmo. — Não tá vendo… que eu tô tentando… pilhar o seu cadáver?

    Com um puxão, a página brilhante soltou-se do amálgama de carne.

    — Isso deve valer uma grana — Daten guardou o papel amassado no bolso.

    Ele recuperou o taco com um segundo puxão violento, arrancando um rugido de ódio e desespero da besta. As pernas de Belmorth finalmente cederam, e o corpo colossal tombou. 

    Satisfeito com o saque, Daten saltou do lombo do monstro e aterrissou com perfeição ao lado de Thalwara.

    — Não vai… acabar com ele? — perguntou o garoto.

    Antes que ela respondesse, a criatura começou a se desfazer. O centauro de carne derreteu e transformou-se em uma poça fétida de carne podre.

    — Ah… — Daten soltou, ao ver a vitória se concretizar sozinha.

    A carne apodrecia em velocidade acelerada. A regeneração parou completamente. 

    Belmorth tentou erguer um punho, mas os músculos simplesmente se desprenderam do osso.

    — Não… eu não aceito isso! — gritou o vilão, enquanto sua “escultura perfeita” desmoronava como argila sob a chuva.

    A poça borbulhante expeliu o corpo verdadeiro de Belmorth, e ele caiu de joelhos no chão da fábrica, nu, ofegante e fragilizado. Ele voltara a ser apenas um homem.

    — Acabou, Belmorth — disse Thalwara, facão apontado ao pescoço do nobre. — Você está preso em nome da Guilda da Folha-de-Louro.

    O homem suspirou e cobriu o rosto com as mãos trêmulas. Thalwara cobriu-se com o carma elétrico, como uma ameaça.

    De repente, o nobre ergueu a cabeça. Por entre os dedos, seus olhos queimavam com um ódio sobrenatural.

    — Preso? Hahaha!!!

    Com o grito, as sombras ao redor distorceram-se violentamente. Uma delas se esticou como um tentáculo, tocando os pés do mago.

    — Que hora mais conveniente, Kharon… — Belmorth murmurou, sem olhar para trás.

    — Estamos partindo, Belmorth — respondeu uma voz grossa vinda das sombras.

    — Não mesmo! — Thalwara explodiu em uma corrida.

    A velocidade dela era incomparável, mas seu corpo travou a um metro do alvo. O som crepitante de sua aura morreu instantaneamente.

    Belmorth baixou as mãos e revelou o rosto cínico de antes, mas algo fizera Thalwara congelar.

    — Você… — a voz da vice-líder tornou-se trêmula. O facão pareceu pesar uma tonelada em sua mão. — Por que… você?

    Uma onda de choque percorreu a espinha da mulher, ela conhecia aquele rosto.

    — Agradeça a sorte que tem. Não haverá segunda vez — ameaçou Belmorth.

    — Thalwara! — Daten gritou das paredes, impotente.

    As sombras devoraram o mago como uma maré faminta e negra.

    — Uma semana… — Belmorth disse, o corpo já coberto até o pescoço. — Quando nosso ritual acabar, vou destruir cada parte desta cidade!

    Thalwara recobrou os sentidos, mas seu golpe cortou apenas o vento.

    Ela baixou a arma, o corpo ainda o. No local onde Belmorth fora consumido, um pequeno objeto metálico brilhava no sangue. Era um brasão da Guilda.

    — Aldric…? — murmurou ela, tapando a própria boca para conter o grito.

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