A ala hospitalar era silenciosa, repleta de macas brancas e aparelhos de medição ligados aos pacientes. Não havia engrenagens, falatório ou magos prontos para matar, apenas o cheiro de antisséptico.

    Quando Mirena acordou, seus olhos percorreram o ambiente. Dhaha estava capotado, em seu quinto sono, enquanto Daten comia uma tigela de mingau em silêncio.

    “Onde eu…”, pensou a garota, a mente ainda envolta em névoa. Ao tentar se sentar, a voz de Daten a alcançou.

    — Ah! Cê acordou — disse o garoto, notando o movimento. Sua voz, porém, estava sem o ânimo habitual. — Tá se sentindo melhor?

    — Um pouco… ainda estar zonza — a voz de Mirena soou mais forte e arrastada que o normal, a guarda baixa pelo cansaço.

    — “Estar”? Você é de fora? — Daten perguntou, curioso.

    O rosto de Mirena foi inundado por um vermelho vivo. O sotaque que ela tanto lutava para polir e esconder tinha escapado por uma fresta criada pela exaustão.

    — Eu… eu… — Ela tentou se defender, mas as palavras morreram na garganta.

    — Relaxa. É legal. — Daten forçou um sorriso que não chegou aos olhos. — Combina com você.

    Enquanto conversavam, Dhaha dormia tão calmamente que uma bolha de saliva se formou em sua boca. O ronco era leve e tranquilo.

    A bolha inflou até estourar com um estalo quase inaudível. O som foi o suficiente para o douradiano acordar num pulo, enquanto socava o ar cegamente.

    — TÔ ACORDADO! CAÍ DENTRO! — gritou ele, os olhos arregalados.

    — AAAH! — Mirena e Daten quase caíram de suas macas com o susto repentino.

    — Hm? Por que vocês tão gritando? — Dhaha, já de pé, começou seus alongamentos pós-sono, como se nada tivesse acontecido.

    — Eu que pergunto! Você gritou do absoluto nada! — Daten reclamou, com lágrimas de susto nos olhos.

    — Eu pensei que fosse morrer… — Mirena tentou controlar os batimentos cardíacos. — É isso que chamam de “pico de energia”?

    — Ah… isso. — Dhaha fixou o olhar no vazio. — Foi mal. Sonhei que tava lutando com aquele coelho azul gordo. Errei, fui moleque.

    Daten permaneceu quieto, enquanto remexia o mingau frio, mas Mirena encarou o guerreiro indignada. Se olhares arremessassem facas, o douradiano estaria em apuros agora.

    Ignorando a tensão, Dhaha analisou as faixas em seu corpo e deu alguns pulinhos de teste no chão frio.

    — Tratamento por carma é assustador, não é? — concluiu ele.

    Daten tocou a mandíbula, onde quase fora mordido, e Mirena pressionou a costela fraturada. A dor ainda estava lá, mas o osso estava práticamente recuperado.

    — Esta é a segunda vez que passo por uma… — sussurrou Mirena, ao olhar para o encaixe metálico do ombro. — Espero que seja a última.

    — Nem parece que um gogoboy mecânico me jogou na parede e me chamou de “minha lagartixa” — Daten tirou algumas faixas dos braços, enquanto resmungava.

    Dhaha virou a cabeça lentamente, confuso.

    — Nem parece que o quê?

    — Nada não.

    Um silêncio constrangedor cobriu a sala, até que Dhaha pegou sua tigela de mingau com entusiasmo e começou a devorá-la.

    — Bom, se a gente tá vivo e comendo gororoba, quer dizer que vencemos a escultura abstrata, certo?

    — Eu também pensava isto, mas desmaiei logo após você — Mirena pegou sua própria tigela, os olhos voltados para Daten.

    O garoto era o único que vira o final. Sentindo o peso da expectativa, ele começou a falar sem levantar a cabeça.

    — A gente… quase venceu — murmurou.

    — “A gente”? — questionou Dhaha. 

    — “Quase”? — completou Mirena.

    — É. Depois que cês foram de vala, a senhorita Thalwara brotou do nada e encheu ele de porrada. — Ele engoliu uma colherada de mingau.

    — Isso parece bem heróico para um “quase” — Mirena arqueou a sobrancelha, desconfiada.

    Daten mastigou lentamente, fazendo um suspense desnecessário antes de soltar a bomba.

    — No final, o Belmorth fugiu. Uma sombra engoliu ele, nhac, e acabou.

    — Uma sombra… comeu ele? — Dhaha piscou. — Tipo… nhac?

    — Exato. — Daten fez a cara mais séria possível. — Nhac.

    De forma coreografada, os dois magos deitaram de costas e soltaram suspiros longos. A vitória parecia incompleta, amarga como aquele mingau.

    — E agora? — Dhaha afundou o rosto no travesseiro. — A gente senta e espera uma pista cair do céu?

    — Tenho quase certeza de que a “Signore” tem relação com o necromante — Mirena rolou pela cama. — Se eu, ao menos, tivesse pego aquela folha…

    A palavra agiu como um gatilho. Daten largou a tigela, vasculhou os bolsos e tirou um papel que emitia um brilho fraco e pulsante.

    — Era essa folha que você queria? — perguntou ele, com o orgulho escancarado no olhar de ladrão profissional.

    Os olhos de Mirena quase saltaram das órbitas.

    — Como…?

    — Enquanto eu tava pendurado nas costas do monstro… eu peguei. — Ele deu de ombros. — Pelo menos pra bater carteira eu sirvo, né?

    Quando o artefato tocou a palma da garota, o brilho refletiu em suas íris negras. Imagens e memórias gentis reverberaram em sua mente.

    Uma dor doce surgiu em sua garganta e transbordou pelos olhos. Lágrimas pesadas começaram a cair silenciosamente sobre o papel antigo.

    — Eu… eu consegui… — ela soluçava, apertando a folha contra o peito.

    Dhaha e Daten se assustaram. O douradiano aproximou-se hesitante, sem saber se devia oferecer um abraço ou um lenço.

    — Mirena, cê tá bem?!

    — Sim… — ela sorriu entre as lágrimas. — Eu não poderia estar melhor!

    Os garotos suspiraram aliviados. Enquanto Mirena gargalhava de alívio, Daten sentiu um aperto no peito. 

    “Eles conseguiram. E eu? Eu só fugi e roubei”, pensou ele.

    — Não assusta a gente assim, pô — Dhaha riu. — Pensei que ia ter que usar meu plano de emergência e apagar o Daten.

    — Ei! Eu ainda tô aqui, beleza? — o pequeno protestou.

    Mirena encarou a folha. A escrita era rebuscada, uma língua antiga que não pertencia àquela era.

    — Você entende o que tá escrito? — Dhaha perguntou, curioso.

    — Não completamente, mas… eu consigo traduzir. — respondeu ela. 

    — Que massa. Deve ser importante pra caramba, então — comentou Daten.

    — É a coisa mais importante do mundo.

    Percebendo que o clima estava denso demais, Dhaha cortou para o que importava.

    — E o fujão? Disse mais alguma coisa antes de… nhac?

    — Ele falou sobre um ritual — Daten ajeitou a postura. — Daqui a uma semana.

    — Ritual? Isso deve estar relacionado aos Vagantes — Mirena concluiu, a seriedade de volta aos olhos.

    — Bom, é isso! — Dhaha saltou da cama. — Temos uma semana pra treinar e quebrar aquele burguês safado em dois!

    Mirena levantou-se e encaixou o braço metálico. Luzes brancas percorreram as juntas assim que o carma fluiu por ele.

    Daten permaneceu sentado. Ele se sentia um peso morto, o guia que precisava ser protegido enquanto os outros faziam o trabalho sujo.

    — Vamos salvar sua irmã! — Dhaha exclamou, tentando consolar o pequeno.

    Mas a frase soou como um lembrete da fraqueza de Daten. Ele não queria ser salvo, ele queria a força de Dhaha, a velocidade de Thalwara.

    — É… vão… — respondeu sem vida. 

    Ele era só o Daten, o ladrãozinho da rua meia nove.

    — Não se preocu…  — Quando Dhaha ia completar a frase, a porta abriu-se com uma força extraordinária, atingindo-o em cheio no rosto e jogando-o no chão.

    Mirena observou a cena em silêncio, agradecendo por não ser a primeira da fila. Diante deles, a voz de Syndona ecoou como um trovão na planície:

    — Chega de descanso — disse a gelariana, com um sorriso desafiador. — Vamos treinar!

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