Capítulo 43: Olho da Tempestade
A ala hospitalar era silenciosa, repleta de macas brancas e aparelhos de medição ligados aos pacientes. Não havia engrenagens, falatório ou magos prontos para matar, apenas o cheiro de antisséptico.
Quando Mirena acordou, seus olhos percorreram o ambiente. Dhaha estava capotado, em seu quinto sono, enquanto Daten comia uma tigela de mingau em silêncio.
“Onde eu…”, pensou a garota, a mente ainda envolta em névoa. Ao tentar se sentar, a voz de Daten a alcançou.
— Ah! Cê acordou — disse o garoto, notando o movimento. Sua voz, porém, estava sem o ânimo habitual. — Tá se sentindo melhor?
— Um pouco… ainda estar zonza — a voz de Mirena soou mais forte e arrastada que o normal, a guarda baixa pelo cansaço.
— “Estar”? Você é de fora? — Daten perguntou, curioso.
O rosto de Mirena foi inundado por um vermelho vivo. O sotaque que ela tanto lutava para polir e esconder tinha escapado por uma fresta criada pela exaustão.
— Eu… eu… — Ela tentou se defender, mas as palavras morreram na garganta.
— Relaxa. É legal. — Daten forçou um sorriso que não chegou aos olhos. — Combina com você.
Enquanto conversavam, Dhaha dormia tão calmamente que uma bolha de saliva se formou em sua boca. O ronco era leve e tranquilo.
A bolha inflou até estourar com um estalo quase inaudível. O som foi o suficiente para o douradiano acordar num pulo, enquanto socava o ar cegamente.
— TÔ ACORDADO! CAÍ DENTRO! — gritou ele, os olhos arregalados.
— AAAH! — Mirena e Daten quase caíram de suas macas com o susto repentino.
— Hm? Por que vocês tão gritando? — Dhaha, já de pé, começou seus alongamentos pós-sono, como se nada tivesse acontecido.
— Eu que pergunto! Você gritou do absoluto nada! — Daten reclamou, com lágrimas de susto nos olhos.
— Eu pensei que fosse morrer… — Mirena tentou controlar os batimentos cardíacos. — É isso que chamam de “pico de energia”?
— Ah… isso. — Dhaha fixou o olhar no vazio. — Foi mal. Sonhei que tava lutando com aquele coelho azul gordo. Errei, fui moleque.
Daten permaneceu quieto, enquanto remexia o mingau frio, mas Mirena encarou o guerreiro indignada. Se olhares arremessassem facas, o douradiano estaria em apuros agora.
Ignorando a tensão, Dhaha analisou as faixas em seu corpo e deu alguns pulinhos de teste no chão frio.
— Tratamento por carma é assustador, não é? — concluiu ele.
Daten tocou a mandíbula, onde quase fora mordido, e Mirena pressionou a costela fraturada. A dor ainda estava lá, mas o osso estava práticamente recuperado.
— Esta é a segunda vez que passo por uma… — sussurrou Mirena, ao olhar para o encaixe metálico do ombro. — Espero que seja a última.
— Nem parece que um gogoboy mecânico me jogou na parede e me chamou de “minha lagartixa” — Daten tirou algumas faixas dos braços, enquanto resmungava.
Dhaha virou a cabeça lentamente, confuso.
— Nem parece que o quê?
— Nada não.
Um silêncio constrangedor cobriu a sala, até que Dhaha pegou sua tigela de mingau com entusiasmo e começou a devorá-la.
— Bom, se a gente tá vivo e comendo gororoba, quer dizer que vencemos a escultura abstrata, certo?
— Eu também pensava isto, mas desmaiei logo após você — Mirena pegou sua própria tigela, os olhos voltados para Daten.
O garoto era o único que vira o final. Sentindo o peso da expectativa, ele começou a falar sem levantar a cabeça.
— A gente… quase venceu — murmurou.
— “A gente”? — questionou Dhaha.
— “Quase”? — completou Mirena.
— É. Depois que cês foram de vala, a senhorita Thalwara brotou do nada e encheu ele de porrada. — Ele engoliu uma colherada de mingau.
— Isso parece bem heróico para um “quase” — Mirena arqueou a sobrancelha, desconfiada.
Daten mastigou lentamente, fazendo um suspense desnecessário antes de soltar a bomba.
— No final, o Belmorth fugiu. Uma sombra engoliu ele, nhac, e acabou.
— Uma sombra… comeu ele? — Dhaha piscou. — Tipo… nhac?
— Exato. — Daten fez a cara mais séria possível. — Nhac.
De forma coreografada, os dois magos deitaram de costas e soltaram suspiros longos. A vitória parecia incompleta, amarga como aquele mingau.
— E agora? — Dhaha afundou o rosto no travesseiro. — A gente senta e espera uma pista cair do céu?
— Tenho quase certeza de que a “Signore” tem relação com o necromante — Mirena rolou pela cama. — Se eu, ao menos, tivesse pego aquela folha…
A palavra agiu como um gatilho. Daten largou a tigela, vasculhou os bolsos e tirou um papel que emitia um brilho fraco e pulsante.
— Era essa folha que você queria? — perguntou ele, com o orgulho escancarado no olhar de ladrão profissional.
Os olhos de Mirena quase saltaram das órbitas.
— Como…?
— Enquanto eu tava pendurado nas costas do monstro… eu peguei. — Ele deu de ombros. — Pelo menos pra bater carteira eu sirvo, né?
Quando o artefato tocou a palma da garota, o brilho refletiu em suas íris negras. Imagens e memórias gentis reverberaram em sua mente.
Uma dor doce surgiu em sua garganta e transbordou pelos olhos. Lágrimas pesadas começaram a cair silenciosamente sobre o papel antigo.
— Eu… eu consegui… — ela soluçava, apertando a folha contra o peito.
Dhaha e Daten se assustaram. O douradiano aproximou-se hesitante, sem saber se devia oferecer um abraço ou um lenço.
— Mirena, cê tá bem?!
— Sim… — ela sorriu entre as lágrimas. — Eu não poderia estar melhor!
Os garotos suspiraram aliviados. Enquanto Mirena gargalhava de alívio, Daten sentiu um aperto no peito.
“Eles conseguiram. E eu? Eu só fugi e roubei”, pensou ele.
— Não assusta a gente assim, pô — Dhaha riu. — Pensei que ia ter que usar meu plano de emergência e apagar o Daten.
— Ei! Eu ainda tô aqui, beleza? — o pequeno protestou.
Mirena encarou a folha. A escrita era rebuscada, uma língua antiga que não pertencia àquela era.
— Você entende o que tá escrito? — Dhaha perguntou, curioso.
— Não completamente, mas… eu consigo traduzir. — respondeu ela.
— Que massa. Deve ser importante pra caramba, então — comentou Daten.
— É a coisa mais importante do mundo.
Percebendo que o clima estava denso demais, Dhaha cortou para o que importava.
— E o fujão? Disse mais alguma coisa antes de… nhac?
— Ele falou sobre um ritual — Daten ajeitou a postura. — Daqui a uma semana.
— Ritual? Isso deve estar relacionado aos Vagantes — Mirena concluiu, a seriedade de volta aos olhos.
— Bom, é isso! — Dhaha saltou da cama. — Temos uma semana pra treinar e quebrar aquele burguês safado em dois!
Mirena levantou-se e encaixou o braço metálico. Luzes brancas percorreram as juntas assim que o carma fluiu por ele.
Daten permaneceu sentado. Ele se sentia um peso morto, o guia que precisava ser protegido enquanto os outros faziam o trabalho sujo.
— Vamos salvar sua irmã! — Dhaha exclamou, tentando consolar o pequeno.
Mas a frase soou como um lembrete da fraqueza de Daten. Ele não queria ser salvo, ele queria a força de Dhaha, a velocidade de Thalwara.
— É… vão… — respondeu sem vida.
Ele era só o Daten, o ladrãozinho da rua meia nove.
— Não se preocu… — Quando Dhaha ia completar a frase, a porta abriu-se com uma força extraordinária, atingindo-o em cheio no rosto e jogando-o no chão.
Mirena observou a cena em silêncio, agradecendo por não ser a primeira da fila. Diante deles, a voz de Syndona ecoou como um trovão na planície:
— Chega de descanso — disse a gelariana, com um sorriso desafiador. — Vamos treinar!

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.