Capítulo 44: Pré-Guerra (1)
— Argh! — Dhaha esfregou o braço pela enésima vez, os olhos arregalados enquanto caçava os insetos no ar. — Esses mosquitos são do tamanho de um pássaro! Por que ninguém avisou que a gente ia vir pro meio do mato?
— Porque você parecia animado demais para fazer alguma pergunta — Mirena respondeu, ao desviar de uma raiz do chão.
O rosto do douradiano ainda estava vermelho no lado direito, uma marca da porta que Syndona acertou nele horas atrás.
A gelariana caminhava na frente, os chifres ziguezagueantes cortando a vegetação como se fosse nada, e completamente imune aos mosquitos.
— Bonito galo — Mirena cutucou, um sorriso surgia no canto da boca.
— Pode virar marca registrada. Um herói tem que ter cicatriz — Dhaha bufou, enquanto esfregava a bochecha. — É algo impressionante!
— Vai impressionar é o espelho quando você acordar amanhã.
— Haha! Muito engraçada. — O sarcasmo do garoto era notável.
A floresta ao redor era estranha. Árvores retorcidas, envelhecidas pela idade, e pedaços de pedra lascada espalhados pelo chão, como destroços de algum lugar.
— Que lugar é esse? — perguntou Mirena, enquanto tocava uma coluna caída coberta de musgo. A superfície era fria, desgastada pelo tempo.
A mulher alta parou e apontou para o horizonte, onde uma encosta rochosa emergia das árvores.
— Nas ruínas da montanha, fica perto de Engrenora. Antigamente era um posto avançado, durante a era perdida.
— Parece que destrui… — Dhaha tentou falar, mas engasgou com um mosquito. — Argh! Que gosto horrível!
— Menos um mosquito para te picar — Mirena comentou, seca.
— Isso não me ajuda!
Dhaha cuspiu várias vezes, a cara de nojo tão exagerada que até Syndona virou pra olhar.
— Muita guerra aqui, muita morte. Por isso carma ainda forte — a gelariana explicou, retomando a caminhada sem esperar os dois. — Você sentir?
Mirena fechou os olhos por um segundo. O ar parecia mais denso, como se uma névoa se espalhasse por toda a área. Era até mais difícil de respirar.
— Consigo sentir… — respondeu ela, baixinho.
— Eu consigo sentir um cheiro forte, que nem naquela casa — Dhaha completou, enquanto coçava a nuca. — Mas isso me deu fome, esse mato não tem nada pra comer?
— Depois. Primeiro iremos treinar.
— Claro. Sempre depois.
Chegaram a uma clareira enorme depois de mais alguns minutos de caminhada. O chão era de terra batida, cercado por pilares de pedra desmoronados e algumas árvores isoladas que teimavam em crescer no meio dos escombros. O sol batia forte no centro e iluminava o espaço como um holofote natural.
A gelariana levantou a mão.
— Parou. Treinar aqui.
Mirena olhou em volta, confusa. O lugar era isolado, isso era verdade, mas também parecia antigo. Era realmente uma ruína.
— Aqui? No meio do nada? Por quê? — perguntou ela.
— Não tem lugar melhor pra treinar do que bom e velho matagal — A outra cruzou os braços, o sorriso enigmático no rosto azul claro. — Pouco visitado, ninguém vai incomodar. E carma forte ajuda.
Ela caminhou até um tronco caído e sentou, as pernas cruzadas como uma professora em cátedra. O sol batia nos chifres dela, criando reflexos prateados.
— Thalwara falou. Nós ter uma semana até o ritual.
— A gente sabe — Mirena respondeu, o braço mecânico rangeu suavemente quando ela o ajustou.
— Não sabe. — A mulher inclinou a cabeça, os olhos estrelados fixos neles. — Porque vocês estar fracos demais. Não vai poder estar na missão.
Dhaha parou de coçar os braços. A expressão mudou na hora.
— Fracos? Eu enfrentei um titã, uma aberração de carne e ainda tô de pé! Botei o Belmorth pra correr!
— Estar de pé não significa estar pronto. — A gelariana ergueu o dedo, o gesto lento e didático. — Vocês sobreviveram. Não venceram.
Mirena sentiu o peso sobre os ombros. Era verdade, Belmorth tinha escapado e o necromante ainda estava solto.
Eles só tinham apenas sobrevivido.
— Eu cuidar de vocês essa semana — a alta completou, o sorriso voltando.
Algo no tom de voz dela fez Mirena engolir em seco. Não era uma ameaça direta, mas também não era exatamente um convite amigável. Dhaha também sentiu o frio na espinha e ficou imóvel por um segundo.
— Cuidar… como? — perguntou a ardenteriana, cautelosa.
— Treinar, treinar e treinar. — Syndona bateu palmas, o som ecoou entre as pedras. — Até não aguentar mais. Depois, treinar de novo.
— Parece… divertido? — Dhaha tentou, sem convicção alguma na voz.
— Vai ser. Pra mim.
A gelariana levantou do tronco e bateu as mãos para limpar a poeira. Os olhos dela brilharam por um instante, aquelas estrelas que dançavam em suas pupilas.
— Treino de hoje: combate desarmado. Um golpeia com punho coberto de carma. Outro defende com carma para aumentar resistência.
Mirena franziu a testa.
— Dosagem…?
— Sim. Controlar quanto carma usar. — A outra caminhou em volta deles, os passos lentos. — Se você usar pouco, defesa falha. Se usar muito, desperdiça energia. Fica cansado rápido e morre rápido.
— Faz sentido — Dhaha concordou, com um balançar de cabeça.
— Claro que faz. Eu que estar ensinando.
A guerreira parou, pegou duas pedras do chão. Eram do tamanho de um punho, irregulares e pesadas.
— Vou demonstrar. — Ela estendeu as pedras para eles. — Jogar em mim. Agora.
Mirena segurou a pedra, mas hesitou. Olhou para Syndona, depois para a pedra, depois para a mulher de novo.
— Você quer que a gente… atire em você?
— Isso mesmo.
— E se acertar?
— Vai doer. — A alta deu de ombros, casualmente. — Mas não vai matar. Provavelmente.
— Provavelmente? — Mirena repetiu, incrédula.
— Tudo na vida tem risco. Até sair da ca…
Dhaha não esperou o fim da conversa. Com um movimento rápido, ele arremessou a pedra com toda força que tinha. O projétil cortou o ar assobiando e acertou o ombro da gelariana.
Uma nuvem de poeira levantou no impacto, e quando clareou, Syndona estava exatamente no mesmo lugar, ilesa.
No ponto do impacto, um brilho pálido de carma ainda pulsava fraco antes de desaparecer como uma lamparina que se apaga.
— Incrível! — Dhaha pulou no lugar, os olhos agora brilhavam mais que o normal. — Nem arranhou! Como você fez isso?
— Canalização e Compressão. — Ela olhou para o próprio ombro, massageando de leve. — Usei carma suficiente pra absorver. No ponto certo e na hora certa.
— E isto não doeu? — Mirena perguntou.
— Doer, doeu. Mas passa.
Mirena observava em silêncio, a pedra ainda na mão. O peso dela era totalmente diferente agora.
“Ela quer que a gente aprenda dosagem… atirando pedras na própria tutora? Que tipo de método é esse?”, pensou Dhaha. “Gostei.”
— Agora ser a vez de vocês. — A mulher alta apontou para o centro da clareira, onde o sol criava um círculo dourado na terra batida. — Vocês dois. Posição de combate.
Dhaha avançou sem hesitar, os punhos cerrados e os olhos com aquele fogo dourado que era sua marca registrada. Os pés encontraram a posição naturalmente, como se tivesse nascido pra isso.
Mirena largou a pedra no chão e respirou fundo. O ar da clareira entrou nos pulmões, fresco e denso ao mesmo tempo. Ela caminhou até o lado do amigo, e sentiu o braço mecânico ranger suavemente enquanto assumia a guarda.
O sol batia nos dois.
Syndona, sentada no tronco, observava com um sorriso selvagem, como se estivesse prestes a ver algo interessante de verdade. Os olhos estrelados brilhavam.
— Vamos começar.
A clareira ficou em silêncio. Se ouvia apenas o som do vento nas árvores retorcidas e a respiração dos dois combatentes.
O duelo estava prestes a começar.

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