Daten encarava o teto branco da ala médica. O silêncio era cortado apenas pelos passos distantes dos enfermeiros e o som dos aparelhos de medição.

    As lembranças da manhã inundavam sua cabeça.

    O urso bombado metálico. Aquela mandíbula de aço se abrindo e o hálito de óleo e sangue que preencheu seus pulmões.

    “Eu não consegui…”

    Ele fechou os olhos com força, mas as imagens continuavam lá. Dhaha segurava a boca da fera, Mirena também apareceu do nada para salvá-lo. Ele, e apenas ele, carregado nos ombros como um peso morto.

    A porta rangeu.

    — Daten Stajäger? — A médica da entrada conferiu a prancheta. — Está liberado. Precisa desocupar o leito.

    Era a mesma médica que falara com Thalwara.

    — Já? — O ardenteriani sentou na maca e sentiu as costas reclamarem.

    — Outros pacientes precisam do espaço, e seus ferimentos já foram tratados. — Ela fez um gesto para a porta. — Pode ir.

    Daten desceu da maca sem reclamar. As pernas firmaram, o corpo conseguiu se manter de pé.

    Ao sair do prédio da guilda, o frenesi diário da Alta-Engrenora o engoliu.

    O sol brilhava forte, diferente da fumaça na Baixa-Engrenora que ele conhecia tão bem. As ruas eram limpas, organizadas, cheias de gente que parecia viver bem suas vidas.

    Ele caminhou sem direção, os pés o levavam por conta própria.

    Num beco, duas crianças brincavam de esconde-esconde. Um menino menor contava com as mãos no rosto, enquanto a irmã mais velha se escondia atrás de um barril.

    O riso delas ecoou nas orelhas pontudas do ardenteriano. Daten paralisou

    Numa janela aberta, viu uma família sentada à mesa. O pai servia sopa, enquanto a mãe arrumava o cabelo da filha. Coisas simples, normais, mas que fizeram os pés do garoto plantarem no chão.

    Algo apertou dentro de seu peito: Spiena. Onde ela estava agora? Com medo? Sozinha? Viva?

    “Ela chegou aqui há alguns dias, mas não ficou muito tempo”, a memória da mulher na cela veio como um soco.

    — Droga… — Daten apertou os punhos, as unhas cravando na palma.

    Ele virou a esquina e quase trombou com duas figuras.

    — E foi isso que o almoxarifado reportou. — disse uma voz preguiçosa, quase entediada.

    Thalwara estava ali, de braços cruzados, enquanto ouvia o relatório de um gelariano com o emblema da Guilda.

    O rapaz tinha corpo definido, ombros largos e músculos notáveis, mas a estatura física e o rosto eram de criança. Dezesseis anos no máximo.

    Os chifres espiralavam para trás, lisos e bem cuidados. Tinham cabelos pretos que escorriam até o pescoço. Sua pele era azul escura, quase roxa.

    Vestia uma camisa branca de mangas curtas, calças de couro preto com canos largos e joelheiras de couro. Na cintura, uma manta de pele de lobo cinza completava o visual.

    — Jötun. — Thalwara suspirou. — Você podia ter entregado isso há três horas.

    — Tava dormindo. — O tal Jötun respondeu, bocejando. — Mas tá tudo certo. Conferi mais de uma vez.

    — Preguiçoso.

    — “Eficiente”. — Ele deu de ombros. — Posso ir?

    Thalwara revirou os olhos, mas acenou um sim. Jötun virou as costas e sumiu na multidão sem pressa alguma, as mãos nos bolsos.

    Daten ficou parado, sem saber se devia se aproximar. Foi então que Thalwara o notou ali.

    — Daten! — a voz dela não era dura, só surpresa. — Está de pé já?

    — A médica me expulsou — ele respondeu, andando até ela.

    — Fico feliz que esteja bem. Sua recuperação foi rápida.

    Daten não respondeu. “Bem” não era a palavra mais correta.

    — Você foi corajoso lá embaixo — Thalwara continuou. — Poucos teriam enfrentado aquilo.

    — Corajoso? — Daten riu sem humor. — Eu quase virei comida de autômato. Se não fossem eles…

    — Sobreviveu. É isso importa.

    — Sobrevivi. — Ele repetiu a palavra, mas sentia ela corroê-lo. — Enquanto minha irmã…

    Ele não terminou a frase, Thalwara também não perguntou. Um silêncio constrangedor pairou entre os dois.

    — Preciso ir — a vice-regente disse, finalmente. — Papéis para resolver, treinos para organizar… A semana vai ser longa.

    Ao ver a mulher se afastando, o ardenteriano sentiu o chão sumir.

    Se ela fosse embora agora, ele ficaria ali, parado, sozinho. Mais uma vez, mais fraco, mais inútil.

    — Espera!

    A palavra escapou antes que ele pudesse pensar no que mais dizer.

    Thalwara parou e virou o rosto.

    Daten engoliu em seco. As mãos tremeram e as palavras se embolaram na garganta. Ele sabia que não era o melhor dos guerreiros, mas a imagem da irmã era mais forte.

    — Me treina…

    — O quê?

    — Me treina! — A voz dele saiu mais firme agora. — Eu sei que sou fraco, sei que não consigo nada sozinho. Mas eu não quero… não quero passar por isso de novo.

    Thalwara o encarou em silêncio.

    — Daten…

    — Por favor! — Ele avançou um passo. — Eu posso pagar, posso trabalhar, posso fazer o que você quiser! Só… me ensina a lutar de verdade.

    A mulher balançou a cabeça.

    — Não é tão simples assim. Isso não é briga de rua, é uma guerra contra o culto de Nazhur. Contra coisas que você nem imagina.

    — Eu enfrentei um urso mecânico de três metros!

    — Enfrentou. E quase morreu.

    O golpe foi certeiro. Daten recuou um passo.

    — Eu sei… — a voz dele falhou. — Eu sei que sou fraco, mas ela é a única família que me resta. Se eu não fizer nada… se eu ficar parado…

    As palavras morreram na garganta.

    Thalwara observou o garoto: a mandíbula estava tensa, os olhos marejados, mas firmes. A mesma expressão de alguém que ela conhecia bem.

    O rosto de Aldric surgiu na memória dela. Não o rosto cínico de Belmirth, mas o Aldric de verdade. O sorriso calmo, o jeito paciente.

    “Você tem muito potencial, Thal. Você não precisa de um servo.”

    A imagem durou alguns segundos, e depois sumiu.

    — Daten.

    Ele ergueu os olhos.

    — Vou te treinar.

    O coração do garoto disparou.

    — Mas — Thalwara ergueu o dedo — não vai ser fácil. Vou deixar você forte o suficiente para enfrentar o culto. Nem que isso destrua você por dentro.

    Daten congelou.

    — Destruir… como?

    — Você vai aprender a como se portar em uma luta. E vai passar dos seus limites todos os dias. Está bem com isso?

    A voz dela era fria, mas os olhos mostravam que ela não estava brincando.

    Daten pensou na pequena ardenteriana. Seu sorriso, a mão pequena segurando a dele.

    — Aceito.

    A resposta saiu antes sem hesitação.

    Thalwara assentiu, lenta.

    — Em uma hora, no ginásio da Guilda. Não se atrase.

    Ela virou as costas e partiu, deixando Daten parado no meio da rua.

    O sol continuava a brilhar, e as crianças ainda riam no beco. A vida seguia normal.

    Mas daten só conseguia pensar em uma coisa:

    “Eu tô ferrado, não tô…?”

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