Capítulo 45: Pré-Guerra (2)
Daten encarava o teto branco da ala médica. O silêncio era cortado apenas pelos passos distantes dos enfermeiros e o som dos aparelhos de medição.
As lembranças da manhã inundavam sua cabeça.
O urso bombado metálico. Aquela mandíbula de aço se abrindo e o hálito de óleo e sangue que preencheu seus pulmões.
“Eu não consegui…”
Ele fechou os olhos com força, mas as imagens continuavam lá. Dhaha segurava a boca da fera, Mirena também apareceu do nada para salvá-lo. Ele, e apenas ele, carregado nos ombros como um peso morto.
A porta rangeu.
— Daten Stajäger? — A médica da entrada conferiu a prancheta. — Está liberado. Precisa desocupar o leito.
Era a mesma médica que falara com Thalwara.
— Já? — O ardenteriani sentou na maca e sentiu as costas reclamarem.
— Outros pacientes precisam do espaço, e seus ferimentos já foram tratados. — Ela fez um gesto para a porta. — Pode ir.
Daten desceu da maca sem reclamar. As pernas firmaram, o corpo conseguiu se manter de pé.
Ao sair do prédio da guilda, o frenesi diário da Alta-Engrenora o engoliu.
O sol brilhava forte, diferente da fumaça na Baixa-Engrenora que ele conhecia tão bem. As ruas eram limpas, organizadas, cheias de gente que parecia viver bem suas vidas.
Ele caminhou sem direção, os pés o levavam por conta própria.
Num beco, duas crianças brincavam de esconde-esconde. Um menino menor contava com as mãos no rosto, enquanto a irmã mais velha se escondia atrás de um barril.
O riso delas ecoou nas orelhas pontudas do ardenteriano. Daten paralisou
Numa janela aberta, viu uma família sentada à mesa. O pai servia sopa, enquanto a mãe arrumava o cabelo da filha. Coisas simples, normais, mas que fizeram os pés do garoto plantarem no chão.
Algo apertou dentro de seu peito: Spiena. Onde ela estava agora? Com medo? Sozinha? Viva?
“Ela chegou aqui há alguns dias, mas não ficou muito tempo”, a memória da mulher na cela veio como um soco.
— Droga… — Daten apertou os punhos, as unhas cravando na palma.
Ele virou a esquina e quase trombou com duas figuras.
— E foi isso que o almoxarifado reportou. — disse uma voz preguiçosa, quase entediada.
Thalwara estava ali, de braços cruzados, enquanto ouvia o relatório de um gelariano com o emblema da Guilda.
O rapaz tinha corpo definido, ombros largos e músculos notáveis, mas a estatura física e o rosto eram de criança. Dezesseis anos no máximo.
Os chifres espiralavam para trás, lisos e bem cuidados. Tinham cabelos pretos que escorriam até o pescoço. Sua pele era azul escura, quase roxa.
Vestia uma camisa branca de mangas curtas, calças de couro preto com canos largos e joelheiras de couro. Na cintura, uma manta de pele de lobo cinza completava o visual.
— Jötun. — Thalwara suspirou. — Você podia ter entregado isso há três horas.
— Tava dormindo. — O tal Jötun respondeu, bocejando. — Mas tá tudo certo. Conferi mais de uma vez.
— Preguiçoso.
— “Eficiente”. — Ele deu de ombros. — Posso ir?
Thalwara revirou os olhos, mas acenou um sim. Jötun virou as costas e sumiu na multidão sem pressa alguma, as mãos nos bolsos.
Daten ficou parado, sem saber se devia se aproximar. Foi então que Thalwara o notou ali.
— Daten! — a voz dela não era dura, só surpresa. — Está de pé já?
— A médica me expulsou — ele respondeu, andando até ela.
— Fico feliz que esteja bem. Sua recuperação foi rápida.
Daten não respondeu. “Bem” não era a palavra mais correta.
— Você foi corajoso lá embaixo — Thalwara continuou. — Poucos teriam enfrentado aquilo.
— Corajoso? — Daten riu sem humor. — Eu quase virei comida de autômato. Se não fossem eles…
— Sobreviveu. É isso importa.
— Sobrevivi. — Ele repetiu a palavra, mas sentia ela corroê-lo. — Enquanto minha irmã…
Ele não terminou a frase, Thalwara também não perguntou. Um silêncio constrangedor pairou entre os dois.
— Preciso ir — a vice-regente disse, finalmente. — Papéis para resolver, treinos para organizar… A semana vai ser longa.
Ao ver a mulher se afastando, o ardenteriano sentiu o chão sumir.
Se ela fosse embora agora, ele ficaria ali, parado, sozinho. Mais uma vez, mais fraco, mais inútil.
— Espera!
A palavra escapou antes que ele pudesse pensar no que mais dizer.
Thalwara parou e virou o rosto.
Daten engoliu em seco. As mãos tremeram e as palavras se embolaram na garganta. Ele sabia que não era o melhor dos guerreiros, mas a imagem da irmã era mais forte.
— Me treina…
— O quê?
— Me treina! — A voz dele saiu mais firme agora. — Eu sei que sou fraco, sei que não consigo nada sozinho. Mas eu não quero… não quero passar por isso de novo.
Thalwara o encarou em silêncio.
— Daten…
— Por favor! — Ele avançou um passo. — Eu posso pagar, posso trabalhar, posso fazer o que você quiser! Só… me ensina a lutar de verdade.
A mulher balançou a cabeça.
— Não é tão simples assim. Isso não é briga de rua, é uma guerra contra o culto de Nazhur. Contra coisas que você nem imagina.
— Eu enfrentei um urso mecânico de três metros!
— Enfrentou. E quase morreu.
O golpe foi certeiro. Daten recuou um passo.
— Eu sei… — a voz dele falhou. — Eu sei que sou fraco, mas ela é a única família que me resta. Se eu não fizer nada… se eu ficar parado…
As palavras morreram na garganta.
Thalwara observou o garoto: a mandíbula estava tensa, os olhos marejados, mas firmes. A mesma expressão de alguém que ela conhecia bem.
O rosto de Aldric surgiu na memória dela. Não o rosto cínico de Belmirth, mas o Aldric de verdade. O sorriso calmo, o jeito paciente.
“Você tem muito potencial, Thal. Você não precisa de um servo.”
A imagem durou alguns segundos, e depois sumiu.
— Daten.
Ele ergueu os olhos.
— Vou te treinar.
O coração do garoto disparou.
— Mas — Thalwara ergueu o dedo — não vai ser fácil. Vou deixar você forte o suficiente para enfrentar o culto. Nem que isso destrua você por dentro.
Daten congelou.
— Destruir… como?
— Você vai aprender a como se portar em uma luta. E vai passar dos seus limites todos os dias. Está bem com isso?
A voz dela era fria, mas os olhos mostravam que ela não estava brincando.
Daten pensou na pequena ardenteriana. Seu sorriso, a mão pequena segurando a dele.
— Aceito.
A resposta saiu antes sem hesitação.
Thalwara assentiu, lenta.
— Em uma hora, no ginásio da Guilda. Não se atrase.
Ela virou as costas e partiu, deixando Daten parado no meio da rua.
O sol continuava a brilhar, e as crianças ainda riam no beco. A vida seguia normal.
Mas daten só conseguia pensar em uma coisa:
“Eu tô ferrado, não tô…?”

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