Índice de Capítulo

    O sol batia forte na clareira. Mirena e Dhaha se encaravam diante da poeira que ainda pairava no ar. Syndona, sentada no tronco, apenas observava o combate emergente.

    Sem dizer uma única palavra, o douradiano avançou. Os pés dele arrancaram terra, o corpo fechou a distância em um piscar de olhos. O punho direito, coberto por um brilho pálido de carma, mirou direto na costela esquerda dela.

    A mulher percebeu na hora: ele estava atacando pelo lado oposto do braço mecânico.

    Ela girou o corpo e colocou o braço normal na frente. O carma brotou da pele como uma chama fria, e formou uma barreira no trajeto do golpe.

    O impacto fez seus dentes chacoalharem. Ela segurou o golpe, mas a força fez suas botas arrastarem alguns centímetros.

    — Carma demais! — Syndona gritou do tronco caído. — Defesa não precisar de explosão, Mirena! Você desperdiçar energia!

    Dhaha abriu a boca para zoar, mas a garota não deixou. 

    Enquanto se aproveitava da proximidade, ela jogou o peso do corpo para frente e girou o quadril. O braço metálico, agora também coberto por carma, voou em direção à barriga dele.

    “Não é tanto quanto o que ele usou”, ela pensou. “Mas deve ser suficiente.”

    O punho de aço afundou no abdômen do rapaz. O som foi um “tuc” pesado que fez a mulher sorrir.

    — Uff! — ele recuou dois passos, os olhos arregalados de surpresa. A mão foi instintivamente para o lugar do impacto.

    — A “senhora” tem uma mão bem pesada, sabia? — Mirena provocou, enquanto balançava o braço metálico.

    “Lutar sem arma é muito mais difícil”, O garoto pensou, sentindo o impacto.

    “Vou mostrar pra ele o que uma ‘senhora’ pode fazer”. Ela sorriu por dentro.

    O guerreiro não respondeu. Com os dentes cerrados, recuperou o equilíbrio e lançou um chute de esquerda. A canela veio coberta por aquele brilho pálido.

    — Dhaha! — Syndona berrou. — Atacar com esse tanto de carma? Você cansar em cinco minutos assim! Controle, não força bruta!

    A ardenteriana não esperou o fim da bronca. Ela agarrou a perna do amigo no ar, os dedos metálicos se fecharam rapidamente em torno. O carma dele rangeu contra o metal, mas ela manteve o punho firme.

    Com a mão livre e coberta de carma, encaixou outro soco na mesma barriga.

    Ele voou para trás, as mãos encontraram o chão em uma cambalhota improvisada que o colocou de pé novamente. Sua postura agora era claramente defensiva, os braços se envolviam à frente do torso.

    — Argh! — E então recuou, erguendo os braços em defesa.

    — Na defensiva agora, Guerreiro de Aço? — Mirena provocou, os ombros relaxados. — Onde está aquele ímpeto todo de herói?

    “Onde foi parar a atiradora que mal conseguia levantar umas tábuas?”, ele pensou, atordoado.

    Dhaha não respondeu. Em vez disso, girou o corpo e acertou um chute envolto em carma na canela dela.

    A mulher cobriu a perna com carma no último segundo. A defesa segurou, mas o impacto a fez recuar três passos.

    Os dois se recompuseram, frente a frente. A respiração de ambos já começava a ficar pesada.

    — Cansado, herói? — ela provocou.

    — Tá aprendendo, tia — Ele limpou o suor da testa.

    — Tia? — rangeu os dentes. — Ao menos, eu não tô com o rosto vermelho que nem tomate.

    — Isso foi a porta da Syndona.

    “Por que eu tô perdendo pra ela? Ela era péssima com armas…”, o garoto pensou, confuso. “Um herói não pode perder em um treino.”

    Os dois avançaram ao mesmo tempo.

    A troca de golpes continuou. Primeiro direita, depois esquerda, e outra direita novamente. Dhaha tentava atacar em sequência, mas Mirena defendia ou aparava.

    Ela acertou o ombro dele, mas ele golpeou a costela dela. Ela desviou de um gancho, e então ele absorveu um chute na coxa.

    O som dos impactos ecoava pelas pedras. Folhas secas caíam das árvores com a vibração. Pássaros ao redor levantaram voo, assustados.

    Syndona, no tronco, franziu a testa. O carma dos dois estava ficando instável.

    — Ei, vocês dois… — ela começou.

    Mas eles não ouviram.

    Na clareira, os golpes continuavam. A garota acertou o rosto dele, e Dhaha respondeu no estômago dela. 

    Até que, simultaneamente, os dois pularam para trás.

    A ardenteriana apoiou as mãos nos joelhos, ofegante. Olhou para o douradiano, estava vermelho e suado, a respiração saía em arquejos.

    “Ele tá exausto”, ela deduziu. “Pera… não me diga, gênio!”

    — Ei, eu disse… — Syndona tentou de novo.

    A garota avançou com o braço normal coberto de carma, num golpe reto. O guerreiro não ergueu os braços para defender, pelo contrário, ele avançou também.

    Mas seu corpo inteiro estava coberto por carma.

    “Não vou perder!”, ele pensou, enquanto repetia como um mantra. “Não vou perder! Não vou perder!”

    Os olhos dele queimavam. O carma ao redor do seu corpo se distorcia, como se tremesse. Uma faísca roxa, quase imperceptível, percorreu a pele dele. Da cabeça aos pés.

    Dhaha acelerou. Não uma aceleração comum, mas um avanço além do normal. Seu pé acertou a perna direita da garota antes que o punho dela chegasse perto.

    A dor veio em um instante, mas não era uma dor normal. Era como se o peso do golpe tivesse dobrado, como se o carma dele tivesse mudado.

    A perna da ardenteriana cedeu

    No meio da queda, em um movimento desesperado, ela socou o ar na direção do estômago do oponente. O braço esquerdo se estendeu, o carma brilhando fraco, mas não o alcançou.

    O punho dela cortou o vazio, mas a leve camada de carma continuou a flutuar.

    O herói ficou de pé, ofegante, o corpo inteiro tremia. O suor escorria pelo rosto e os braços pendiam pesados. Ele mal conseguia manter os olhos abertos.

    — Vi… viu só? — ele forçou um sorriso, a voz falha. — Quem… quem é o herói agora, hein… “tia”?

    Mirena tentou responder, mas não tinha fôlego para isso.

    Foi quando o som de um impacto ecoou, e uma dor atingiu Dhaha. Não dos golpes, mas uma dor diferente. Uma dor que começou no estômago, o de Mirena havia mirado, e se espalhou como fogo por todo o abdômen.

    — O quê…? — O sorriso dele congelou.

    Ele ficou de joelhos, e suas mãos foram para a barriga.

    “Me lasquei!”, pensou ele, ao sentir uma falta de ar. Era como se tivesse tomado um soco na boca do estômago.

    Como se a ardenteriana não tivesse errado o golpe.

    O devaneio foi a última coisa que teve antes do mundo escurecer. O corpo dele tombou para o lado e levantou uma pequena poeira.

    No chão, ela olhou para as próprias mãos. A aura do braço esquerdo ainda pulsava fraca, mas o corpo tremia.

    Foi então que a visão dela começou a escurecer. 

    “O quê… foi isto?”. Ela não ouviu a própria respiração parar. Não viu o próprio corpo relaxar, só o escuro e o silêncio.

    A poeira começou a baixar lentamente sobre os dois corpos caídos.

    Syndona se levantou do tronco. Caminhou até o centro da clareira com passos lentos. Olhou para Mirena primeiro, depois para Dhaha.

    Ela cruzou os braços. O rosto cansado do garoto, a respiração quase imperceptível da garota, eram algo que ela não esperava no começo de tudo isso.

    O vento soprava entre as pedras da ruína, e o vazio tomou conta da clareira.

    — Bom… — disse ela, com um suspiro longo. — Eles ainda ter um longo caminho pela frente…

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