Capítulo 708 - Pânico
Fernando ficou impressionado ao ouvir isso. Ao parar para pensar, percebeu que nunca tinha ouvido falar sobre o uso da Magia de Tempo-Vida.
“Mesmo se tiver uma boa Disposição Elemental?” indagou, curioso. Afinal, não só ele, como outros membros do Batalhão Zero, tinham Disposições Boas ou Médias.
Wendy apenas olhou para o jovem Tenente de forma estranha, completamente surpresa. Enquanto Lerona balançou a cabeça, já acostumada à sua falta de conhecimentos básicos, afinal, o rapaz só estava em Avalon há pouco mais de um ano.
Mesmo Niesttra tinha um olhar peculiar sobre o rapaz, o que o fez mudar seu entendimento sobre ele, percebendo algumas coisas.
“A Disposição Elemental não é fator dominante, não quando se fala em Magia de Tempo-Vida”, o velho respondeu.
“Então, quais são os requisitos? E o que essa Magia faz?”
“Os requisitos?” O Alquimista perguntou de volta, quase rindo. “Se soubéssemos, ele não seria o único Mago de Tempo-Vida. Quanto ao que ela faz, é difícil dizer, muito pouco foi exibido ao mundo. Aquele homem não é o tipo que revela informações facilmente e, mesmo com a pressão do Conselho Superior, Lothar se recusa a forçá-lo a colaborar.”
“Eu ouvi que seus inimigos envelhecem em segundos apenas de ficarem próximos dele e que um General caiu morto ao tentar tocá-lo”, Wendy comentou.
Fernando ficou cada vez mais impressionado, observando o sujeito de óculos escuros e sobretudo preto com atenção.
“Sente o cheiro do mana no ar?” Niesttra perguntou.
O jovem Tenente assentiu, ao focar em seu nariz.
“Lembra um pouco o cheiro de chuva, mas também tem algo mais, como se algo estivesse estragado.”
Ouvindo isso, o velho concordou.
“Isso é como a maioria descreve, mas depende de cada um. O que estamos sentindo é o mana da Magia de Tempo-Vida expelido naturalmente por aquele homem. Dizem que cada um sente odores diferentes, algo que lembre experiências do passado, como um odor marcante de sua infância ou de algo que sentiram com frequência durante sua vida. Eu pessoalmente sinto cheiro de ervas e ovo podre. Pelo que ouvi a respeito, ao sentir esse mana, você já está na área de atuação que essa magia pode atingir.”
A expressão de Fernando mudou com essa afirmação.
Isso significa que, se esse cara quiser, ele pode matar todos nessa sala a qualquer momento?! Ao pensar até aí, um arrepio subiu por sua espinha, finalmente entendendo por que os dois membros de Karmalía e Falcon estavam sendo tão respeitosos. Não era por respeito verdadeiro, por cortesia ou qualquer coisa do tipo, mas puramente por medo!
Lehard e Melanie ficaram atrás do homem, mantendo alguma distância, enquanto o leiloeiro, Otelo, não ousou se intrometer. Frente às Grandes Legiões, seja sua casa Biliark, a Casa de Leilões ou mesmo a totalidade de Yandou, nada disso importava para eles.
O sujeito sabia que a existência da Casa de Leilões de Yandou e muitas outras pelo território Humano só eram permitidas por mera conveniência, para controlar secretamente o escoamento de produtos ilegais, muitas vezes eles próprios as utilizando para comprar ou vender coisas sem chamar atenção da população.
De forma despreocupada, o sujeito moreno de longos cabelos e óculos escuros redondos continuou a montar seu prato, então, com um garfo, deu uma pequena mordida em um dos alimentos, mastigando suavemente.
“…”
Lehard, Melanie e todos ao redor ficaram em silêncio, observando cada ação do homem como se estivessem de frente para um rei absoluto.
A impaciência dos dois generais estava escrita em seus rostos, mas mesmo assim, não ousaram interromper a refeição do homem. Somente quando ele, calmamente, deu a última garfada e abaixou o prato sobre uma das mesas, é que sua voz enfim soou.
“O que querem comigo?” indagou, de forma calma.
“N-nós viemos cumprimentá-lo, é claro”, Melanie falou, forçando um sorriso em seu rosto.
Ouvindo isso, o sujeito virou-se de lado, observando-os a partir da película escura de seus óculos, quando finalmente assentiu.
“Hum”, respondeu, com um grunhido.
Vendo isso, a expressão da bela mulher mudou um pouco.
Eu odeio lidar com esse cara! Por que ele é sempre assim?! Ele consegue ser ainda mais esquisito que o bizarro do Coruja! pensou consigo mesma, irritada.
A maioria dos homens, quando a via, praticamente se jogava aos seus pés, mas esse sujeito não só não o fazia, como sequer prestava atenção nela, e quando tentava interagir com ele, o sujeito sempre dava respostas estranhas, curtas ou esquisitas.
Nesse momento, Lehard finalmente se intrometeu.
“Vi que estava interessado no Orbe do Mago, é uma pena que não tenha conseguido dessa vez”, o Coruja disse, com seus olhos negros encarando o homem de sobretudo. “O Orbe era para você?”
Mesmo aparentando ser uma simples pergunta, Melanie, que estava ao lado, sabia o que o sujeito estava fazendo, tentando levantar informações. Afinal, quase nada se sabia sobre o Tempo-Vida, apenas confirmar a informação de que Orbes do mago poderiam ser utilizados em conjunto, já seria considerado algo importante para o alto escalão! Além disso, ele havia comprado um Orbe do Mago de Fogo, não um Neutro, o que tornava isso ainda mais curioso.
“Hm. Algo do tipo”, Soureen respondeu, com alguma indiferença. Sua falta de vontade em interagir era tão clara quanto o dia.
Essa resposta vazia e incerta fez as sobrancelhas do sujeito alto e de olhos negros se estreitarem, mas não ousou demonstrar isso abertamente.
“Lothar não enviou ninguém no último encontro em Magnus. Ficamos realmente preocupados com isso, sabe?” Melanie ardilosamente comentou, aproveitando o gancho. “Pode ser que a guerra com os Orcs e Elfos Negros não lhes interesse? Alguns até dizem que vocês não se importam com nada que não esteja relacionado com aquelas coisas nojentas das Montanhas de Fogo. Eu me pergunto o quanto disso é verdade.”
Suas palavras espinhosas surpreenderam tanto Biliark quanto Lehard e todos os ouvintes próximos. Muitos dos que já sabiam dessa informação ficaram surpresos com a ousadia da mulher em difundir informações que foram propositalmente ocultadas pelo Conselho Superior.
“O que isso significa? Lothar não está envolvida nos esforços de guerra?” Alguém sussurrou, assustado.
“Mas eles irão à negociação das quatro raças, certo?” Outro perguntou em pânico.
“Eles precisam, Lothar ainda é uma das dez Grandes Legiões!”
Mesmo que houvesse inúmeras raças inteligentes em Avalon, com algumas tão poderosas quanto os Humanos, Elfos, Anões e Orcs, elas ou tinham uma presença pequena no continente ou não estavam interessadas em se envolver com as demais e raramente faziam guerra. Devido a isso, muitos se referiam a esse grupo como ‘as quatro raças’, pois eram as únicas que ainda lutavam pela hegemonia ou que estavam diretamente conectadas.
Em resposta a Melanie, o sujeito de óculos escuros redondos não esboçou qualquer reação.
“Não sei”, respondeu de forma direta. “Não é meu trabalho saber disso.”
A expressão da mulher mudou, descontente com a falta de reação e ainda mais com a indireta implícita.
Soureen, como representante e embaixador de Lothar, estava alegando que não tinha as qualificações para debater isso, mas Melanie, uma simples representante, estava se colocando nessa posição.
Após um breve instante de silêncio, Otelo, que estava suando frio, finalmente resolveu se intrometer.
“Senhores, por que não aproveitamos o banquete?” sugeriu, com um sorriso no rosto.
Ele havia ido visitar a sala de Soureen e o convidado ao banquete, alegando que o acompanharia, mas o havia feito meramente por cortesia, pois era sabido que o sujeito não gostava de locais cheios. Ele nunca imaginou que o Mago do Tempo realmente aceitaria!
Mesmo que se sentisse lisonjeado, Otelo também estava incomodado, pois o homem não era alguém de muitas palavras. Além disso, ele estava interessado em conversar e trocar informações com outros convidados, mas agora que se tornou ‘companhia’ do homem, simplesmente não poderia fazê-lo!
Zzzt! Zzzt!
De repente, as luzes do local começaram a piscar, surpreendendo a todos, inclusive o próprio Otelo.
“O que está acontecendo? Há algum problema com o abastecimento de mana?” Um dos membros das Salas Compartilhadas comentou.
“Você está brincando? Os proprietários da Casa de Leilões também são donos de Yandou. Não tem por que isso acontecer!” Um homem respondeu, irritado.
Zzzt!
Treme! Treme!
As luzes que piscavam, repentinamente, apagaram de vez, quando pequenos tremores puderam ser sentidos por todos, banhando todo o local em uma escuridão absoluta. Muitos instintivamente ativaram suas Magias de Visão Escura.
“O que é isso? Algo está estranho!”
“Pode ser que alguém esteja atacando a casa de leilões?”
“Espera, isso pode acontecer?”
Mesmo que o lugar estivesse em completa escuridão, para todos ali não era diferente de estar de dia. Sua apreensão não era com a falta de luz, mas com o motivo dela.
Vendo essa situação anormal e o pânico tomando conta, Otelo deu um passo à frente.
“Senhores e senhoras, por favor, acalmem-se. Acredito que tenhamos tido apenas uma falha em alguma das Matrizes de Abastecimento, mas tenho certeza de que logo a energia será restabelecida!” O sujeito afirmou, com um semblante calmo, mas estava internamente preocupado, pois isso nunca havia acontecido antes! Além disso, os tremores que sentiu também o deixou preocupado.
Atualmente, eles tinham convidados das Dez Grandes Legiões e pessoas de várias outras organizações poderosas e influentes presentes. Se algo acontecesse com esses indivíduos enquanto estavam na casa de Leilões, não só seu pescoço estaria em jogo, como o de toda a casa Biliark!
Niesttra, que observou isso, franziu o cenho. Como um Mestre Escriba Mágico, ele tinha um conhecimento apurado a respeito de Matrizes e tinha certeza de que seria impossível que a falha de uma única Matriz desencadeasse um apagão como esse. Logo o homem chegou a uma conclusão nada agradável.
“Preparem-se para sair desse lugar”, alertou em voz baixa.
Fernando, Wendy e Lerona ficaram surpresos com isso.
“O que está acontecendo?” O rapaz indagou, seriamente.
O Mestre Alquimista olhou em volta, desconfiado. Mas, com os murmúrios e conversas paralelas ocorrendo em todos os lados, respondeu:
“Algo está acontecendo lá fora. A casa de Leilão de Yandou é o motor matriz da cidade e representa seu principal ativo. Para o fornecimento de energia ter sido cortado, significa que a energia foi redirecionada para algo mais importante, algo definitivamente deve ter ocorrido.”
Isso fez Fernando e Lerona terem um mau pressentimento, pois algo semelhante havia acontecido em Garância há não muito tempo.
Nesse momento, Magnólia e Eduardo, que vinham mantendo distância de Wendy, chegaram silenciosamente ao seu lado, com a velha puxando discretamente o braço da garota.
“Senhorita, venha, temos que sair daqui!”
“E-espera, mas e se…” falou, olhando na direção de Lehard, assustada.
A velha parou por um instante, com uma expressão receosa.
“Talvez ele seja a menor das nossas preocupações hoje!” comentou, com a voz tensa, então olhou para Niesttra de forma respeitosa. “Eu vi o que fez por nós, você tem minha gratidão!” Então, olhou de lado para o rapaz pálido. “Também sou grata a você, criança, então lhe darei esse aviso, saia daqui enquanto há tempo!”
Fernando olhou surpreso para a velha e seu súbito agradecimento, mas apenas assentiu.
Eduardo, que estava ao lado, estava cheio de orgulho e se recusou a olhar diretamente para o rapaz.
“Vamos!” Após dizer isso, Magnólia puxou mais uma vez o braço de Wendy, que finalmente soltou a mão de Fernando, acompanhando a mulher.
A garota olhou uma última vez para trás. Seu olhar e o do jovem pálido se cruzaram por um instante, mesmo que ela não dissesse nada, ele entendeu que ela estava agradecida por sua ajuda.
Outras pessoas, as mais perspicazes, estavam silenciosamente deixando o local uma a uma. Mesmo que muitos ali se fingissem de tolos e bajuladores, haviam chegado às suas posições dependendo de suas cabeças e mentes ágeis e, nesse momento, seus intelectos apurados lhe diziam para sair desse lugar!
“Vamos também!” Niesttra chamou.
Fernando assentiu.
“Precisamos procurar o Major Oliver primeiro.”
O velho Mestre Alquimista não parecia muito satisfeito e até pensou em sair sozinho, mas após pensar um pouco concordou.
“Sejamos rápidos então!” Logo, Fernando, Lerona e Niesttra se apressaram em direção à Sala Compartilhada Nº15.
Lehard e Melanie tinham olhares estranhos enquanto aguardavam. Irritado com a situação, o homem chamado de ‘a Coruja’ não aguentou mais.
“Você aí”, o sujeito alto e magro de Karmalía chamou. “Você é da casa Billiark, você deve saber o que está acontecendo. Explique!”
Ouvindo a ameaça de Lehard, Otelo sentiu suas costas esfriarem.
“E-eu não sei, mas descobrirei agora mesmo!” garantiu, com a voz em pânico.
Enquanto esperavam, Soureen baixou os óculos levemente, revelando um estranho par de olhos completamente brancos e assustadores.
“É tarde demais”, falou, com uma voz estranha. “Sinto cheiro de… Corrupção e Morte.”
Lehard, Melanie e mesmo Otelo sentiram calafrios, sem entender do que o homem estava falando.
Apressadamente enviando uma mensagem aos membros de sua família, Otelo estava suando frio, enquanto aguardava uma resposta sobre o que estava acontecendo. Não demorou muito para que ela finalmente chegasse. A resposta era simples, mas assustadora:
“A Matriz de Defesa caiu! A cidade está comprometida!”

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