Avenoir: Fragmentos da Primeira Noite / Lâmina Maldita
O mundo sempre foi regido por juramentos.
A chuva incessante molhava a terra seca e esquecida dos vales rochosos. O cheiro de terra molhada invadia as narinas de Sir Roland. Sua armadura, suja pela lama do campo de batalha, destacava-o com a capa vermelha pintada do sangue de seus inimigos.
— Tropas inimigas avistadas ao norte. Infantaria, se prepare! — bravejou o paladino Gérin.
O chão tremeu. A cavalaria inimiga desceu como uma avalanche de aço escuro e intenção assassina. A lama espirrou e o pandemônio se instaurou.
— Pela coroa! — urrou Sir Samson, os músculos das pernas tensionando até o limite antes de se lançar à frente. Quando o paladino chocou-se contra a primeira linha de escudos sarracenos. O único estrondo surdo que emitiu foi o de carne explodindo.
Ele atravessou três fileiras de cavalos e homens, transformando armaduras em sucata e corpos em névoas vermelhas. A linha de frente colidiu e Roncesvalles caiu por terra.
“Onde está?”
Sir Roland procurava uma figura específica em meio ao caos da linha de frente. Seus olhos esquadrinharam a maré de ferro, carne e lama, ignorando lanças que passavam a centímetros do rosto.
Não buscava aliados, tampouco uma rota de fuga. Sua ambição era uma só: encontrar o estandarte dourado de Aelroth, o sobrinho arrogante do rei pagão Marsílio. O homem que ousou proferir mentiras e blasfêmias contra a glória do grande Imperador Carlos Magno.
“Seu destino será pior do que a morte!”
— Venham! — asseverou contra a massa titânica de aço à frente.
Uma espada passou de raspão na ombreira da armadura do cavaleiro.
Clank!
A lâmina arranhou a ombreira, mas seguiu seu curso natural e escapou do restante do corpo. Num movimento fugaz e ágil, Roland desembainhou a espada Durandal e deferiu um corte limpo na diagonal.
Splash!
Sangue manchou a terra e o baque surdo do corpo já sem vida ecoou. Mas aquele pequeno momento não parou. O caos desorganizado permaneceu.
— Morra! Morra! Morra! — falava sem esparadrapos um guerreiro manchado de sangue, seu rosto e olhos já haviam perdido a cor, marchava para a aniquilação semelhante a um cadáver ambulante.
Atrás do cavaleiro da lendária espada Durandal, o som de respiração entrecortada e o arrastar de botas pesadas anunciou a chegada de Sir Olivier. Seu amigo e irmão de armas juradas, com seus olhos lógicos e táticos, calculava a inclinação do terreno, a exaustão das tropas e a desvantagem numérica absurda de vinte para um.
— Roland — bradou. Ele apontou com a lâmina da Hauteclaire para o mar infinito de escudos descendo as encostas. — O terreno vai ceder sob a lama. São milhares! Toque o Olifante! Convoque o Grande Imperador de volta antes que a retaguarda seja exterminada!
— Onde você está? — sussurrou Sir Roland com os olhos desfocados. Pela glória do império, as coisas não poderiam acabar desse jeito.
Ele não virou o pescoço para encará-lo. A menção de recuar, de pedir socorro, fez com que seu sangue fervesse. As juntas da armadura rangeram. Virar o rosto, mesmo que para olhar um amigo, seria o equivalente a ceder à desonra dos inimigos.
A vanguarda não cede. O instinto de sobrevivência já havia amputado a alma. Se desse um passo para trás, a desonra feriria seu orgulho, seu corpo, sua honra.
— O Grande Imperador nos confiou a retaguarda, Olivier!
— A retaguarda não pedirá socorro. Ela irá sangrar, mas vamos superar essa batalha! — continuou ao executar um corte que perfurou a traqueia de um outro cavaleiro que andejava com uma lança.
Nesse momento, Sir Roland discerniu uma figura rasgando a neblina. Aelroth cavalgava num garanhão negro blindado, rindo com escárnio enquanto sua montaria pisoteava os soldados abatidos dos dois lados.
“Eu vou te matar!”
O cavaleiro de preto girou uma pesada lança de tração manchada do sangue cristão, seus olhos transbordavam a certeza irônica da vitória. O maxilar de Roland travou. A raiva subiu pela garganta com a fúria de um juiz contra o maior dos criminosos em um tribunal.
Na mão direita, a ponta de Durandal descansava voltada para a terra. Sua espada não brilhava com luzes divinas, mas a própria chuva pareceu hesitar ao redor de seu fio. O paladino não assumiu uma posição de defesa. Em vez disso, tensionou os músculos das pernas, cravou o calcanhar na rocha oculta sob o lodo e avançou.
Cada passo que o cavaleiro dava, a lama escura afundava, mas a terra não cedia pela força física, e sim pelo orgulho. O ar ao seu redor se tornou espesso, impregnado com o cheiro acre de ferro velho. A chuva batia contra a prata da armadura e evaporava, repelida pelo calor antinatural do corpo.
Olivier, percebendo a fixação suicida do colega e a recusa em acatar a lógica da guerra, interceptou-o pelo flanco. Bloqueando o caminho com o próprio corpo, a armadura coberta de pó de fuligem, lama e restos de soldados inimigos que pereceram sob a sua vontade.
— Você está nos condenando — objetou o paladino estrategista com a voz embargada pela fúria e pelo desespero. A água da tempestade lavava o filete de sangue que escorria de um corte na testa. — Olhe ao seu redor, Roland! Abra os olhos, Gérin e Gérier estão sendo engolidos pela infantaria. Nossas linhas estão sendo esmagadas contra os paredões do desfiladeiro. Tocar o Olifante não é covardia! O Grande Imperador precisa saber que fomos traídos!
Um soldado empunhando as lanças tentou perfurar as costas do Olivier que irrompia o caminho de seu irmão de armas. Sir Roland, com a palma da mão esquerda, puxou com força o corpo para o lado e, num movimento de quadril, diminuiu a distância entre a lança e a lâmina. A lâmina cortou e a haste se partiu, sua espada trouxe mais um novo fim.
— O Grande Imperador não recua!
Hauteclaire tremia nas mãos de Olivier, sob a promessa de um novo Amanhã do paladino.
— Nós somos a espada de Carlos Magno. Tocar o Olifante, antes mesmo de cruzar o aço com a vanguarda deles, estarei dizendo ao mundo que a coroa da França teme a sombra de Marsílio. A nossa lenda não pode sangrar covardia!
Lendas não seguram lanças, seu maldito arrogante! Homens de carne e osso seguram! E os nossos homens estão morrendo aos montes, inconsequente! — vociferou enquanto zigue-zagueava o campo com Roland, eliminando aqueles que desafiavam a sua autoridade.
Antes que Olivier pudesse estender a mão e agarrar a ombreira de Roland, o pandemônio engoliu ao redor. A cavalaria pesada não dava tréguas, e a tempestade de cacos obliterava qualquer tentativa de razão.
Aelroth notou a capa vermelha inconfundível. O sobrinho do rei pagão puxou brutalmente as rédeas de seu garanhão negro, redirecionando as centenas de libras de puro músculo equino e escamas de armadura diretamente para a posição do líder dos Doze Paladinos.
A lama voava em arcos escuros enquanto o cavalo ganhava uma velocidade assustadora no terreno inclinado.
— Onde estão as luzes do seu Deus, agora, cão de Carlos?! — esganiçou Aelroth, cortando a neblina rala como uma lâmina enferrujada. — O seu falso imperador os abandonou para servirem de banquete aos corvos!
O insulto não ofendia apenas os ouvidos do paladino, ofendia a própria lei que governava a sua alma. Roland não respondeu com palavras. A mente e o corpo se sincronizam num compasso absoluto para marchar à frente.
Enquanto a montaria de Aelroth acelerava, se transformando num míssil cego de carne e aço que reduzia a distância a cada instante, o cavaleiro continuou a andar para frente. O instinto humano gritaria, imploraria para que qualquer guerreiro desviasse, rolasse na lama ou, no mínimo, assumisse uma postura oblíqua com o escudo para minimizar a transferência de peso da lança pesada que descia mirando no peito.
— ROLAND! — A voz de Olivier cortou o aço num grito ensurdecedor.
Ele estufou o peito.
No momento em que a ponta enegrecida da lança iria atravessar a prata da armadura de Roland, a física do desfiladeiro enlouqueceu. O ar e a vontade do paladino se solidificaram numa barricada de densidade absoluta.
O impacto não soou como metal perfurando metal. Um trovão foi enclausurado dentro de um sino de ferro. A formidável energia da cavalgada não encontrou espaço para fluir e empurrar o corpo para trás — porque Roland era, por definição de seu próprio juramento inamovível pelo Grande Imperador, quando marchava para frente. Sem ter para onde ir, a força retrocedeu de forma selvagem contra o próprio sobrinho sarraceno.
NRRRRRRRRGH!
A pesada haste de madeira estilhaçou-se desde a ponta de aço até a base com um estouro surdo. As farpas explodiram e a força do recuo viajou pelo braço do sarraceno, fraturando sos ossos dos pulsos e antebraços instantaneamente num ruído molhado. O garanhão negro relinchou em puro terror quando seu peito blindado colidiu com a parede invisível de ar sólido, quebrando o pescoço do animal num estalo doentio que pôde ser ouvido sobre o rugido da tempestade.
Cavalo e cavaleiro foram ejetados violentamente, seus corpos capotaram e depois tombaram numa poça asquerosa de lama, sangue e armas quebradas próxima a Roland.
Sob as placas de armadura imaculadas por fora, o paladino sentiu a força residual do impacto tentar, em vão, forçá-lo a recuar. As vértebras cervicais estalaram dolorosamente, forçando os discos, e uma microfissura aguda correu pelo osso da tíbia esquerda. A carne e o esqueleto humano protestavam contra o peso de uma lenda.
Cough! Cough!
— Você que tentou profanar a lenda do Grande Imperador…
Aelroth engasgava no próprio sangue, deitado de costas na lama. Seus braços inúteis e retorcidos em ângulos impossíveis balançavam pateticamente enquanto tentava, num desespero primitivo, se arrastar com as pernas para longe daquela aberração. Seus olhos, antes cheios de arrogância, agora dilatados, refletiam o horror gélido de quem compreendeu que não estava diante do homem.
Lentamente, surdo aos protestos contínuos de Olivier logo atrás, ele ergueu a ponta de Durandal acima da cabeça. O gume inquebrável reluzia, a chuva batia no aço e limpava os filetes de sangue.
— Você que não pertence aos nossos — sentenciou o líder dos paladinos. — A sua mentira termina aqui.
A espada desceu. Sem resistência, nem som metálico de lâminas se cruzando em paridade.
A cota de malha se abriu; a carne se partiu, e o osso se dividiu. A chuva que caía ao redor do sarraceno foi seccionada no ar, o corpo do sobrinho do rei Marsílio foi partido em duas partes.
Sob a manopla de aço, os tendões do antebraço direito de Roland estalaram num ruído surdo. Uma microfissura correu pelo osso do rádio que subiu até o ombro.
— ROLAND! — Ao longe, escutou o grito de Olivier.
O estrategista girou nos calcanhares, usou a lâmina de Hauteclaire para decapitar dois lanceiros pagãos que tentaram flanqueá-los enquanto aproveitava a execução de Aelroth. Sangue espirrou no rosto, os olhos piscaram violentamente.
A morte do sobrinho de Marsílio não espantou as hordas inimigas, apenas atraiu como sangue atrai tubarões. O orgulho destilado no ar por Roland atuava como um poço gravitacional. O grito que se ergueu das encostas não era um mero brado de guerra, mas um urro coletivo de ódio fanático.
“O abismo os chama.”
Os guerreiros sarracenos ignoraram sarracenos ignoraram os flancos abertos da vanguarda franca. Centenas, milhares de homens blindados abandonaram as escaramuças laterais com os outros cavaleiros para correrem na direção da capa vermelha. A inabalável postura de Roland ofende as leis da guerra e os instintos de sobrevivência deles. Era um monstro que precisava ser derrubado a qualquer custo.
— Você assinou a nossa sentença! — rosnou o estrategista, se posicionando costas com costas com Roland. A respiração entrecortando. — Estão todos convergindo para o centro! Nossos flancos vão colapsar!
— Se eles vêm até mim, poupam o trabalho das nossas espadas de procurá-los na neblina — respondeu.
Uma dúzia de soldados da infantaria pagã chocou-se contra a posição deles simultaneamente. Espadas curtas, machados de guerra e lanças choveram em frenesi. O metal prateado das armaduras francas amassou sob os impactos múltiplos.
Lâminas escorregaram pelas frestas desprotegidas. Roland sentiu o aço frio perfurar a malha por baixo da coxa esquerda e raspar violentamente contra a lateral de suas costelas. O sangue esguichou e se misturou à água gelada da tormenta.
Roland sorriu.
A dor física desapareceu, evaporada e imediatamente substituída por um torpor abrasador que beirava o divino. Quanto mais sangue jorrava das feridas abertas, mais o ar ao seu redor se tornava denso, espesso, quase asfixiante.
Ele balançou Durandal num arco horizontal, e a força desumana gerada pelo corpo mutilado partiu três homens blindados ao meio antes mesmo de completar o movimento. O impacto do golpe repeliu a chuva ao redor em uma onda de choque visível.
— Recuem as linhas! — ordenou Gérin ao longe, a voz já embargada pelo sangue enquanto lutava para manter a infantaria de pé. — Formação em tartaruga!
Não havia espaço para táticas. O desfiladeiro afogou-se num rio literal de lama e vísceras.
— Você está nos matando! — repetiu Olivier, a voz agora um lamento fúnebre entrecortado por golpes furiosos. A cada sarraceno que Hauteclaire cortava, Olivier sentia o fantasma da lâmina na própria carne. — Nós somos vinte mil! Eles são intermináveis! Cada gota de sangue do nosso exército está nas suas mãos porque você se recusa a pedir ajuda ao Imperador!
A cada passo que Roland dava para frente, afundava no lodo de carne, mas se recusava a recuar um único só milímetro. Cada corte que recebia era devolvido com o quádruplo da brutalidade.
Porém, sob o som dos trovões e dos gritos, um som macabro ressoava dentro dele. A cada ataque da espada, as fibras musculares das suas próprias costas se rompiam e seus ossos rangiam, moídos internamente sob a armadura de prata.
— O Grande Imperador Carlos Magno me entregou essa montanha — asseverou, ignorando um dardo que se cravou em sua ombreira. — E eu a entregarei de volta a ele. Nem que seja construída com os ossos de Saragoça!
Enquanto a declaração suicida se perdia em meio ao rugido de um novo trovão, a verdadeira escala do desastre se desdobrava ao redor. O desfiladeiro de Roncesvalles havia se transformado em um moedor de carne geológico.
A neblina que descia dos picos dos Pirineus não era mais branca, agora tingida por uma névoa rosada, vaporizada pelo sangue quente que jorrava. Atrás da posição de Roland e Olivier, a ordem de Gérin para formar uma parede de escudos colapsou antes mesmo de se solidificar.
No flanco esquerdo, encostado contra as rochas pontiagudas do paredão, o paladino Bérengier lutava para segurar uma fenda por onde dezenas de sarracenos tentavam se infiltrar.
— Nenhuma lâmina cruzará esta linha!
Mais ao centro, um turbilhão de agressividade predatória abria clareiras na multidão. Engelier da Gasconha brandia suas lâminas gêmeas numa fúria bestial. Os pagãos atingidos por ele sangravam aos borbotões, a coagulação biológica ignorada por magia.
Mas o paladino já cambaleava. Sob a viseira de seu elmo, não suava água, mas o próprio plasma sanguíneo, pagando com seus fluidos vitais pela regra incurável que impunha ao mundo.
— Você fala de construir montanhas com ossos, Roland! — Olivier aparou um golpe duplo de dois lanceiros e contra-atacou com um giro de Hauteclaire que decepou a mão de um deles.
O estrategista soltou um gemido gutural, os joelhos fraquejaram por um milissegundo quando a dor da amputação que acabara de causar espalhou-se violentamente em seu próprio sistema nervoso.
— Mas são os nossos ossos que estão sendo moídos! Gérin e Gérier estão soterrados! Bérengier já não consegue mover as pernas! Nós fomos despachados para morrer!
— A morte no cumprimento do juramento não é descarte. É a consagração — respondeu Roland.
Momento algum, o líder dos paladinos virou o rosto para olhar o estado do amigo. Seus olhos avermelhados fixos na vastidão de inimigos que ainda desciam as colinas. Cravou a bota mais uma vez na lama, o ar estalou. Uma saraivada de flechas negras choveu sobre ele, apenas para bater contra o ar solidificado à frente de seu peito e estilhaçar.
De repente, o som de um cântico fúnebre e grave sobrepôs ao tinir das espadas.
Abrindo caminho pela direita, montado num corcel de guerra robusto, vinha o Arcebispo Turpin de Reims. Não carregava uma cruz de madeira ou um incensário, mas uma maça de ferro maciço com cravos pontiagudos.
A figura imponente do Rei Corsablix, o monarca da Berberia convocado por Marsílio, avançou para interceptar o arcebispo. Corsablix brandia um sabre curvo e ria com escárnio, exalando maldições contra a fé cristã e a falsa proteção da cruz carolíngia.
— Seu deus sangra hoje, padre! — zombou o pagão.
Turpin não recuou. Seus olhos faiscaram com o fogo inquestionável do zelo religioso. Ele ergueu a maça aos céus. O sabre de Corsablix tentou encontrar o pescoço de Turpin, mas o clérigo desviou o golpe com o próprio antebraço blindado.
Em um movimento fluido e aterradoramente brutal, Turpin desceu a maça. O aço sagrado esmagou o capacete do rei berbere com a facilidade com que se quebra uma noz. O crânio de Corsablix cedeu num estalo úmido e o corpo despencou do cavalo, afundando na lama sem vida.
— Que Deus tenha piedade do que sobrou de você, pois a França não tem — finalizou a prece.
A vitória do arcebispo, no entanto, foi apenas um brilho fugaz na escuridão crescente. Um novo brado de puro ódio rasgou a neblina, vindo da exata direção de onde o cadáver de Aelroth repousava, aos pés de Sir Roland.
Esse era o Duque Falsaron, irmão direto do rei Marsílio. O formidável guerreiro sarraceno viu os restos do sobrinho misturados à terra. A sua fúria não conheceu limites. Ignorando a barreira conceitual intransponível que circundava a frente de Roland.
Falsaron cavalgou em arco, manobrando o cavalo para atingir a retaguarda cega de Roland.
— Eu vou arrancar a sua cabeça e usá-la como cálice em Saragoça! — Ergueu um machado de guerra monumental.
Mas a retaguarda de Roland não estava desprotegida. Olivier, cujos olhos já sangravam profusamente, interceptou a carga.
Hauteclaire colidiu com o machado de Falsaron. Faíscas alaranjadas voaram na penumbra tempestuosa. Olivier foi empurrado meio metro para trás, suas botas cavando sulcos na lama e no sangue, mas ele não cedeu.
— O seu problema não é com ele, sarraceno! — grunhiu Olivier, as veias do pescoço pulsando. — É comigo!
Falsaron forçou o peso do machado para baixo, tentando esmagar a defesa do francês.
— Vocês estão mortos, cães francos! Não há para onde fugir. Marsílio nos enviou com quatrocentos mil homens. Olhem para o vale! As montanhas inteiras pertencem a nós agora. Vocês foram comprados e vendidos pelo seu próprio povo!
As palavras de Falsaron atingiram Olivier não como um insulto, mas como uma constatação matemática e fria. “Vendidos”. O arranjo perfeito. A retirada súbita. A indicação de Ganelão. As peças se encaixaram na mente exausta do estrategista. A traição era real.
— Roland — gritou Olivier, empurrando o machado de Falsaron e desferindo um no peito do cavalo para criar espaço. — Ganelão nos vendeu! Não é uma emboscada de bárbaros, é um massacre calculado! Toque a porra do Olifante! Salve a honra do Imperador, descobrindo o traidor!
O caos ao redor silenciou-se na mente de Roland. As palavras de Olivier bateram contra a couraça da sua arrogância. Traição.
— Se Ganelão nos vendeu às trevas… — sussurrou Roland, a mão livre descendo letargicamente até roçar a corrente de ouro onde pendia o grande chifre de marfim, o Olifante. Mas seus dedos pararam. Eles não agarraram a relíquia. Se fecharam em um punho.
— Então o Império só estará puro novamente se o sangue desta montanha lavar o pecado. Eu não pedirei ao Grande Imperador Carlos Magno que limpe a sujeira de um traidor. Eu mesmo a enterrarei aqui!
— Você está louco… — balbuciou Olivier, horrorizado com a constatação de que o líder preferia o martírio absoluto à admissão da derrota.
Falsaron aproveitou o momento de distração. Desceu do cavalo com a agilidade de um felino e avançou sobre Olivier, o machado girou num arco letal mirando as costelas do estrategista.
O impacto não encontrou carne, mas o aço de Hauteclaire. Movido por puro instinto de sobrevivência e pelos reflexos forjados em anos de campanha ao lado dos Doze, ergueu a lâmina a tempo de interceptar o machado de Falsaron.
Clang!
O som estridente de metal contra metal reverberou pelo desfiladeiro, criando uma onda de choque que espalhou a lama ao redor dos dois combatentes. A força do duque sarraceno era descomunal. Os joelhos de Olivier dobraram, e ele afundou na terra encharcada.
— Você é fraco, francês! — cuspiu Falsaron, forçando o cabo do machado para baixo, os músculos dos braços saltando sob a armadura de couro e escamas. — O seu general abandonou vocês à própria sorte, e agora vocês morrem como ratos encurralados!
Olivier trincou os dentes. Sangue escorria da testa e misturava com o suor frio da exaustão.
— Eu posso estar de joelhos, sarraceno… — sussurrou, os olhos brilhando com uma luz febril e doentia. — Mas a minha dor é a sua dor.
Sem mover a espada para atacar, Olivier permitiu que a borda do machado de Falsaron deslizasse propositalmente, cortando a carne do seu próprio ombro esquerdo. A lâmina pagã rasgou o aço, a cota de malha e afundou no músculo do paladino.
No mesmo milissegundo, Falsaron soltou um urro gutural e arregalou os olhos com choque absoluto. O ombro esquerdo do sarraceno explodiu em sangue de dentro para fora, como se uma lâmina invisível tivesse replicado o exato ferimento. A dor neurológica duplicou, invadiu as sinapses de Falsaron, que cambaleou para trás, soltando o machado.
Olivier se aproveitou da brecha, ergueu-se com dificuldade e cravou Hauteclaire no peito do duque sarraceno, finalizando o combate com um chute que empurrou o cadáver para a lama.
BLERGH!
O cérebro de Olivier sofreu mais um microderrame. Sua visão escureceu por um segundo, e ele vomitou um coágulo negro.
— Roland… — arquejou Olivier, se apoiando na própria espada como se fosse bengala. — Olhe para eles… Olhe para a Távola, Roland! Nós estamos nos devorando para manter essa mentira de pé!
No flanco direito, onde a cavalaria pagã tentava um contorno pelas colinas, o ar tremeluzia sob uma parede de pura luz branca coagulada. Era Bradamante. A guerreira de cabelos prateados estava de pé, com a sua lança fincada no chão.
Centenas de sarracenos se chocavam contra a fronteira invisível que ela delineou e eram arremessados para trás, os ossos estilhaçados pela energia cinética devolvida. Nenhum inimigo conseguia cruzar. No entanto, o grito que ecoava daquela posição não era de glória.
Bradamante gritava em agonia. A energia da barreira era canalizada diretamente para o seu esqueleto. A cada cavalo que trombava contra a muralha, a medula óssea da paladina entrava em ebulição, cozinhando-a viva de dentro para fora, destruindo o seu sangue para proteger o Império.
Um pouco mais à frente, a realidade parecia ter sido rasgada por um delírio profano. Astolfo, o guerreiro que deveria ser a bússola moral e fantástica da cavalaria, caminhava em zigue-zague, rindo de maneira histérica e ensanguentada.
Soldados inimigos que tentavam pular sobre ele eram “puxados” violentamente para cima, caindo em direção ao céu nublado e despencando para a morte dezenas de metros depois. Lanças atiradas contra ele retornavam como bumerangues balísticos.
— É divertido, não é?! O mundo de cabeça para baixo! Hahahaha — berrava Astolfo, sua risada se transformava aos poucos numa tosse asfixiante.
Otton havia invocado sua jurisdição de monte, onde num raio de cinco metros ao seu redor, os soldados rastejavam de joelhos, esmagados por uma gravidade triplicada, enquanto o próprio Otton ficava com os lábios azuis, sofrendo de hipóxia severa pela falta de oxigênio que a área consumia.
Anséis, o feroz, teleportava sua lâmina para ferimentos abertos dos comandantes pagãos, mas caía de joelhos a cada execução, o próprio coração parando de bater.
E Girard de Roussillon, o veterano, tocava as armaduras inimigas apenas para ver o aço enferrujar e os soldados envelhecerem décadas num segundo, enquanto os seus próprios cabelos caíam e a pele do rosto se enrugava.
— Eles não são mártires! — clamou Olivier. Ele agarrou o braço de Roland, forçando o toque contra a armadura prateada, desesperado para trazer a mente do amigo de volta à realidade terrena. — Eles são sacrifícios! Eles confiam em você! Toque o Olifante! Mostre ao Imperador Magno que os Doze Paladinos morreram lutando, e não abandonados nas sombras de uma traição. Se nós cairmos aqui sem aviso, Marsílio marchará sobre a própria capital!
Roland parou. A estase de sua marcha foi interrompida. O paladino olhou de soslaio para Olivier. Seus olhos injetados e insanos não viam o mundo através da mesma lente humana. Não via a morte macabra que aguardava Bradamante, nem o sufocamento de Astolfo, nem o definhamento de Girard.
Via o Éden de sangue sendo pavimentado para a eternidade.
— A glória exige dízimos que a razão não compreende. Marsílio tem quatrocentos mil homens. Nós temos a honra do Grande Imperador.
Ele desvencilhou o braço do aperto fraco de Olivier num movimento seco e impiedoso.
— Olhe para frente, meu irmão. A vanguarda deles finalmente chegou.
A neblina no fundo do desfiladeiro se dissipou por completo, rasgada pelo som uníssono de dez mil tambores de guerra. Uma nova maré de aço emergiu, mas não era a infantaria leve basca ou os batedores apressados. Eram as falanges de elite de Saragoça, acompanhadas pelos gigantescos elefantes de guerra trazidos da Babilônia pelo Emir Baligante, cujas presas revestidas de ferro negro e lâminas envenenadas.
— Venham, que venham todos! — urrou Roland.
O líder dos Doze ergueu a Durandal aos céus.
— Eu serei o peso que a França não pôde carregar!
Ignorando os apelos desesperados de Olivier e a extinção iminente dos outros paladinos que queimaram no próprio poder ao seu redor, Roland tensiona os músculos destroçados. A fissura em sua tíbia estalou em resposta ao próximo passo em direção ao inferno.
Os milhares de tambores da elite de Saragoça e o marchar dos gigantescos elefantes blindados da Babilônia faziam as pedras do desfiladeiro se estilhaçarem sob a vibração.
Sir Roland estava sozinho. Atrás dele, o corpo de Olivier jazia de bruços na lama fria, Hauteclaire caída a centímetros de seus dedos inertes. O rosto do estrategista afundado no sangue que tentou poupar até o último suspiro. Os gritos febris de Astolfo haviam cessado. A barreira de Bradamante colapsou, deixando para trás uma cratera de cinzas e ossos calcinados, Turpin, Gérin, Gérier… todos engolidos pela maré negra.
Ele ergueu o olhar. Seus olhos, antes avermelhados, agora eram esferas de um vermelho escuro e coagulado, vazando lágrimas de sangue pelas frestas da armadura amassada. Seus tendões rompidos, vértebras fundidas, pulmões perfurados pelas próprias costelas fraturadas.
O Emir Baligante vinha à frente da horda, montando no maior dos elefantes, cercado por uma vanguarda de escudos pesados que formavam uma muralha de aço impenetrável.
— Esmaguem o cão de Carlos Magno! — ordenou Emir. — Não deixem sequer a poeira de seus ossos para contar história!
Roland não tensionou os músculos para uma investida cega. Não ativou sua inércia ou seu escudo frontal. A mão direita, onde os ossos estavam moídos por dentro da manopla, apertou o punho dourado de Durandal.
Naquele curto momento. Toda a magia no desfiladeiro parou de fluir. A chuva, que caía inclemente, parecia suspender no ar, congelada pela história que estava prestes a ser reescrita à força.
O paladino ergueu a lâmina sagrada acima da cabeça. Sem preces a divindades, nem gritos de guerra pela França. Apenas a imposição da lâmina indestrutível contra as leis do mundo.
— Pelo dente da pedra angular, eu nego o orgulho.
O mundo foi silenciado. A única coisa que todos conseguiam escutar naquele pequeno instante eram as palavras de Roland.
— Pelo sangue abandonado nas sombras, me recuso a fechar os olhos.
— Pelo fio imaculado, eu cego os olhos do próprio destino.
— Não há recuo para a vanguarda, não há socorro para quem sangra a glória.
— A carne perece, mas o juramento é eterno!
— Que o tecido do mundo seja julgado e partido ao meio!
— Ruja meu nome, Lâmina da Promessa do Amanhã!
— Responda ao meu chamado, DURANDAL!
O que significa defesa? Um espaço que antecede o outro? Negado. Uma ação para inibir outra ação? Negado. Um propósito que fuja da sua causalidade? Negado. Uma prevenção contra o estranho? Negado.
A definição de defesa foi brevemente apagada da realidade. Roland desceu a espada em um único e perfeito corte vertical. A lâmina não tocou o aço inimigo. Onde a trajetória da arma foi traçada, o espaço foi rasgado. Uma linha imensa, de um branco ofuscante e silencioso, projetou e atravessou o desfiladeiro.
Não houve estrondo. Nem explosão de carne. A linha simplesmente ignorou a existência da matéria. Os pesados escudos de aço da elite sarracena, as armaduras de ferro negro, as couraças espessas dos elefantes da Babilônia, a própria montanha de Roncesvalles… tudo foi perfeitamente e num silêncio ensurdecedor dividido ao meio.
A montaria do Emir Baligante tombou em duas metades simétricas. O próprio, com os olhos arregalados em choque e incredulidade, escorregou para a morte enquanto o seu corpo se separava.
O exército sarraceno sobrevivente, paralisado pelo terror absoluto da força que transcendia os deuses e os demônios, quebrou a formação. Gritos de pânico substituíram os brados de guerra. Eles largaram as armas e fugiram, correndo pelas encostas, abandonando a pilhagem, a vitória e a glória, aterrorizados pelo monstro solitário de capa vermelha.
A batalha havia terminado.
Um pequeno sorriso se formou no rosto de Roland. O coração do paladino, hipertrofiado e exausto, deu uma última e excruciante batida, rompendo as próprias válvulas, caindo de joelhos.
O baque da armadura contra a pedra soou oco e patético no vale que agora só se escutava a chuva. A cegueira e a surdez o abandonaram por um milissegundo cruel, o suficiente para que a realidade desabasse sobre a alma.
— On-onde… você-es es-tão…
Olhou ao redor. O mar de sangue. Os corpos estraçalhados. Gérin, sem rosto. Astolfo, sufocado. Bradamante, queimada. E Olivier… morto no lodo por causa de uma teimosia.
Roland cravou os olhos em Durandal. A lâmina sagrada repousava na mão direita. Mesmo após cortar montanhas, aço e milhares de vidas, o metal estava imaculado. Nem um único arranhão. Nem uma gota de sangue manchava sua perfeição.
“A Promessa do Amanhã…”
— Hahah. — Uma risada rouca, borbulhante e cheia de sangue escapou entre os lábios rachados.
O “amanhã”. A promessa da lenda eterna. A garantia de que o império viveria para sempre, de que a honra jamais sangraria covardia. Foi por essa lâmina, por esse ideal intangível e frio, que ele se recusou a tocar o Olifante.
Pelo orgulho de ser o escudo de um novo amanhã, ele sacrificou o hoje. Havia moído a vida dos seus amigos e a sua própria humanidade…
— Eu fui o carrasco de Roncesvalles — sussurrou o paladino, as lágrimas vermelhas lavavam a fuligem do rosto.
A espada em mãos pesava mais do que as encostas dos Pirineus. O ódio por aquela lâmina, pela glória que ela representava, incendiou a pouca vida que lhe restava. Se a lenda exigia perfeição, ele a destruiria. Não deixaria que o Imperador celebrasse um massacre construído sobre o orgulho tolo de seu sobrinho.
Roland ergueu Durandal e golpeou violentamente a plataforma de rocha maciça de quartzo à sua frente.
CLANG!
O impacto fez o vale inteiro tremer, disparando faíscas cegantes. A rocha partiu ao meio, mas a espada continuou intacta.
— QUEBRE! — Sangue jorrou da boca.
Golpeou de novo.
CLANG!
O mármore natural estilhaçou. A lâmina reluziu.
— QUEBRE, MALDITA! ACABE COM ESSA MENTIRA!
Roland golpeava a terra, a montanha, as pedras com uma fúria insana, cega. Cada batida destruía seus ossos. Suas falanges estouraram dentro da manopla. Seus ombros deslocaram.
CLANG! CLANG! CLANG!
A rocha reduzida a pó. Durandal permanecia perfeita, intocada, indestrutível. A relíquia recusava-se a ser esquecida. Os braços do paladino finalmente cederam. Os nervos romperam, e a espada escorregou de seus dedos dormentes, caindo na lama com um baque suave.
Ele desabou para frente, o peito esmagado arquejando em busca de um ar que já não oxigenava o seu sangue. Aos poucos, a visão escurecia nas bordas. O frio da morte subia pelas pernas, paralisando a dor, silenciando a tempestade.
Rastejou no lodo. Não para fugir, nem para pedir perdão a Deus. Arrastou a pesada couraça prateada até cobrir o corpo sobre a lâmina de Durandal, e sobre o chifre do Olifante, escondendo as relíquias debaixo da própria carne destroçada.
Se não podia destruir a promessa que matou seus irmãos, ao menos faria do próprio cadáver sua bainha. Ocultaria a glória do mundo. Roland esticou o braço dormente em direção ao horizonte negro da Espanha, mantendo a face virada para o inimigo.
O mundo sempre foi regido por promessas. E ali, sob os pinheiros e a tempestade implacável, Sir Roland exalou o seu último suspiro, finalmente compreendendo a sua própria tragédia.
Ele havia sido forte o suficiente para vencer um império, mas fraco demais para engolir o próprio orgulho.

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