Capítulo 3 - Em busca de um universo livre - Parte I
Em busca de um universo livre – Parte I
Neste ano, 799 ES, Julian Mintz completaria 17 anos e, pela segunda vez, ele recebia o ano novo não sem preocupações.
A primeira vez foi quando ele se tornou pupilo de Yang Wen-li sob a Lei de Travers.
Yang, então capitão, havia se tornado Almirante, e o próprio Julian havia passado de Civil Empregado Militar a Soldado de pleno direito, avançando para Alferes. Sua compensação veio na forma de transferência para Phezzan como Oficial Residente de Yang, mas seu itinerário o desviou da Fortaleza de Iserlohn para a capital, Heinessen, e só então para Phezzan, a quase dez mil anos-luz de distância.
Não fazia nem seis meses desde que ele se despediu daqueles que amava e começou uma nova vida agitada em solo phezzanês. O que mantinha o coração de Julian sob controle era o fato de que ali era como se ele não existisse.
“Não se esqueça de encontrar uma garota bonita e trazê-la de volta.”
O Tenente-Comandante Poplin o incentivou com esse tipo de conversa, mas Julian não poderia ter uma amante, mesmo que quisesse. Se tivesse 10% da paixão de Poplin, ele poderia pelo menos ter considerado a ideia, mas…
“E assim, nosso herói morre sozinho e na obscuridade”, murmurou Julian para si mesmo.
Aos 17 anos, Julian tinha atingido 1,76 m de altura, finalmente se aproximando da altura de seu guardião, Yang. Mas apenas em estatura física, pensou Julian. O garoto de cabelos louros estava muito ciente de que, em todos os outros aspectos, mal conseguia acompanhar Yang. Ele ainda tinha muito a aprender e ainda não havia saído da proteção do Almirante Yang. Até que pudesse trilhar seu próprio caminho usando as estratégias, táticas e histórias que havia aprendido, ele sempre seria inferior ao Almirante Yang.
Em seu esconderijo, situado em um beco da Phezzan ocupada pelo Império, Julian afastou os cabelos louros que teimosamente caíam sobre sua testa. Os traços que esse gesto revelava, graciosos, mas vivazes, eram quase femininos.
Não que ele se importasse. Seu único motivo de orgulho, no momento, era o quanto ele havia evoluído desde que adquiriu conhecimento tático com Yang, habilidade com armas-de-fogo e combate corpo-a-corpo com Water von Schönkopf e técnicas de combate aéreo com Olivier Poplin.
“Ainda estamos de castigo?”, perguntou Julian a Marinesk, que havia ido ao esconderijo a seu convite.
Marinesk, que por seus bons ofícios havia providenciado uma nave espacial e um astrogador, era o Oficial Administrativo da Beryozka, uma nave mercante independente. Marinesk também era um amigo de confiança de Boris Konev, que estava ficando ansioso com sua ociosidade compulsória na capital da Aliança, Heinessen. Embora ainda estivesse na casa dos trinta, seu cabelo era ralo e seu corpo flácido. Apenas seus olhos transpareciam vitalidade juvenil.
“Ainda não. Por favor, não fique impaciente. Ah, eu disse a mesma coisa ontem, não foi?”
O sorriso de Marinesk não continha cinismo ou sarcasmo, mas Julian, ciente de sua própria impaciência e inquietação, não pôde evitar corar. No momento, a Marinha Imperial não estava permitindo a passagem de naves civis pelo Corredor de Phezzan. Por mais bem planejada que fosse sua fuga de Phezzan, eles certamente seriam capturados se partissem agora. Era provável que a Marinha Imperial permitisse a passagem de naves civis assim que as atividades militares diminuíssem, nem que fosse apenas para apaziguar o público de Phezzan. E quando isso acontecesse, seria impossível fazer inspeções espontâneas em todos as naves. Isso, garantiu Marinesk, tornaria sua fuga muito mais fácil.
Embora suas previsões e conclusões tivessem convencido Julian, tudo o que ele podia fazer era suportar as batidas nervosas de seu coração, que compeliam o menino com toda a força de um instinto de retorno.
“Seja como for, quanto tempo devemos esperar?”
Essas palavras, carregadas de descontentamento, saíram da boca do Comissário Henslow. Henslow, proprietário de uma grande empresa, havia sido abandonado por altos executivos por sua falta de perspicácia e talento nos negócios, após o que recebeu um cargo honorário no governo da Aliança e foi discretamente exilado para um planeta estrangeiro. Se a Aliança fosse sincera sobre a importância da diplomacia, um homem em sua posição nunca teria sido enviado para Phezzan, um símbolo modesto de uma democracia quebrada.
“Quanto tempo? Até que possamos partir com segurança, obviamente.”
Marinesk respeitou Julian como ele merecia, mas não mostrou a menor deferência a Henslow.
“Já pagamos por uma nave.”
Henslow não chegou a dizer que o dinheiro tinha saído do seu bolso, mas talvez isso fosse porque seus padrões peculiares não permitiam.
“E isso é tudo o que fizemos. Então, eu preferiria que você não agisse de forma tão arrogante em relação a isso. A cabine de hóspedes está em nome de Julian Mintz. Você é apenas bagagem extra.”
“Mas fui eu quem pagou por ela!”
Em um instante, o caráter de Henslow foi abalado, mas isso não afetou Marinesk.
“No que me diz respeito, foi o Alferes Mintz quem pagou. Você pode ter emprestado o dinheiro a ele, mas isso é entre você e ele e não é da minha conta.”
Mais do que o próprio Henslow, foi aquele sentado ao seu lado — o Suboficial Louis Machungo — que percebeu que Marinesk estava brincando com ele. O homem negro de proporções magníficas, cujo físico lembrava o de um touro, interveio com indiferença para neutralizar a tensão crescente.
“Marinesk, quando você entrou, percebi que tinha algum tipo de presente para nós. Será que me enganei?”
Sua consideração foi recompensada com simpatia. Marinesk abortou sua troca inútil com o comissário e se virou para o gigante de pele escura.
“Você tem um bom olho, Suboficial. Na verdade, vim aqui para lhe dar isto.”
O Oficial Administrativo de Beryozka tirou três passaportes autorizados do bolso interno.

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