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    Phezzan Ocupada – Parte IV


    Um rapaz, vestido casualmente com uma camisola e calças de ganga 1, corria por um beco, onde os da sua espécie nunca eram vistos. O seu cabelo louro comprido, os traços faciais que faziam as meninas da sua idade virarem a cabeça, olhos castanhos escuros e um corpo bem proporcionado e em forma compunham a imagem inconfundível de Julian Mintz.

    Quando ele abriu a porta de um prédio baixo e sem graça e entrou, três homens estavam à sua espera, incluindo o Subtenente Machungo e o Comissário Henslow, ambos fugidos do Gabinete do Comissário. A terceira pessoa era desconhecida para ele. Será que Machungo tinha encontrado o seu comerciante independente?


    Quatro dias antes, enquanto corria de volta para o escritório depois de ver a invasão imperial com os próprios olhos, Julian apanhou um carro com Machungo, mas a multidão caótica tornava impossível conduzir.

    “Não há nada que possamos fazer, Suboficial. Vamos sair daqui.” 

    “Vamos a pé?”

    “Não, corra.”

    Machungo seguiu-o de perto. Ele admirava muito este rapaz e faria tudo o que pudesse para protegê-lo. Era um pedido pessoal do Almirante Yang.

    Quando voltaram ao escritório do comissário, Julian encontrou todos reunidos no corredor. Ele caminhou até o Comissário Henslow e fez continência.

    “Vossa Excelência, por favor, ouça-me. Temos que apagar imediatamente o disco rígido do seu computador.”

    “Apagar?”

    A resposta do comissário foi tão obtusa que parecia demente.

    “Se deixarmos como está, todos os dados cairão nas mãos da Marinha Imperial.”

    O Comissário Henslow engasgou e desviou o olhar sem rumo, como se esperasse atribuir a responsabilidade a outra pessoa. Ninguém olhou para ele.

    “Por favor, a hora de tomar uma decisão é agora. As forças imperiais chegarão a qualquer momento.”

    Julian olhou à sua volta. Perguntou-se se ninguém iria concordar com isto, pois todos estavam em silêncio, quase apáticos. Até o chefe de gabinete e o adido militar, o Capitão Viola, ficaram ali parados, olhando para ele com rancor.

    “Não aceito ordens de pessoas como você!”

    Surpreendido com o volume da sua própria voz, Henslow enxugou o suor com a ponta dos dedos.

    “Mas, ordens à parte, parece que a sua proposta tem um valor que deve ser levado a sério. Talvez devêssemos apagar os dados do computador, mas a responsabilidade é sua.”

    Se a Aliança caísse, pensou Julian, este homem queria passar a culpa para outra pessoa.

    “Há outra maneira. Podemos deixar os dados do computador como estão e rendernos à Marinha Imperial. Ao oferecer-lhes esses dados valiosos, talvez eles o tratem com clemência.”

    Julian pretendia ser sarcástico, mas Henslow ficou em silêncio, e o rapaz ficou surpreso ao ver uma expressão egoísta surgir no rosto do homem.

    “Entendido”, disse Julian. “Assumo toda a responsabilidade. Permita-me apagar a memória do computador.”

    Havia alguma hesitação interna na sua declaração, mas se não fizesse isso, a situação ficaria paralisada. Com a ajuda de Machungo, ele apagou a memória do computador e, quando voltou meia hora depois, foi recebido por uma cena inesperada. O salão estava completamente vazio e apenas um único comissário permanecia sentado num sofá, perplexo, abandonado pelos seus superiores incompetentes. Ele sabia que aquele lugar não era originalmente um centro de lei e ordem, mas tal irresponsabilidade estava além da imaginação. Ele entendeu que, se o governo da Aliança soubesse disso, eles enfrentariam sérias consequências por abandonarem os seus postos. Ou talvez tivessem desistido do futuro da própria Aliança. O coração de Julian ficou frio com esse pensamento.

    “Você… você… te imploro, leve-me para um lugar seguro”, disse Henslow quando viu Julian.

    Honestamente, Julian via o homem como um fardo, mas não podia deixá-lo ali. Depois de dizer ao comissário para trocar de roupa por algo mais confortável, preparar algum dinheiro e uma arma, Julian fez um dispositivo de disparo automático usando um rifle de partículas carregadas e instalou-o numa janela do segundo andar.

    Encontrou o Comissário, já vestido e pronto, vagando sem rumo no andar térreo. Quando saíram do edifício, ouviram as rodas de veículos blindados móveis se aproximando.

    “O que fazemos agora? Isto tem algum sentido? Se já não estamos ferrados.”

    Estavam fora do alcance do inimigo por enquanto. Enquanto corriam pelas ruelas escondidos pela noite, Henslow voltou à sua arrogância habitual. Nunca tendo conhecido um dia de dificuldades ou adversidades na vida, parecia incomodado pelo fato de um jovem com menos de trinta anos ser agora o seu protetor. Mesmo invejando a astúcia dos seus colegas, Julian respondeu, sem ter outra escolha.

    “Vamos procurar um comerciante independente.”

    “E quando o encontrarmos, o que faremos?”

    “Pretendo fazer com que ele nos ofereça uma nave para fugirmos de Phezzan.” O comissário abanou a cabeça.

    “Hmm… Mas será que vai correr tão bem como você pensa?”

    Era isso que Julian queria saber ainda mais. Mas eles não podiam ficar ali parados, a ver o mundo mudar à sua volta. Ele queria voltar para Yang. Para o lugar onde pertencia.

    Lançou um olhar de desprezo ao comissário. Se ao menos Yang estivesse ali, em vez deste homem indigno de respeito. Quanto isso animaria Julian…


    Nos quatro dias seguintes, Julian se abrigou em um beco isolado e continuou sua busca por uma maneira de escapar de Phezzan. Uma coisa pela qual Julian era grato a Phezzan era que quase tudo podia ser comprado pelo preço certo.

    O homem apresentado a Julian por Machungo tinha cabelo ralo e pele flácida e dava a impressão de alguém cansado na meia-idade. Mas os seus olhos eram inesperadamente vibrantes.

    “Chamo-me Marinesk, capitão interino da nave mercante independente Beryozka.”

    O homem disse a Julian que achava que poderia ser útil. Como era originalmente um oficial administrativo, não tinha confiança para fazer a nave partir por conta própria, mas garantiu a Julian que se encarregaria pessoalmente de contratar um especialista.

    “A verdade é que não somos totalmente estranhos, você e eu, embora haja dois graus de separação entre nós.”

    “Dois graus?”

    “O meu Capitão, Boris Konev, e o tutor do Alferes, o Almirante Yang. Quando os dois eram crianças, bem, pareciam se dar bem o suficiente para serem chamados de bons amigos.”

    Os olhos de Julian brilharam, mas ele ficou desanimado ao saber que o capitão, outrora amigável, estava agora na capital da Aliança, Heinessen.

    “Mas eu conheço outro piloto altamente qualificado. Pode contar comigo. Para um phezzanês, um contrato é sempre sagrado.”

    Isso exigiria dinheiro, acrescentou ele.

    “Seja o que for que pagues, confio que será compatível com a coragem e habilidade necessárias para esta missão. Não acho que seja pedir muito.”

    “Também acho que não. Garanto-lhe que será suficiente. Pode encontrar essa pessoa imediatamente?”

    Ignorando os protestos de Henslow, Julian tirou cinco mil marcos da carteira grossa do comissário e entregou-os a Marinesk como pagamento inicial. Depois que ele saiu, o Suboficial Machungo olhou para o seu superior pensativo.

    “Podemos confiar nele?”

    “Acho que sim, mas…”

    Ele não podia dizer que confiava nele completamente. Mas não havia outra maneira e em qualquer caso, tinha de deixar a sua vida e o seu destino nas mãos de alguém. Julian se questionou se este Konev, além de ser amigo de infância de Yang, não seria o mesmo piloto ás Ivan Konev, o chamado Primo de Phezzan. Nunca saberia ao certo, a menos que o conhecesse.

    “Alferes, visto que estamos confiando nele, dadas as circunstâncias, devemos estar preparados para matá-lo se ele decidir nos trair. O que acha?”

    Ao ouvir isso, os ombros elegantes de Julian inclinaram-se ligeiramente. Às vezes, ele sentia-se compelido por alguém invisível a cumprir responsabilidades e deveres além da sua compreensão. Era isso que chamavam de colher o que se plantava? Era essa a consequência de querer tornar-se militar? De qualquer forma, Julian tinha de fazer o que fosse preciso para voltar para Yang e estava decidido a fazer exatamente isso.


    Veículos blindados móveis, equipados com armas de calor de cano duplo, rugiam pela rua principal, batendo no ar com o som de suas turbinas de fusão nuclear.

    Um homem que os observava de uma janela do terceiro andar clicou a língua em desgosto, um de um grupo de comerciantes independentes reunidos numa sala de um bar chamado Dracul. Com metade dos espaçoportos já bloqueados, a maioria deles estava sem trabalho, e tudo o que podiam fazer era reunir-se e distrair-se do ressentimento bebendo.

    “Diz que Phezzan sabia disso de antemão? Não acredito no que estou ouvindo! E ainda assim não conseguiram prever uma invasão imperial?”

    “E o que é que aqueles idiotas do Gabinete do Comissário em Odin estiveram fazendo todo este tempo, enviando todos aqueles relatórios inúteis sobre festas e o tempo? Afinal, parece que os funcionários do governo são mesmo inúteis.”

    “Está mesmo tão surpreendido? Não sei como são as outras nações, mas aqui em Phezzan temos idiotas sem talento mandando no pedaço. Seria inútil esperar relatórios benéficos da parte deles.”

    Esses insultos não tinham graça e quem os proferia sabia melhor do que ninguém que tentar melhorar a situação atual xingando outras pessoas nunca iria fazer voltar o tempo.

    Nuvens negras pairavam no fundo do coração de cada um deles enquanto falavam do dia em que não usariam mais o calendário que sempre conheceram.

    “Mas para onde vamos agora?”

    “Para onde vamos agora, você diz? A história vai mudar. A Dinastia Goldenbaum, Phezzan, a Aliança dos Planetas Livres — tudo isso desaparecerá. Então aquele pirralho dourado se tornará Imperador de todo o universo.”

    “Ele não está satisfeito em apenas derrubar a Dinastia Goldenbaum? É pura ganância, eu lhe digo. Não há nada de cativante nele.”

    “Cativante ou não, um idiota pode ter sucesso? Nesse aspecto, os dignitários da nossa nação são igualmente desprezíveis.”

    A sua conversa provocou risos, apesar de um certo tom de desespero.

    “Lembrem-se, somos cidadãos livres, não idiotas que se orgulham de se chamar Aliança dos Planetas Livres, ou qualquer que seja o nome. Somos um povo livre. Um Imperador benevolente é a última coisa de que precisamos.”

    Quando um deles começou o seu discurso, outro puxou-lhe a manga. Entre o grupo estava um membro sênior, um comerciante idoso que era respeitado como o mais velho entre eles. Ele abriu a boca.

    “Quem me dera nunca ter vivido tanto tempo. Assim, nunca teria de ver a frota imperial profanar as nossas ruas com os seus sapatos militares elegantes.”

    O velho comerciante deu um suspiro e os homens mais jovens à sua volta ficaram em silêncio, sem consolo.

    “Como esta era durou cem anos, eu esperava que continuasse por mais cem, mas, pensando bem, não existe nenhum precedente. Mesmo quando vi a Dinastia Goldenbaum, que durou cinco séculos, transformar-se numa versão miserável do que era, nunca pensei que Phezzan pudesse perecer. Que estupidez a minha.”

    Ao ouvir a palavra “perecer”, o silêncio aprofundou-se, quebrado por uma voz solitária.

    “É uma perspectiva assustadora, sim, mas pode ser apenas temporária. Phezzan ressurgirá. Reconstruiremos a nossa fortaleza de comerciantes independentes para cidadãos livres. Como eu estava dizendo, não precisamos de um Imperador para nos dar ordens.”

    Quem disse isso foi Kahle Wilock, mais conhecido como astrogador do que como comerciante.

    Houve aplausos e todos se viraram, com o seu pessimismo desaparecendo. Um recém chegado que estava junto à porta aplaudiu novamente.

    “Foi um ótimo discurso, Wilock.”

    Wilock sorriu para o seu velho amigo.

    “Ora, se não é Marinesk, dos Beryozka. A que motivo oculto devo o prazer desta rara aparição?”

    “Vim com um trabalho para você. Isto é, a menos que prefira fazer discursos a pilotar uma nave.”

    “Claro, pode contar comigo.”

    “Estou surpreso. Aceita sem nem perguntar os termos do trabalho?” Marinesk sorriu ironicamente para a determinação cega de Wilock.

    “Aceitaria um pedido do próprio diabo só para sair desta rotina. E prefiro o diabo em qualquer dia.”

    Wilock sorriu com ousadia.

    1. https://dicionario.priberam.org/ganga []

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